Deolinda Puzzo: “O fantástico da cultura italiana está na família, mesmo com briga”
Deolinda Puzzo: “O fantástico da cultura italiana está na família, mesmo com briga” | Foto: Marcos Zanutto

“Mas eu não estou gritando, eu estou falando normal”, justifica Deolinda Puzzo, 63, toda vez que alguém diz que ela está avançando o tom de voz. Isso porque a ascendência italiana ainda reflete um pouco no jeito que ela se expressa. Falar alto e com as mãos, se reunir com a família, mesa farta, tudo tem um pouco da cultura que veio com os avós.

Os antepassados saíram da região da Calábria, na Itália, para trabalhar na lavoura aqui no Brasil. Puzzo guarda um pouco da memória do pai, mas como ele se foi muito jovem, precisou procurar a cultura de outras formas. “Tenho um orgulho e satisfação muito grande de ser descendente de italianos, eu sempre pesquisei como poderia fazer algumas coisas que meu pai me contava. Então peguei as minhas tias e avó por parte de mãe”, conta.

A gastronomia é um dos aspectos mais presentes. De mesa farta e de grandes reuniões familiares, a professora conta que ama fazer massas. “Meus netos quando estão presentes só comem o macarrão que eu faço e eles participam, meus filhos ajudam a girar o cilindro, a esticar a massa, a sovar, fica todo mundo sujo de farinha”, ri.

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Como os três filhos não moram na cidade, ela sempre está convidando os amigos do trabalho e os irmãos para irem comer em casa, e a mesa é sempre farta. “Sempre coloco um ou dois tipos de carne, risoto, faço o macarrão e deixo sem misturar o molho, você pega o que gosta: pesto, bolonhesa, pomodoro... Aqui nunca é churrasco, na minha casa tem que ser macarrão, virou um protocolo”, conta.

Muito do que está presente hoje ela percebe nas histórias que o pai contava. “A família sempre estava junta nas festas católicas, principalmente Natal e Páscoa, e tinha essa questão de falar alto, cantar, brigar... Italiano também gosta de brigar um pouco”, ri. Para ela, as reuniões familiares é que estão mais presentes nas histórias que o pai contava e é o que ela faz questão de manter.

MÃE E SOGRA

“Na Páscoa mesmo estavam todos aqui. E a gente vai acolhendo, a minha filha trouxe a sogra, porque eu falo, 'se você quer estar com a sua mãe, o seu marido também quer', então, para aproveitar, vem todo mundo para minha casa, 15, 20, 30 pessoas. A gente tira a mesa do café da manhã e põe a do almoço, tira a do almoço, põe a do café da tarde, depois põe a do jantar, é tão gostoso, eu amo isso! Sem isso, fico doente”, valoriza.

Das palavras que guarda na memória, ficaram poucas, entre elas, os palavrões. “Lembro até quando eu era criança meu pai falava muito (palavrão), um dia eu repeti e minha mãe ficou muito brava comigo”, recorda. Os palavrões ficaram para trás, mas o jeito de conversar se mantém. “Falam que eu estou gritando aqui em casa, vejo essa característica até em alguns sobrinhos. Também tenho essa coisa de falar com as mãos, se eu estiver com a mão imobilizada eu não consigo”, brinca.

ORIGENS

Para conhecer as origens, Puzzo aprendeu italiano e buscou a dupla cidadania. A primeira vez que esteve na Itália conheceu a região de onde os avós saíram. “A primeira vez que você vai o encantamento é tanto que acaba perdendo algumas coisas. Fui na cidade do meu avô, tirei fotos, fui até a prefeitura, no cemitério para saber se tinha muita gente, é a cidade Malito, com 700 habitantes, bem pequena”, conta ela, que já foi três vezes para a Itália e pretende ir de novo. “Quero ir para ficar um tempo, escolher uma cidade pequena para conhecer a rotina, a comida, sentir bem a cultura”, aponta.

Para isso, voltou ao curso de italiano e aproveita o contato para pegar novas dicas de quem já esteve no país. Apaixonada pela cultura e gastronomia, diz que é difícil alguém não gostar de Leonardo Da Vinci e Galileu Galilei, esteve em Firenze para ficar mais próxima das artes. Aqui em Londrina, guarda os títulos do filme O Poderoso Chefão, que volta e meia coloca para assistir.

Nas artes, na comida, nos gestos, de tudo que tem de memória, são os aspectos mais íntimos que gosta de guardar e levar para as próximas gerações. “O mais importante mesmo dessa nossa cultura de descendente italiano é a reunião com os familiares, de estar presente, eu sei que dá umas encrencas às vezes, mas é saudável, é porque a gente gosta. O fantástico da cultura italiana está na família, mesmo com briga”, conclui.

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