Um dos últimos fenômenos da internet conta a trajetória de uma senhora de identidade desconhecida que envia para a amiga íntima (a Neiva) os detalhes picantes de um encontro amoroso desastroso. A conversa foi compartilhada nas redes sociais e viralizou, ganhando memes e até citação em campanhas promocionais de lojas e produtos. Embora muitos digam que se trata de uma Fan Fic (literatura fantasiosa, em livre tradução) , as duas amigas vieram à público e em entrevista ao site do UOL elas contaram a sua versão da história. Ivete e Neiva ainda falaram sobre a fama repentina "Apenas maravilhosas!", segundo o site.

O professor especialista em redes sociais da Universidade Presbiteriana Mackenzie, José Maurício Conrado, garante que a situação é mais comum do que se espera e é preciso cuidado. “Estamos em uma época em que compartilhar mensagens é prioritário e as pessoas parecem não refletir muito sobre que tipo de informação está sendo compartilhada, com quem, quem enviou. Parece que tem algo maior, que é justamente essa coisa interativa. O Whatsapp tem uma facilidade muito grande de compartilhar e isso pode gerar situações realmente constrangedoras”, alerta.

Imagem ilustrativa da imagem “#Neeeeiva do Céu...” : Do privado ao público
| Foto: Folha Arte

Ainda segundo o professor, embora a fofoca sempre tenha existido, as redes sociais deram outra materialidade para elas. Por isso vale ter muito cuidado com essa visibilidade e repensar de forma racional sobre o que (re)publicamos. “Do mesmo jeito que discutimos sobre o excesso de lixo material, também precisamos discutir sobre o excesso de informações. Toda vez que trocamos coisas em excesso, justamente sem checar, estamos contribuindo para uma situação com a qual nosso cérebro não consegue lidar.”

Conrado explica que se antes a comunicação seguia o paradigma de “um para todos”, hoje o que está vigente é o “todos para todos” e justamente devido a essa visibilidade é que assuntos aparentemente banais podem se tornar de interesse público.

“Por mais que eu mande uma mensagem ou fale exclusivamente com uma pessoa, as redes sociais são um espaço aberto, tem outras pessoas assistindo. Em uma rede social tenho uma exposição muito grande, aumento o número de pessoas que estão interpretando e têm acesso. E como cada um interpreta de uma forma, algo que possa parecer simples ganha interpretação por outra pessoa, que compartilha e isso encontra ressonância em outras pessoas que concordam com ela. A grande questão da internet é o excesso de visibilidade a que estamos sujeitos nas redes sociais. E aí você tem muitas pessoas olhando essas informações e reinterpretando essas coisas, transformando em memes e assim por diante.”

icon-aspas A questão entre os presidentes ocorreu 'campo aberto’ na internet., mas quando uma conversa privada, uma mensagem enviada na certeza do particular, se torna viral, novos questionamentos devem ser feitos

Segundo ele, por estarmos na era da sociedade do espetáculo tudo tem que estar visível e é por isso que assuntos privados acabam sendo tratados de forma pública. O problema é que nem todos têm noção de quanto essa exposição pode ser perigosa, ainda mais quando a mensagem vem de pessoas que ocupam posições de destaque.

“A comunicação tem mais relação com o mundo geopolítico do que se possa imaginar. Uma mensagem pode gerar uma crise diplomática, o que parece ser muito o caso recente da troca de mensagem do nosso presidente (Jair Bolsonaro) e o presidente da França (Emmanuel Macron). Ele se esquece totalmente dos protocolos, não para para pensar justamente nesses ambientes nos quais estamos. As redes sociais são ambientes com alto grau de visibilidade. Uma coisa é 'eu, figura pública' usando isso, olha os cuidados que eu preciso ter, outra coisa sou 'eu, minha vida privada'. Em ambas as situações temos o excesso de visibilidade e os cuidados que temos que ter com isso”, explica.

'JOGO DE APROVAÇÕES'

Para o cientista social e professor da Faculdade Cásper Líbero, Luís Mauro Sá Martino, embora a internet não seja nova ainda estamos aprendendo a lidar com ela e precisamos estabelecer sobretudo limites do que é público e o que é privado. “Existe uma questão que é o reconhecimento público das nossas relações pessoais. Em muitos aspectos buscamos essa aprovação, ela é importante para nos sentirmos bem e nas redes sociais estamos dentro desse jogo de aprovações. Só que não é tão simples porque é um espaço público. Assim como alguém me vê na rua e diz que é ridícula a roupa que estou usando, nas redes sociais, quando tornamos público alguma coisa, precisamos lembrar que os julgamentos virão. Em alguns casos são negativos, em muitos, destrutivos.”, alerta.

Martino acentua que, principalmente quando se trata de pessoas públicas, a exposição, mesmo que não tão favorável, garante visibilidade. É o velho ditado “fale bem ou fale mal, mas fale de mim”, na era virtual. “A meu ver não existe mais uma diferença entre on-line e off-line, real e virtual. Vivemos conectados o tempo todo e o que acontece na internet tem consequência fora das redes. O que conversamos on-line vai ter consequências para minha empresa, para minha imagem, para os meus amigos. Imagine que uma empresa resolve se posicionar contra ou a favor de uma determinada questão social. Ela tem que calcular muito bem qual vai ser o impacto que isso vai ter nos negócios. Se eu me posiciono a favor de um público ou apoiando uma causa que está ligada a um público, eu sei que quem não concorda vai me olhar de outra maneira, de maneira negativa, eu vou perder um público. Para as chamadas figuras públicas isso conta muito".

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