Na ponta da língua
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sábado, 19 de janeiro de 2019
Lais Taine<br>Reportagem Local 
Na língua portuguesa muitos termos considerados ofensivos geram conflitos atualmente. Vanderci de Andrade Aguilera, professora sênior em pós-graduação em estudos da linguagem, da UEL (Universidade Estadual de Londrina), comenta a importância do contexto histórico e cultural dos termos. "Não é a palavra que está em jogo e sim o contexto. Vai depender da sua intenção, você pode ofender uma pessoa sem usar uma palavra politicamente correta", afirma a professora.
Além das ofensas, algumas palavras também carregam sentido pejorativo mesmo que as pessoas não se deem conta do seu sentido original, como judiar, denegrir e servos. No entanto, a pesquisadora afirma que as pessoas não as utilizam mais com o mesmo viés. "O sentido original já perdeu a força, ninguém se lembra que o denegrir vem do negro, escravo, e que judiar vem do judeu que machucou Jesus", argumenta.
Na ordem contrária, termos não considerados ofensivos na etimologia ganharam conotação negativa. "Moleque é uma palavra africana que significa menino. Não nasce com conotação pejorativa, mas nós vamos construindo outros significados para ela. A palavra tem valor social, mas depende do contexto", afirma.
O cuidado com as circunstâncias históricas das palavras já foi motivo de discussão na literatura. "O fato de quererem tirar Monteiro Lobato da literatura infantojuvenil porque faz referências racistas... Ele já foi retirado tantas vezes, é ignorância extrema. Assim como a música 'Atirei o pau no gato', nós cantamos tanto isso e ninguém saiu matando gatos por aí. Faz parte do nosso folclore, da nossa cultura", afirma.
O uso dos termos indicados como corretos é um debate que permanece ainda na esfera acadêmica. "Em congressos de linguística não se coloca mais pesquisadores ou pesquisadoras, botam pesquiadorXs", menciona com crítica às mudanças.
Apesar dos esforços para se retratar às pessoas com respeito, Aguilera acredita que é preciso mais profundidade. "Se você for ignorante e desrespeitoso, vai usar o vocabulário que quiser e vai continuar desrespeitando, continua ignorante. Mudar o discurso não basta, tem que mudar os valores e visão de mundo. O vocabulário não muda nada se a gente não mudar a forma de pensar em relação ao outro", finaliza. (L.T.)


