Foram meses de trabalho intenso de cientistas e pesquisadores em todo o mundo. Imersos em laboratórios, o resultado do esforço veio em dezembro: em tempo recorde, as primeiras vacinas contra o novo coronavírus foram aprovadas e começaram a ser aplicadas em diversos países do mundo. Em meio ao alívio e à esperança trazida pela picada imunizadora, os brasileiros adicionaram mais dois insumos à guerra contra a pandemia: música e humor. Além de memes pedindo uma "Pfizer geladinha", paródias musicais, marchas e versos foram criados também em grande velocidade para celebrar e estimular a vacinação. Sim, por incrível que pareça, estimular. Afinal, mesmo sendo um objeto de desejo no início da pandemia, algo que poderia evitar mortes e nos trazer a vida normal de antes do caos, o imunizante passou a ser atacado, difamado e descredibilizado por inúmeras pessoas – inclusive autoridades.

Imagem ilustrativa da imagem No ritmo da vacina
| Foto: Folha Arte/iStock

Com o Carnaval de 2021 suspenso ou adiado até segunda ordem, a criatividade voltou-se para exaltar a vacina. Criador de um funk chamado “Bum Bum Tam Tam”, de 2017, MC Fioti fez inveja aos autores das famosas canções do grupo É o Tchan, que explodiram nos anos 90. “Vem com o bum bum tam tam / vai mexe o bum bum tam tam” faz parte do refrão. A associação com o Instituto Butantan, parceiro da chinesa Sinovac na produção da vacina Coronavac – única sendo aplicada no Brasil até o momento – foi imediata. O MC aproveitou o momento e atualizou a letra. “A vacina envolvente que mexe com a mente / de quem tá presente / a vacina saliente / vai curar muita vida e salvar muita gente / vem cá vacina, tam / vem cá vacina tam tam tam”. Foi o que bastou para a internet ferver em memes e paródias.

Como a criação de MC Fioti tem inspiração nos acordes do compositor alemão Johann Sebastian Bach, a Orquestra Sinfônica da Bahia pediu passagem e entrou na brincadeira. O diretor artístico e maestro Carlos Prazeres compôs uma nova letra e gravou, ao lado de outros sete músicos. “É a Osba envolvente que é consciente / E pra tá presente / nos concertos da gente / toma vacina e vem sorridente / eu falei assim pra ela / eu falei assim pra ela / confia no Butantã / e na vacinação / confia no Butantã / e na vacinação”, trazem os versos.

E não parou por aí. No Instagram, as gaúchas Martina Fröhlich e Amanda Gabana protagonizam outra paródia de MC Fioti para incentivar a vacinação e celebrar o trabalho dos profissionais da saúde e cientistas. No lugar da introdução “é a flauta envolvente / que mexe com a mente / de quem tá presente", elas cantam: “a vacina envolvente / que mexe com a mente / de quem tava descrente”. E ainda incluem um “cientificamente falando / vacina aí, pô!”. “Logo que o Instituto Butantan começou a pesquisa eu já pensei nessa música, por causa da letra e desse sentimento de animação em relação à vacina. Fiz um vídeo que teve quase 30 mil visualizações, aí a Amanda logo pensou numa parte da letra e decidimos gravar”, explicou Martina.

Outras paródias de famosas músicas brasileiras também começam a ganhar a internet. Um dia após a aplicação das primeiras doses da vacina Coronavac, em São Paulo, a Sociedade Brasileira de Imunologia (SBI) divulgou um vídeo intitulado “Dança da Vacinação”, uma adaptação do clássico “Dança da Solidão”, de Paulinho da Viola e Paulo Cesar Baptista de Faria. Interpretada por Rosana Puccia, biomédica e pesquisadora da área de Micologia Médica e professora da Escola Paulista de Medicina da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), a letra começa com “Isolado em casa / longe de tudo / amargura não é pouca / tão triste chora o mundo”. O auge vem no refrão, no “compasso da vacinação”. “Vacinação, vacinação / tomo eu, toma você / e toda a população”. No final, ainda tem um “Meu pai sempre me dizia / com a Pólio tome cuidado / mas depois da Salk e Sabin / isso é coisa do passado”. Com o sucesso, a biomédica comentou a repercussão nas redes sociais. “Está sendo sensacional, foi divulgado entre a classe médica inicialmente, e agora viralizou. E, é claro, temos o aval do Paulinho da Viola, autor da versão original. Estou muito feliz em colaborar com este trabalho”, comemorou.

Criatividade de anônimos e famosos

Conhecidos e desconhecidos aproveitam o tema do momento para emplacar novos sucessos

Além das paródias, novas letras também foram compostas para comemorar a luz no fim do túnel trazida pelos imunizantes. Felipe César, um estudante paraibano, lançou o “Pagodinho da Vacina”. “Pode ser da Fiocruz ou do Butantan / Por mim eu tomaria essa vacina amanhã / O Amazonas vai tomar também / A Paraíba vai tomar também / Lá em São Paulo vão tomar também / E todo mundo vai ficar tão bem”.

Outro César – esse bem mais famoso – também não ficou de fora. É o cantor e compositor Chico César, que lançou no Instagram a marchinha “Pico”. Aliás, não foi a primeira canção dele durante a pandemia. Em abril, ele apresentou “Se essa praga morresse”. No mês seguinte, deu nomes às vítimas fatais da Covid-19 na música “Inumeráveis”, composta a partir de poema escrito por Bráulio Bessa, com dados do memorial também intitulado “Inumeráveis”, disponível na internet. E, em junho, o cantor trouxe “Sobre-humano”, canção sobre reflexões surgidas durante o isolamento social.

Com “Pico”, Chico César, além de estimular a vacinação, inclui doses de crítica política ao comportamento dos governos durante a crise sanitária. “Eu vou tomar vacina / Quem não quiser / Que tome cloroquina / Não vou passar vergonha / Quem não quiser / Que escute esse pamonha / Estou já de braço esticado / Com o muque amarrado / Pra tomar esse pico / Se o vírus me pega e me agarra / Cadê minha marra? / Como é que eu fico? / Não brinco o Carnaval nem um tico”.

No Twitter, a “guerra” de versos estimulando a busca pelo imunizante também é grande. O perfil oficial do Olodum, no domingo, comemorou a aprovação das primeiras vacinas. “Anvisa lá / Anvisa lá / Anvisa lá, ô, ô / Anvisa lá que eu vou”. Outros usuários brincaram com letras de É o Tchan. “Vai sentindo a picada da agulha / Vacina mais, vacina mais um pouquinho / Vacina mais, vacina devagarinho”.

Quem está só assistindo se divide entre apoios e críticas. O aposentado Moacir Barbosa está na expectativa. “Vou tomar a vacina, mas vai demorar para chegar a minha vez, porque antes são os profissionais da saúde. Sobre as músicas, não acho que é hora para isso, é brincar com coisa séria”, avalia. Já para o epidemiologista Celso Rezende, as brincadeiras devem ajudar a arrefecer a “animosidade” gerada contra a vacina, devido às fake news. “O que, há um ano, era desejo e esperança, de repente, devido à uma triste campanha de desinformação, passou a ser inimigo para uma parte da população. Então acredito que esse engajamento, que a leveza dessas canções ajudem a motivar e esclarecer a população de que sim, as vacinas são boas, são seguras e vão nos ajudar a sair desse pesadelo. Acaba gerando uma onda positiva importante”, analisa.

Cabeleireira e esteticista, Rosângela Silva concorda. “Tantas doenças foram imunizadas, por que não agora? Vou tomar, estou confiante”, explica. Para a diarista Valdineia Galdino, “se correr o bicho pega, e se ficar o bicho pega também, então é melhor se arriscar”. “Se tomar a vacina, o risco é de 50%, se não tomar é 100%”, completa. A fisioterapeuta Regina Helen vai além – diz que já está pronta e com as músicas decoradas. “Vou cantando marchinha, pagode, música clássica, o que tiver. Vamos espalhar alegria e ciência para voltar ao normal”, promete.

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