'Não imaginam que isso é mera terra de barranco'
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sexta-feira, 08 de março de 2019
Lais Taine<br>Reportagem Local 

A transformação do solo em tinta não é exatamente uma novidade, mas pintar em vermelho terra o que nasceu cinza traz o seu charme quando os motivos envolvem relação afetiva, histórica e filosófica. Não por economia ou necessidade, foi por amor à terra e por estilo de vida que professor de Londrina coloriu a casa com a terra roxa do próprio quintal, trazendo à tona seus símbolos e memórias.
"Eu tenho a herança de ser nascido aqui no Norte do Paraná, eu cresci em um sítio nas vizinhanças de Jandaia do Sul. Eu me lembro de brincar nas enxurradas, na lama vermelha, e isso me fez criar uma relação com a terra", conta Moisés Alves de Oliveira, professor universitário formado em química com doutorado em educação.
O olhar questionador de filósofo o levou à decisão de tornar a terra do próprio quintal em uma tinta forte o suficiente para segurar a cor e seus simbolismos, um processo que por si já é cheio de significado. "Eu tenho pensado na ideia de transgressão. Na forma como Nietzsche dizia, no sentido de você libertar o espírito de novo, de se tornar potência, voltar a ter bons sentimentos, eu levo isso a sério", afirma.
Questionar, pensar além, tentar ir por outros caminhos está em toda a casa, desde a mesa que ele mesmo construiu a partir da madeira de demolição de antigas propriedades à toalha artesanal feita de crochê pela esposa, Majorie Oliveira Vargas. Filosofia que a família teve a oportunidade de aplicar quando se mudou para o novo endereço há quatro anos.
A tinta faz parte desse processo, além de ser feita da terra, a cor também sai do padrão dos muros das casas da vizinhança. "Isso (a padronização de cores) parece uma pasteurização, uma espécie de cânone, não vem só de escolher uma tinta para não ter dor de cabeça, tem uma espécie de padrão, de não sair da norma. Quando fizemos a opção, a gente sentiu frio no estômago, que é quando você se incomoda e assume a responsabilidade por essa outra forma, você transgride. Algumas pessoas até hoje olham e não imaginam que isso é mera terra de barranco", afirma.
Não imaginam, mas a técnica não é exatamente uma novidade, nem foi uma invenção do professor, aliás, foi vendo a aplicação em outra residência que veio a inspiração. "Nós vimos e ficamos apaixonados, um tom terracota que eu acho muito bonito e por que a gente não poderia ter essa coragem de fazer?", pergunta. A união de ideias transformou o barro em algo mais significativo.
Do conhecimento adquirido pela formação química à experiência pessoal. "Quando eu li o livro Terra Vermelha, do Domingos Pellegrini, há muitos anos, achei muito legal, a história bonita, tudo isso foi criando esse arcabouço", conta. As memórias que foram construídas estão expressas hoje nos muros da casa, sinalizando além de uma questão de estilo de vida, a história, a simplicidade no modo de fazer e no que ela representa, entre todas as coisas, a paixão pela terra roxa do Norte do Paraná.


