Nos tempos do 'Pirulito'
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sábado, 03 de fevereiro de 2018
Lais Taine<br>Reportagem Lopes 

Houve um tempo em que o Carnaval de Londrina movimentou a cidade. Na década de 1960, os carros desfilavam pela avenida Paraná e as pessoas, em suas fantasias e alegrias, jogavam a serpentina e faziam colorir a festa e o riso. Também vieram os clubes e suas noites badaladas, as escolas de samba com suas cores e os blocos cantando e dançando na rua para diversificar a folia. O saudosismo de uma cidade que foi diferente.
"Balança o saco, meu bem. Balança o saco, meu bem. Balança o saco de confete e serpentina. Tá todo mundo dando, tá todo mundo dando meia volta no salão", canta Apolo Theodoro, 72, um fluminense que chegou em Londrina aos 10 anos. Na memória do jornalista e ator, as bagunças carnavalescas que a família fazia em Laje do Muriaé (RJ), a influência que o levou a transformar alegria em bloco em uma cidade menos afetuosa com a folia. "Eu gosto muito de Carnaval. Eu sou do estado do Rio de Janeiro e lá é quase data cívica", comenta.
Theodoro iniciou o Bloco do Pirulito com quatro amigos, um deles liberado pela Lei da Anistia, em 1979, o que permitiu um Carnaval mais comemorativo em 1981. Eram quatro homens vestidos de mulher fazendo graça na avenida. Nesse período, a atenção era disputada com as escolas de samba da cidade. "A gente era bem irreverente. Passava uma escola de samba e a gente ia atrás. As autoridades vinham, a gente ia para o meio do público. Os guardas vacilavam, a gente ia entrando de novo", recorda com alegria.
Em 1985, o Bloco contava com 50 pessoas, a maioria homens fantasiados com roupas femininas. Até então, os desfiles mudaram de endereço muitas vezes. Avenida Paraná, Sergipe, Higienópolis, Maringá, mas foi no encontro entre alameda Miguel Blasi com rua Professor João Cândido, ponto do palanque com as autoridades, que o ator guarda uma história.
"Nós falamos para o guarda: 'Ó, seu guarda, nós somos o elemento surpresa nessa escola de samba que tá vindo aí e quando ela estiver chegando na beira do palanque, a gente vai entrar e queria pedir para o senhor abrir caminho'. E o guarda acreditou! Ele foi abrindo e nós entramos sambando na frente do palanque. A hora que o guarda descobriu que era mentira
Ele juntou a turma e nós saímos correndo rua João Cândido abaixo, ninguém pegou. Depois voltamos", conta entre risos.
A turma movimentava a festa. Uns brincavam, registravam em fotos, cantavam e seguiam o Bloco em folia. A maior parte das vezes era divertido, mas uma vez houve confusão em lanchonete causada por uma troca de sanduíche feita pelo garçom e a falta de crédito que tinham alguns homens de saia. O que era engano, se tornou discussão.
"Eu falei assim: não precisa chamar a polícia não, cara, a gente vai pagar, pode confiar na gente. Eu vestido de saia, com aquela peruca". A polícia foi acionada, levando os amigos ao colégio Vicente Rijo, o destino para quem não se comportava durante as festas do Carnaval. Um amigo advogado e jornalista resgatou os bagunceiros. "Ele foi tirar a gente do xilindró e nós saímos sambando de lá da cadeia e voltamos para o auê", anima-se.

BLOCO DE UM HOMEM SÓ
Em 1989 foi a última vez do Bloco do Pirulito. Theodoro saiu sozinho, fantasiado e com um penico na mão que carregava uma mistura de cerveja e linguiça, homenagem a um senhor de sua cidade natal. "Mas o povo ficava horrorizado", diverte-se. Nesta época, o Carnaval era no Autódromo Internacional Ayrton Senna, com a competição de cinco escolas de samba da cidade. A solidão deu espaço a novas amizades. "Foi triste, mas encontrei um camarada que embarcou junto comigo."
O Bloco do Pirulito foi uma tentativa de criar uma tradição na cidade. "Acho que o espírito carnavalesco aqui não grudou, não por culpa do povo, mas as autoridades nunca trataram o Carnaval como uma data que a cidade pudesse ter alguma referência", lamenta. Por ser um amante da festa, se incomoda com a falta de entusiasmo. "Eu fico muito triste porque o Carnaval é uma festa brasileira e é uma festa que desarma os espíritos, que as pessoas relaxam, é um momento de folia e descontração", defende.
Theodoro lembra de tudo com muita alegria e nostalgia. Carnaval de corso, Livro Ouro e o Jabá (homem responsável por arrecadar dinheiro para a Unidos Independente, escola de samba do jardim Vila Nova); Délio César, seu amigo que ajudou a tirá-lo da punição no Vicente Rijo; Escola de Samba Chão de Estrelas, que chegou a trazer carnavalescos do Rio de Janeiro para dar uma força na bateria; os amigos Carlos Roberto Barbosa, Domingos Pellegrini, Maurício Saraiva; os hinos que levavam o público a cantar e seguir os homens de saia, as vaias, as folias, as confusões...
Há dois anos, Theodoro fez uma tentativa de levar o apelidado Bloco do Apolo para a rua. Guarda ainda a saia emprestada de uma amiga, as perucas e os óculos ornamentados para serem usados, quem sabe, neste ano. "Eu vou ficar por aqui mesmo. O nosso bloco é muito da hora, se a turminha pegar fogo...", aguarda o chamado.


