Nadando contra a correnteza


Lais TaineReportagem Local
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"Cada arremesso é um aprendizado, um negócio novo, por mais que seja no mesmo local, com as mesmas pessoas, é um negócio diferente", diz o empresário Marco Aurélio Begnini
"Cada arremesso é um aprendizado, um negócio novo, por mais que seja no mesmo local, com as mesmas pessoas, é um negócio diferente", diz o empresário Marco Aurélio Begnini | Fotos: Anderson Coelho



Um grupo de amigos unidos pela mesma paixão: pescaria. O fascínio levou ao aperfeiçoamento, com equipamentos modernos, técnicas inovadoras e organização de torneios. Disso, surgiu a LNPPE (Liga Norte Paranaense de Pesca Esportiva), que conta hoje com 80 equipes disputando o maior exemplar de tucunaré da região. Além da competição, boas histórias e consciência ecológica.

Escolher a vara, a carretilha, as iscas… E quantas iscas! O empresário Marco Aurélio Begnini, 31, confessa ser um pescador compulsivo ao apresentar sua maleta de peixinhos artificiais nas mais variadas cores. "Existem iscas de R$ 15, outras de R$ 300. O equipamento até pode ser caro, mas se cuidar dura para a vida toda", defende. No entanto, a quantidade demonstra o que parece ser um vício. "Tem pescador que tem mais de 2.000 iscas", revela o advogado Kléber Franco, 40, apontando discretamente o amigo.

Se no equipamento há exigências, a prática se dá na simplicidade. Em viagens de pesca, todo dia é dia de embarcar para o meio do rio, com saída às 5h, levando as ferramentas e o almoço, que não é nada parecido com um banquete. "Normalmente é pão, presunto e muçarela", conta Begnini. Quando o sol começa a se esconder, é hora de voltar para a pousada já pensando em melhorar a técnica para o dia seguinte.

E assim vão descobrindo o que cada rio revela. "Não existe um episódio igual ao outro. Além das belas imagens, você sempre será provado, sempre será colocado em xeque. É aí que entra a destreza do pescador, da sorte", conta Franco. E se a filosofia de Heráclito diz que o homem não pode atravessar o mesmo rio duas vezes, a comprovação está ali. "Cada arremesso é um aprendizado, um negócio novo, por mais que seja no mesmo local, com as mesmas pessoas, é um negócio diferente", afirma Begnini.

Entre um dia de pesca e outro, há um leque de histórias de pescador, que, com ajuda da tecnologia, consegue se comprovar. Se não fosse pela câmera, quem acreditaria que Begnini teria pescado dois peixes em um só arremesso? "Uma vez eu capturei um tucunaré que estava com um peixe dentro da boca. Até gravei porque ninguém ia acreditar", mostra, ainda impressionado, o vídeo.

NATUREZA
Gostar de natureza é uma exigência, mas a prática é diferente do que muitos imaginam. O homem urbano curioso sempre questiona os amigos sobre locais para dormir e infestação de mosquitos, mas eles revelam que a pesca esportiva é muito diferente. "Todo mundo pensa que quando alguém vai pescar, fica todo mundo quieto, parado. Na pesca esportiva, você não fica parado, fica se deslocando. É raro ter ataque de pernilongo ou passar calor, porque você está sempre em movimento", afirma o empresário César Gomes Filho, 38.

Nesse movimento, 500 a 1.000 arremessos por dia até encontrar a técnica correta para pegar o peixe e, quando consegue acertar, vem a adrenalina. "Quando você pega um peixe desse tamanho, não consegue pensar em nada, só quer tirar ele de lá", afirma Begnini. No entanto, a atividade começa muito antes, com o processo de preparação.

A paixão vai desde a escolha de um equipamento, um ano de antecipação da viagem para reservar hotel e passagens, e torcer para que a bagagem não seja extraviada. "Você fica sem roupa, mas sem equipamento você não fica. A gente morre de medo de extraviar", brinca Begnini.

O aficionado explica que, apesar de o medo de perder a mala na viagem seja real, qualquer pessoa pode começar com o essencial. "Vara, carretilha e um kit básico de iscas são suficientes", indica. Mas se a paixão pegar de verdade, talvez se chegue ao nível dos amigos, que, entre histórias e risos, levam a seriedade do esporte e o nome gravado no material.

PESQUE E SOLTE

Saber manipular o peixe é essencial para que ele volte à natureza sem prejuízos, por isso a exigência de iscas artificiais. A pesca esportiva prega o pesque e solte, salientando que o peixe vivo tem muito mais valor para a região. "Tentar colocar, onde se tinha extrativismo, a consciência da pesca esportiva. Porque é mais vantagem ter o peixe vivo, ele gera uma cadeia muito grande: hotéis, turismo de pesca, trazendo muita economia para as próprias cidades ribeirinhas, o pessoal ainda não descobriu esse lado", afirma o advogado Kléber Franco,40, da LNPPE (Liga Norte Paranaense de Pesca Esportiva).

Com isso, buscam difundir a ideia aos mais novos como prática contrária ao extrativismo desenfreado, o que provoca o desaparecimento de muitas espécies. "Um mineiro que estava com a gente estava participando de um campeonato, ele disse 'gente, tenho tanta vergonha de ter matado tanto peixe na vida'. Ele vive em um local que hoje não tem mais peixes. Hoje a consciência dele mudou", conta o empresário César Gomes Filho, 38. A nova geração de pescadores, como filhos e sobrinhos, já vê maior preocupação com a vida do animal, buscando sempre manuseá-lo de forma adequada.

Os amigos entendem que a pesca esportiva é uma prática que precisa ser ainda propagada, porque assumem ter aprendido da forma mais comum na cultura. "Minha família era desse tipo de pesca, de subsistência. Nós ficávamos horas e horas para pegar um peixe, via-se que o peixe já estava em escassez", revela Franco. Assim, mudando o foco de trabalho da região e ensinando o manuseio de peixes aos pescadores, eles acreditam manter os animais sempre vivos.

Assim, o objetivo dos torneios é divulgar o potencial turístico, conscientizar os pescadores e população da importância da prática esportiva, desenvolver a consciência ecológica destacando também a importância de denunciar atividades predatórias ou irregulares e despertar e sensibilizar autoridades para a normatização da prática. Para que a atividade esteja dentro da legalidade, é preciso o aval de órgãos como Marinha do Brasil, MAPA (Ministério da Agricultura), IAP (Instituto Ambiental do Paraná), IBAMA (Instituto Brasileiro do Meio Ambiente), Força Verde e Defesa Civil. Interessados em saber mais sobre a Liga podem acessar o site: http://lnppe.com.br

MALETA DE PESCADOR

Nadando contra a correnteza
Anderson Coelho



Apaixonados por pesca são atraídos por uma boa maleta cheia de equipamentos. Entre iscas, varas, carretilhas e acessórios, os empresários Marco Aurélio Begnini e César Gomes Filho, da LNPPE (Liga Norte Paranaense de Pesca Esportiva), falam sobre o que é importante ter quando o assunto é pesca esportiva. Veja vídeo abaixo:



ATENÇÃO À PIRACEMA

Todos os anos, os peixes nadam contra a correnteza do rio para realizar a desova, fenômeno conhecido pelo nome de Piracema. A instrução normativa 25/2009 do Ibama (Instituto Brasileiro de Meio Ambiente e Recursos Hídricos) e portaria (206/2016) do IAP (Instituto Agronômico do Paraná) formalizam a restrição de pesca neste período.

No Paraná, desde 1º de novembro de 2017 até 28 de fevereiro de 2018 há restrição. A intenção é proteger a fauna aquática ao proibir a captura de espécies nativas nos rios e reservatórios do Estado. Neste período, a atividade é permitida somente em reservatórios artificiais e a pesca de espécies consideradas exóticas não faz parte da restrição. Também são permitidos campeonatos e gincanas em águas continentais, desde que o animal capturado seja devolvido.

A fiscalização é feita pelo IAP e Polícia Ambiental em todo o Paraná. A multa para a pessoa que for flagrada pescando em desacordo com as restrições é de aproximadamente R$ 700 por pescador e mais de R$ 20 por quilo pescado. Os materiais de pesca, como varas, redes e embarcações, poderão ser apreendidos pelos fiscais. Tanto para a pesca amadora como para a profissional é necessária a posse da documentação do Ministério da Pesca.

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