O encontro das formas. A madeira viva acostumada a segurar ninhos de pássaros passa a sustentar ninhos maiores, mais amplos. Os galhos confundem-se com o objeto abraçado. A madeira na madeira, a sustentabilidade, o ar puro, as brincadeiras e a imaginação infantil tornando-se realidade. As casas na árvore atraem os olhares de crianças e adultos.

Tanto atrai que tornou-se trabalho. O primeiro desafio da empresa Casa na Árvore, criada pelo empresário Ricardo Brunelli e família Rossato, foi em 2001, com a construção de uma casa de madeira sobre uma figueira centenária localizada em uma fazenda de Porecatu (85 km ao norte de Londrina).

José Aparecido Alvarez Rossato, 58, responsável pelo projeto, tinha o desafio de criá-la a nove metros do chão. Apaixonado pelo trabalho, teve novas ideias durante a execução, criando também um mirante acima da casa, a 16 metros. Durante os oito meses, entre aprendizados, tentativas, erros e acertos, o resultado. "Quando eu tirei o andaime e o Ricardo chegou, ele bateu o olho... Quando eu fui ver, realmente impactava", conta José, ainda orgulhoso da primeira obra.

Orgulho que leva até hoje. A partir da primeira construção, a empresa começou a pegar novos pedidos até encontrar uma forma de trabalho, com padrões fixos de projetos. "Cada lugar tem uma necessidade, uma madeira mais resistente em locais que pedem. Como paredes que não recebem chuva, por exemplo", afirma Willian Rossato, 32, filho de José, e que acompanha os projetos atualmente.

São formas inspiradas nas tiny houses americanas. O projeto Falcão, por exemplo, é feito para adultos, tem 40 metros quadrados e possui sala, banheiro, cozinha e o sótão, que abriga quarto com duas camas de casal. A casa fica na chácara de José, em Cambé, no terreno adquirido com o propósito de abrigar a oficina da empresa e os protótipos idealizados por ele.

O Falcão é um deles. "Levou três meses para construir. É muito trabalhoso, muito detalhe", explica Willian, acrescentando os detalhes das madeiras: paredes em cedrilho, estrutura em cambará, base e vigamentos em cumaru, mourões em eucalipto tratado, assoalho em garapeira, várias combinações para que ela ficasse segura e confortável. "Tem tudo que uma casa normal tem: guarnições, rodapé, acabamento. Depois entra a parte elétrica, hidráulica. À noite fica bem legal aqui", detalha.

A manutenção pede atenção com brocas e cupins "porque a natureza está aí, mas é só dedetizar, não tem problema", tranquiliza Willian. A madeira é tratada em autoclave e é impermeabilizada, no entanto, com exposição ao tempo, é necessário sempre renovar a aplicação. Outra questão é não deixar acumular folhas no telhado, pois elas mantêm a umidade e a água acaba infiltrando.

Para facilitar o trabalho, as telhas Shingles importadas, mais resistentes que a cerâmica, auxiliam o acesso. Utiliza-se também pregos e parafusos galvanizados. "No geral, ela foi pensada para não ter manutenção. As paredes inclinadas não tomam muita chuva, o que mais pede cuidado é a área externa. A gente faz essa casa muito vedada, ela está exposta ao tempo, mas não é rústica. A gente risca, corta, lixa, arredonda, prega e impermeabiliza", enumera Willian.

Antes de tudo isso, é feita a análise da árvore que servirá de sustentação da casa. "O projeto implica a saúde da árvore, se ela estiver doente e morrer, eu perco o serviço todo", afirma José. "Sempre tivemos essa preocupação, evitamos cortar os galhos, à vezes o cliente pede e eu digo: ‘tudo bem, se você quiser cortar, espera a gente acabar e depois você corta’", brinca Willian.

Mesmo assim, é possível ter uma dessas casas sem a árvore inicial. Como nem todos os projetos contam inteiramente com o sustento do tronco adulto, elas podem ser plantadas ao redor da casa, apoiadas em mourões e, assim quando maiores, darão o aspecto natural, de uma casa que foi abraçada por uma árvore. Para crianças ou adultos, é possível montar uma casa como lazer ou para viver. O projeto Falcão no terreno de José já tem seu hóspede realizando o sonho de criança.

Seiva na veia

José Rossato com os filhos Willian e Ramon: formas inspiradas nas tiny houses americanas e muito amor pelo trabalho em família
José Rossato com os filhos Willian e Ramon: formas inspiradas nas tiny houses americanas e muito amor pelo trabalho em família | Foto: Fotos: Ricardo Chicarelli



Da sexta geração de carpinteiros, os filhos orgulham-se do trabalho inédito na família. Há mais de 40 anos trabalhando com madeira, o pai, José Aparecido Alvarez Rossato, 58, iniciou a proposta de casa na árvore a convite do empresário Ricardo Brunelli. "Ele tinha o sonho de ter uma casa na árvore e eu tinha o de fazer uma", brinca.

A realização de sonhos, criando casas entre os galhos. "É uma paixão, meu pai gosta tanto da madeira que ele esculpe também. Ele tem esse gosto pela madeira e a gente também se apaixonou", afirma Willian Rossato, 32, hoje responsável por acompanhar os projetos da empresa.

José teve cinco filhos, duas mulheres e três homens, todos aprenderam a carpintaria de alguma forma. Willian e Ramon Rossato, 25, estão ativos no novo projeto, aperfeiçoando a técnica ao lado do pai, um entusiasta.

"Eu gosto das árvores, da natureza, saber que eu estou usando algo da natureza para criar...", exclama José sem conseguir explicar a sensação. A paixão é tanta que preferiu morar em meio à natureza, abandonar a casa na cidade e ter consigo o frescor da mata, do rio com a sua oficina ao lado.

"Eu vim pousar nesse projetinho para cuidar de umas máquinas diferentes. Dormi gostoso, sem barulho, lá o ônibus chegava a tremer a casa. No outro dia pousei de novo e a mulher ligou pra saber se eu não ia voltar pra casa e eu disse: ‘só vou aí pra te buscar, pra você entender o que é que eu estou falando’", recorda José.

Depois da experiência em um dos protótipos de casa infantil de dois metros quadrados, os dois decidiram construir a casa da família para a mudança oficial para o local. Há quatro anos, vivem em uma casa maior, ampla, tendo no quintal a oficina, dois protótipos, mata e criação de porcos e galinhas.

O amor pela natureza é tanto que a árvore foi preservada com seu tronco invadindo a cozinha. Ao fundo, uma vista para a mata e um riacho de tirar o fôlego. Os filhos, tendo a natureza como escritório, aprenderam a admirar também.

"A gente tinha a opção de fazer uma faculdade como todos os amigos fizeram, mas como meu pai colocou a gente (no negócio) desde pequeno, aquilo se tornou prazeroso e rentável", conta Willian. E não tem brigas? "É bom trabalhar em família, nós temos as nossas briguinhas, mas somos geneticamente preparados a nos perdoar", ri.

Cinco filhos de José, alguns se sentem na responsabilidade de continuar, orgulhosos e tão apaixonados quanto o pai. Os netos estão vindo, com indícios de que terão um futuro pela frente, mas, por enquanto, o avô só quer que eles tenham uma infância saudável em meio às galinhas e porcos que cria e, claro, às árvores, que ele faz questão de destacar em seu entorno e nos seus trabalhos.

Um ninho vizinho aos pássaros

Ramon Rossato, 24, trocou os 49 metros quadrados do apartamento na cidade por 40 metros quadrados de uma casa elevada, feita em madeira, em uma chácara em Cambé
Ramon Rossato, 24, trocou os 49 metros quadrados do apartamento na cidade por 40 metros quadrados de uma casa elevada, feita em madeira, em uma chácara em Cambé



Ramon Rossato, 24, morava em um apartamento de 49 metros quadrados em Londrina. "Eu ficava muito em um só cômodo, quando você está em um apartamento, a maior parte do tempo fica só em um lugar", afirma. Acostumado a acompanhar os projetos das casas na árvore em meio à natureza pelo Brasil afora - trabalho que realiza com orgulho ao lado da família -, foi ficando cada vez mais difícil voltar para a rotina urbana.

"Eu saía de um lugar que eu estava trabalhando e lá era melhor do que o lugar onde eu morava aqui", reflete. Vendo um dos protótipos desocupados no espaço da oficina, logo se candidatou a morar no projeto denominado Falcão. Trocou os 49 metros quadrados do apartamento por 40 metros quadrados de casa elevada de madeira. Um ninho vizinho aos pássaros.

Imagem ilustrativa da imagem Na planta



"Aqui é melhor. Assistir um filme lá e assistir um filme aqui já é totalmente diferente. Eu estava esperando chover para ver como é. Ouvir o barulho da chuva no telhado é muito bom", sorri. A esposa foi com ele e o casal está há menos de dois meses experimentando a nova rotina. "À noite tenho um aquecedor, porque é meio friozinho", destaca.

Além do prazer, uma questão de saúde. "A umidade do ar é maior, na cidade é seco", conta como isso tem lhe ajudado com a alergia. Seguindo os passos do pai, José Aparecido Alvarez Rossato, que também fez essa transição da cidade para a chácara, ele tem tudo que precisa no local: a família, o trabalho e a liberdade.

O pai não se preocupa. "Aqui eu queria fazer para isso mesmo. Se fosse para receber alguém, tinha que ter um lugar para pousar", conta o pai. Quando o filho decidiu adotar o mesmo estilo de moradia, precisou fazer alguns ajustes, como terminar o banheiro e os móveis. "Agora estão morando aqui. Isso aqui é lindo de noite", comenta como quem compreende a escolha do filho como ninguém.

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