Novos sentidos, velhas palavras
PUBLICAÇÃO
sábado, 14 de setembro de 2019
Erika Gonçalves - Grupo Folha
No início de setembro a hashtags
#chernobyl esteve entre as mais comentadas no Twitter. Ao contrário do que
naturalmente poderia relacionar, não se referia nem ao acidente nuclear nem à
minissérie produzida pelo canal HBO. A etiqueta apareceu em posts de
influencers nas redes sociais como Carlinhos Maia e Patrícia Abravanel. O
primeiro por seus comentários sobre depressão de jovens e a segunda por
relacionar, durante um programa de televisão, infidelidade masculina à disponibilidade
sexual da mulher. Os comentários foram etiquetados como tóxicos e a hashtag
ganhou novos significados.
#TÓXICO
Não é a primeira vez que a hashtag assumiu um significado diferente do seu original. Pesquisa no Twitter apontou que durante o Big Brother Brasil deste ano alguns participantes já tinham sido associados a ela, assim como o próprio Carlinhos Maia, no mês de janeiro. Já em 2018 alguns tweets sobre assuntos particulares usavam o mesmo marcador.
Para o professor e
pesquisador do Centro de Educação, Comunicação e Artes da UEL (Universidade
Estadual de Londrina) André Azevedo da Fonseca a ressignificação de palavras é
um processo natural da língua. “Em primeiro lugar, a linguagem está em
permanente transformação porque é histórica. De acordo com os desafios que o
próprio contexto impõe às nossas necessidades de explicar as coisas, a gente
precisa transformar a linguagem inventando palavras novas, fazendo com que
palavras antigas sejam recuperadas, transformando o sentindo de algumas
palavras, para fazer com que o vocabulário que temos corresponda às
necessidades de comunicar coisas que são novas. Por outro lado, quando nos
deparamos com fenômenos absolutamente novos, às vezes acabamos fazendo que
termos antigos, ou referências antigas tentem ser utilizadas ou transformadas,
para criar novas metáforas, e nos aproximar desses conceitos.”
Como uma entidade viva a
língua está em permanente transformação e a internet apenas potencializou essas
mudanças, que já aconteciam mais rapidamente desde o surgimento dos meios de
comunicação de massa. Segundo Fonseca, mesmo que muitas das pessoas que
utilizaram a hashtag não tenham vivido na época do acidente nuclear, saberem
que foi algo ruim já é suficiente para começarem a usar a palavra como sinônimo
de desastre.
“O evento histórico acaba sendo incorporado, ou ressignificado, de uma forma totalmente arbitrária, ou seja, qualquer coisa pode, em última instância, ser ressignificada em qualquer momento e se transformar em outra coisa. As pessoas usam a memória social da sua forma. E não há, nesse momento da memória social, nenhum critério de veracidade. Nesse sentido, um desastre como Chernobil tem a mesma função que teria um filme do Star Wars, por exemplo. O que é importante é descobrir um termo que sirva naquele momento para poder expressar alguma sensação, ou alguma emoção, mas em geral isso é muito rapidamente esquecido”, explica.