"A moda é um retrato da sociedade contemporânea. Por algum tempo a gente esqueceu isso, como se não fosse mais verdade", explica Paulo Borges
"A moda é um retrato da sociedade contemporânea. Por algum tempo a gente esqueceu isso, como se não fosse mais verdade", explica Paulo Borges | Foto: Massimo Failutti/Divulgação



Até bem pouco tempo atrás, o universo fashion dividia seus lançamentos em dois: primavera-verão e outono-inverno. Aí a globalização trouxe também as coleções cruise ou resort para movimentar ainda mais o calendário, considerando que não dava mais para seguir as estações trocadas nos hemisférios norte e sul. Depois veio o imediatismo gerado pelas redes sociais ajudando a acelerar um processo que costumava levar em média seis meses – o tempo que levava para as roupas da passarela chegarem às lojas. A onda agora responde pelo conceito 'see now buy now', ou veja agora, compre agora em bom português.

Desde o ano passado, a São Paulo Fashion Week, evento que há duas décadas vem promovendo a moda brasileira, deixou de destacar a estação, optando por um número. A 42ª edição, na semana passada, foi além e escolheu o prefixo Trans para a sua assinatura, justamente para chamar a atenção das mudanças que estão por vir. A SPFWtransn42 falou de transição, transformação e até mesmo transgressão. Em seis dias, 26 grifes participantes se revezaram nas passarelas para mostrar coleções tanto do Alto-Verão 2017 quanto do Inverno 2017.

"A gente sempre disse que para construir uma plataforma de moda no Brasil levaria 30 anos para ir construindo isso, entendendo as necessidades de mudanças, as correções de rota e o que seria o futuro. E o futuro é agora", avisa Paulo Borges, idealizador e diretor da SPFW. "Trans é ir além, é construir uma nova etapa. O futuro só existe se você mexer hoje", diz. "A gente vive um momento no mundo que é disruptivo, em que tudo está está se desfazendo para uma nova etapa, para um novo momento", avisa.



Para o diretor da SPFW, as redes sociais nos últimos quatro anos foram fundamentais para que esse processo ganhasse percepção, visibilidade e emoção. E ele traduz o emocional quando afirma que "as pessoas querem acolhimento, querem ser abraçadas, querem mudar as coisas, não querem mais as fórmulas que já existiam e isso em tudo. Olha como está a política no mundo, como está a economia no mundo, não é só no Brasil", diz. "Continuo achando que os 30 anos são necessários para que você construa uma cultura de comportamento, de conhecimento. Você forma o cidadão, uma geração nesse embasamento contemporâneo", explica.

"A moda é um retrato da sociedade contemporânea. Por algum tempo a gente esqueceu isso, como se não fosse mais verdade. O que a gente está vivendo hoje é exatamente isso, a moda como um reflexo do que está acontecendo na sociedade contemporânea", afirma Borges, citando dois desfiles emblemáticos da última edição: a estreia da grife Lab, que tem como um dos sócios o rapper Emicida, e a apresentação de Ronaldo Fraga. Para o diretor, as tais apresentações só poderiam mesmo acontecer na semana paulistana. "A moda no mundo ainda é muito preconceituosa. É muito engessada. E talvez porque nós sejamos mais jovens, tenhamos que nos arriscar mais no desenvolvimento e a gente sempre foi quebrando esses estereótipos."

Se o conceito veja agora, compre agora vai mesmo pegar ainda é uma incógnita. "A gente viveu até ontem isso ou aquilo, o fast ou o slow, o industrial ou o orgânico. Acho que você vai fazer tudo junto, é o mundo que tudo mistura. Vai se acomodar. Não existem soluções prontas. E isso que é bom. A gente está vivendo um momento líquido, nada cristalizado."

Imagem ilustrativa da imagem "O futuro é agora"
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