O Frívolo: seria o brasileiro um alienado?

O quanto ainda há de verdade no chavão de que o brasileiro médio não se interessa por assuntos importantes?

Rafael Costa - Grupo Folha
Rafael Costa - Grupo Folha

Senso comum de que o brasileiro está menos interessado em assuntos importantes do que em questões da ordem do futebol e do carnaval vem sendo abalado progressivamente nos últimos anos. 


Em uma época marcada pela polarização nas redes sociais, protestos de rua e até rompimentos familiares por causa de política, o quanto ainda existe de verdade no chavão do “brasileiro alienado”? 




O Frívolo: seria o brasileiro um alienado?
Mauro Pimentel/AFP
 




Para o cientista político da UFPR Emerson Cervi, trata-se de uma noção que já foi derrubada. “Essa ideia de que o brasileiro é apático em termos de política não se sustenta mais, em especial de 2013 para cá”, defendeu, em referência às manifestações de rua daquele ano que ficaram conhecidas como as “jornadas de junho”.    


“Esse senso comum já foi mais corrente. Hoje, pelo contrário, estão até reclamando que os brasileiros participam demais”, comenta.  


Em entrevista à FOLHA, Cervi conta que pesquisas recentes vêm revelando também um brasileiro bem informado, interessado e ciente mesmo de personalidades públicas com menor visibilidade — ainda que assuntos considerados frívolos, como informações sobre a vida privada de celebridades, por vezes mobilize mais do que temas graves.  


  

Apoiadores de Lula saem as ruas para ouvir discurso de ex-presidente no ABC Paulista, no sábado (9/11). O petista foi solto na sexta-feira (8/11) depois de passar um ano e e sete meses em cárcere na Polícia Federal em Curitiba
Apoiadores de Lula saem as ruas para ouvir discurso de ex-presidente no ABC Paulista, no sábado (9/11). O petista foi solto na sexta-feira (8/11) depois de passar um ano e e sete meses em cárcere na Polícia Federal em Curitiba | Nelson Almeida/AFP
 

No mesmo dia no Rio de Janeiro, manifestantes tomam praia de São Conrado, contra a decisão do STF sobre prisão em segunda instância que viabilizou a liberdade de Lula
No mesmo dia no Rio de Janeiro, manifestantes tomam praia de São Conrado, contra a decisão do STF sobre prisão em segunda instância que viabilizou a liberdade de Lula | Mauro Pimentel/AFP
 


“O fato de que a opinião pública discuta outras coisas em um momento em que não há um tema agudo, que a mobilize de maneira muito emergencial, não pode ser considerado como sinal de apatia”, avalia.  




Participação virtual é mais comum que presença real


 Quando se olha para as formas de participação política consideradas tradicionais, contudo, o cenário é outro. Conforme destaca Ednaldo Ribeiro, professor de Ciência Política da UEM (Universidade Estadual de Maringá) e do Programa de Pós-Graduação de Ciência Política da UFPR, pesquisas como as da organização WVS (World Values Survey), Lapop (Latin American Public Opinion Project) e Latinobarómetro mostram que indicadores de interesse por política e participação em manifestações e protestos de rua se mantêm comparativamente baixos desde os anos 1990.  

“O número de pessoas que declararam ter participado de manifestações de rua nos últimos 12 meses nunca ultrapassou 7%” Ednaldo Ribeiro,, cientista político/ UEM




“Quando a estabilidade é rompida, é para decréscimo — principalmente em termos de satisfação e adesão à democracia, o que é o mais preocupante”, explica, em entrevista por telefone à Folha de Londrina.  


O professor esclarece que o aparente paradoxo destes dados com a grande visibilidade produzida por protestos de rua desde 2013 é explicada pelo fato de que o perfil dos participantes permanece restrito a um pequeno segmento da população. 

  

“O número de pessoas que declararam ter participado de manifestações de rua nos últimos 12 meses nunca ultrapassou 7%”, cita. “Quando isso se dilui no restante da população, há a mesma falta de ativismo que sempre se verificou.” 

O Frívolo: seria o brasileiro um alienado?
AFP
 




Para o cientista político, há indicações de que a mesma desigualdade se reflete no ambiente online 


  


Diferentemente de Cervi, Ribeiro interpreta estes dados como indicadores de apatia quando comparados com os de países como Estados Unidos, Canadá e algumas nações europeias. “Em termos comparativos, nós seríamos uma população muito mais facilmente caracterizada como apática e alienada, em termos políticos, do que ativa”, diz. 

 


Para Ribeiro, contudo, as causas para este perfil são complexas e não podem ser reduzidas a um traço “cultural”.  


 “Participar demanda recursos. Estamos falando de tempo, dinheiro, conhecimento e de uma série de coisas — que incluem, inclusive, estar inserido em redes de relacionamento”, explica. “Se há melhora nesses fatores, aumenta-se o nível de ativismo apesar da cultura.” 


  

“Essa ideia de que o brasileiro é apático em termos de política não se sustenta mais" Emerson Cervi, cientista político/ UFPR


  

Alienação pode ocorrer apesar da abundância de informação 


  


Antes da popularização da internet no País, uma das leituras sobre a alienação do brasileiro considerava que o afastamento da realidade e a não-participação poderiam ser atribuídos à dificuldade de acesso à informação. Uma vez superadas as barreiras tecnológica e econômica, a informação ficaria mais disponível, resultando em menos alienação e mais qualidade da democracia no Brasil. Quase duas décadas depois, contudo, os resultados não apenas não confirmaram as previsões como podem ter criado mais problemas.  


  

Em abadás com a inscrição #morobloco - alusão ao famoso bloco de carnaval carioca - grupo pede volta do Lula à prisão e intervenção no Supremo Tribunal Federal
Em abadás com a inscrição #morobloco - alusão ao famoso bloco de carnaval carioca - grupo pede volta do Lula à prisão e intervenção no Supremo Tribunal Federal | Mauro Pimentel/AFP
 

Aos gritos de #LulaLivre, petitas comemoram saída de ex-presidente do quartel da Polícia Federal, na sexta-feira (8/11)
Aos gritos de #LulaLivre, petitas comemoram saída de ex-presidente do quartel da Polícia Federal, na sexta-feira (8/11) | Henry Milleo/AFP
 


A avaliação é do cientista político da UFPR Emerson Cervi, para quem o que se observou foi uma queda da racionalidade e a ampliação de manifestações “egocentradas e emocionais” no espaço virtual, com “pouco argumento e muita posição predeterminada”. 


  


“[A internet] não só não favoreceu aquele modelo de democracia como foi contrária a ele. O modelo de cidadão que temos hoje é muito mais bélico e desprovido de intenção de mudar sua posição original”, diz. "Com isso, a democracia sofre." 


  


De acordo com o cientista político, o que se descobriu, na prática, foi que a natureza de informação recebida pelos cidadãos no mundo digital pode gerar mais alienação, já que é mais “ideológica” e, portanto, menos ancorada na realidade. 


  


“Há uma avalanche de informações interessadas, produzidas para as posições A ou B. E esses conteúdos me levam para o mundo das ideologias. Acabo me alienando com informação”, explica.  


  


Também para Ednaldo Ribeiro, professor de Ciência Política da UEM (Universidade Estadual de Maringá) e do Programa de Pós-Graduação de Ciência Política da UFPR, o aumento do ativismo não é automaticamente positivo para a democracia — ainda que uma ideia como essa seja difícil de defender, já que parece se chocar com um ideal de cidadão ativo enaltecido desde o século passado.  


  


“Enquanto era pró-democracia, existia quase um consenso de que o ativismo era bom. Quando vemos que ele pode, inclusive, abrir portas para regimes antidemocráticos, entra o paradoxo da tolerância”, diz Ribeiro — explicando que a incorporação de grupos antidemocráticos no processo participativo coloca em risco o próprio sistema de tolerância quando eles chegam ao poder. “Nem sempre a apatia é, necessariamente, negativa”, diz. 



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