No início de setembro a hashtags #chernobyl esteve entre as mais comentadas no Twitter. Ao contrário do que naturalmente poderia relacionar, não se referia nem ao acidente nuclear nem à minissérie produzida pelo canal HBO. A etiqueta apareceu em posts de influencers nas redes sociais como Carlinhos Maia e Patrícia Abravanel. O primeiro por seus comentários sobre depressão de jovens e a segunda por relacionar, durante um programa de televisão, infidelidade masculina à disponibilidade sexual da mulher. Os comentários foram etiquetados como tóxicos e a hashtag ganhou novos significados.

#TÓXICO

Não é a primeira vez que a hashtag assumiu um significado diferente do seu original. Pesquisa no Twitter apontou que durante o Big Brother Brasil deste ano alguns participantes já tinham sido associados a ela, assim como o próprio Carlinhos Maia, no mês de janeiro. Já em 2018 alguns tweets sobre assuntos particulares usavam o mesmo marcador.

Para o professor e pesquisador do Centro de Educação, Comunicação e Artes da UEL (Universidade Estadual de Londrina) André Azevedo da Fonseca a ressignificação de palavras é um processo natural da língua. “Em primeiro lugar, a linguagem está em permanente transformação porque é histórica. De acordo com os desafios que o próprio contexto impõe às nossas necessidades de explicar as coisas, a gente precisa transformar a linguagem inventando palavras novas, fazendo com que palavras antigas sejam recuperadas, transformando o sentindo de algumas palavras, para fazer com que o vocabulário que temos corresponda às necessidades de comunicar coisas que são novas. Por outro lado, quando nos deparamos com fenômenos absolutamente novos, às vezes acabamos fazendo que termos antigos, ou referências antigas tentem ser utilizadas ou transformadas, para criar novas metáforas, e nos aproximar desses conceitos.”

Placa com os dizeres: "Pare! Área restrita por radioatividade" em cerca ao redor da cidade de Chernobil, Ucrania
Placa com os dizeres: "Pare! Área restrita por radioatividade" em cerca ao redor da cidade de Chernobil, Ucrania | Foto: Vitaliy Zubritsky/AFP

Como uma entidade viva a língua está em permanente transformação e a internet apenas potencializou essas mudanças, que já aconteciam mais rapidamente desde o surgimento dos meios de comunicação de massa. Segundo Fonseca, mesmo que muitas das pessoas que utilizaram a hashtag não tenham vivido na época do acidente nuclear, saberem que foi algo ruim já é suficiente para começarem a usar a palavra como sinônimo de desastre.

“O evento histórico acaba sendo incorporado, ou ressignificado, de uma forma totalmente arbitrária, ou seja, qualquer coisa pode, em última instância, ser ressignificada em qualquer momento e se transformar em outra coisa. As pessoas usam a memória social da sua forma. E não há, nesse momento da memória social, nenhum critério de veracidade. Nesse sentido, um desastre como Chernobil tem a mesma função que teria um filme do Star Wars, por exemplo. O que é importante é descobrir um termo que sirva naquele momento para poder expressar alguma sensação, ou alguma emoção, mas em geral isso é muito rapidamente esquecido”, explica.

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