Grande parte da discoteca do Valentino vinha dos clientes: fitas e CDs caseiros batizados com o nome do bar
Grande parte da discoteca do Valentino vinha dos clientes: fitas e CDs caseiros batizados com o nome do bar | Foto: Divulgação



A noite na Londrina dos anos 1990 era efervescente, cheia de cultura. O Bar Valentino, com sua tradicional casinha de madeira, ainda estava instalado na Avenida Bandeirantes e era ponto de encontro de artistas e espetáculos.

Valdomiro Chammé conta que ele e a esposa, Rosangela Chammé, conhecida como Zanza, compraram o bar em abril de 1991. Os integrantes do Grupo Proteu, que produzia o Filo (Festival Internacional de Teatro), já frequentavam o bar e se tornaram amigos.

"Em 1992, o Filo fez espetáculos no Valentino, com o Taller de Artes de Medellin (a peça: El Bar de la Calle Luna), sessões de música com o pessoal do Odin Teatret, e nos anos seguintes, peças escritas exclusivamente para o bar, como o Escala Revue Fantasy (de Cardiff - Reino Unido), ou a nova montagem do espetáculo Barba Azul (grupo Proteu, direção de Nitis Jacon) em comemoração aos 15 anos do Valentino em 1994. O bar foi por muitos anos - e ainda é -, ponto de encontro do Filo, ponto de coletivas de imprensa, com apresentações espontâneas de música, dança e textos", lembra.

Chammé conta que na época era bastante comum os grupos de teatro apresentarem de surpresa pequenos trechos dos espetáculos que ainda iriam estrear, como forma de divulgação.

Na música, o ponto de encontro de alunos e profissionais após os espetáculos do Festival de Música era também o Valentino. Ele conta que mesmo com o palco pequeno, com poucos recursos, os frequentadores se divertiam e conseguiam até dançar, mesmo com pouco espaço.

FIGURAS

Em meio a tantos bares, o Valentino era conhecido como "o último bar que fecha", segundo Chammé.

"Assim como hoje, Londrina tinha uma infinidade de bares, desde os botecos com mesas de lata, de happy hour - como o Jota, até os bares que tinham música ao vivo - Bangcoc, Beco, Araucana, Café Set, Castelinho, Clube da Esquina. Nosso público chegava em levas: primeiro os que vinham jantar antes de outro compromisso. Depois os habitués, sentavam junto ao balcão e continuávamos o papo da noite anterior. Alguns tinham lugares 'cativos' ou drinks e comidas 'personalizados'. Depois chegava o pessoal do jogo de dardo, depois o pessoal do recém-inaugurado shopping Catuaí. A noite começava a esquentar, subia o volume de voz, subia o som, assim por diante. Chegavam as figuras da época: Comar com seus modelitos exclusivos, Jair Bala com sua dança contagiante, Maeve Mendonça e seus personagens. Mais tarde chegava o pessoal do teatro, artistas, jornalistas. O bar esvaziava e lotava sem explicação lógica. No fim da noite vinham os donos de outros bares, para relaxar e tomar uma."

DISCOTECA

Valdomiro Chammé conta que nos primeiros anos no Valentino, Zanza e ele alternavam as noites de trabalho e com isso a música ambiente também variava. Bandas como Jazzmania, Blue Up, Chaminé Batom, Iguaranoise, Banda Beco, Bandazul, UqiadibÔ, Madera, Marquinhos Diet, Pedra de Toque e Matitaperê faziam sucesso, mas o bar ia além.

"Nossa discoteca era uma colcha de retalhos. Tínhamos coisas herdadas do Pino (Giuseppe Loiacono) e Marcos Marangoni, várias bolachas de jazz e algumas raridades, como o Rabo de Peixe; do Robinson Borba; Sympathy For The Devil, dos Stones; e o Pearl; da Janis. Este abria (e ainda abre) os trabalhos sonoros da noite. Mas nosso grande arquivo vinha dos clientes, verdadeiros presentes que o bar recebia. Várias fitas e CDs caseiros vinham batizados com o nome Valentino", recorda.

Chammé pontua também que naquela época as pessoas não ligavam de o bar estar cheio, hoje a preferência é por conforto e espaço. "Acho que o Valentino foi o último bar da cidade a oferecer wi-fi. Quando perguntados, os garçons respondiam se a pessoa preferia com suco de laranja ou Fanta, uma brincadeira com o drink hi-fi. Quando a pressão ficou insuportável, instalamos o tal wi-fi", relata. O que mais chama a atenção é que as pessoas hoje se preocupam mais em produzir fotos, documentar, do que aproveitar da noite. Isto inclui curtir os shows e performances e também paquerar", afirma Chammé.

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