Mais amor, menos azar


Érika GonçalvesReportagem Local
Érika GonçalvesReportagem Local
Mais amor, menos azar



Vítimas de preconceito criado ainda na Idade Média, quando foram associados às bruxas, os gatos pretos levam a fama de trazerem má sorte. Muitos desses animais são maltratados e mortos e outros tantos são abandonados todos os dias. A prova disso é que nos abrigos e lares temporários de ONGs, os felinos com pelos negros são os mais rejeitados. Cansada dessa situação, a ONG "Adote um Gatinho", de São Paulo criou uma campanha para mostrar que a única coisa que gatos pretos trazem é amor. Atualmente, entre os 450 gatos que estão esperando por um lar na ONG, 88 são pretos.

"Nós temos contato com a agência de publicidade Leo Burnett e comentamos sobre a dificuldade em doar gatos pretos. A agência então nos sugeriu fazer uma campanha com um dos nossos gatos, mostrando que ele poderia ser muito sortudo. Eles propuseram que nós o inscrevêssemos em diversas promoções. Foi então que escolhemos o Lucky, justamente por causa do nome dele", conta Susan Yamamoto, uma das fundadoras da ONG.

Lucky não teve uma vida fácil até chegar à ONG. Ele tem aproximadamente 9 anos e foi resgatado em julho de 2014. Uma acumuladora de animais havia morrido e deixado 27 gatos no apartamento. Os animais estavam muito assustados, porque o óbito tinha acontecido há quatro dias e eles estavam sem comida, água, atenção ou higiene. Lucky estava mal e fraco e os voluntários descobriram que ele tem doença renal crônica, que hoje está sob controle.

Com todo esse histórico e tendo sobrevivido, era o candidato ideal. O resultado foi melhor do que o esperado. Em seis meses, Lucky ganhou 18 promoções, recebendo diversos prêmios, como tablet, assinatura de TV, headphones, mochila, aula de yoga, Playstation, bicho de pelúcia, massagem, caneca, cestas de chocolate, kit de beleza, ração, bolo gourmet e até refrigerante grátis, mostrando que um gato preto pode ser muito sortudo! A ONG planeja fazer um leilão com os prêmios, com renda revertida para os gatinhos acolhidos.

"Quisemos mostrar o quanto ele pode ter sorte! Ainda não notamos diferença no número de adoção de gatinhos pretos, mas nosso objetivo foi tirar esse preconceito. A maioria das pessoas quer gatos brancos ou claros, de olhos azuis, assim como fazem com as crianças. Quando pedem algum gato que já está reservado para outro adotante, oferecemos um preto. Há quem aceite e quem de cara diga que não, porque dá azar. Mas tem também aqueles que escolhem um gato preto justamente porque sabem que eles são os mais rejeitados", explica Susan.

Depois dos gatos pretos, ela conta que os brancos e pretos (chamados de frajolinhas) e os escaminhas (pretos e amarelos) são os mais rejeitados da adoção.

"Recebemos muitos gatos pretos aqui, acho que também nascem muitos gatos pretos. O que queremos é que as pessoas abram o coração, não importa a cor do gato, ela é apenas uma roupinha que o gato veste", destaca ela.

Gatas de muita sorte

"Não sou supersticiosa, mas se for avaliar, tenho mais sorte que azar", diz a advogada Mônica Cobres Silva, ao lado da filha Júlia, 8. Família é tutora de cinco gatos, sendo dois pretos
"Não sou supersticiosa, mas se for avaliar, tenho mais sorte que azar", diz a advogada Mônica Cobres Silva, ao lado da filha Júlia, 8. Família é tutora de cinco gatos, sendo dois pretos | Roberto Custódio





Apaixonada por animais desde criança, a advogada Mônica Cobres Silva é hoje tutora de cinco gatos, sendo que dois deles são pretos. Nenhum foi adotado de forma direta por causa da cor, mas foi a pelagem preta que os impediu de ganhar um lar e por isso acabaram virando parte da família de Mônica.

"Eu tive uma gata preta quando criança. Na verdade, quando eu nasci ela já tinha dois anos e viveu até os meus 14. Era o único animal com quem eu tirava fotos sem chorar. Quando me casei eu quis um gato e meu marido me presenteou com uma persa. Depois ainda adotei um outro gato, que vi anunciado na Folha de Londrina. Ele tinha sido resgatado de maus tratos e viveu conosco até morrer, aos 12 anos. Fiquei muito triste e não queria mais ter gatos, mas minhas filhas começaram a pedir e um ano depois aceitei adotar outros animais", diz.

Segundo a advogada, ao chegarem na feira de adoção viram uma protetora com três gatos, sendo dois mais claros e um preto. "Cada uma pegou um dos gatos clarinhos e meu marido já não gostou muito, porque ele não curte gatos como nós. Fiquei com dor no coração de deixar a pretinha, porque sabia que ela dificilmente seria adotada, mas ele não queria três gatos."

Mônica conta que continuou conversando com a protetora por telefone durante um tempo e ficou sabendo que a gata realmente não havia sido adotada. "Ela me contou que tinha uns 17 gatos, sendo a maioria preta, porque ninguém queria. Fiquei mais triste ainda e pedi para ela me trazer a gata. Meu marido não gostou muito, mas acabou aceitando. Assim adotei a Trufa, que veio fazer companhia aos irmãos Shitake e Shita", conta.

Tempos depois ela socorreu um gato amarelo, que ganhou o nome de Açafrão. "Um dia eu estava saindo da empresa e vi um vulto preto correr para o meu lado. Ele subiu na minha calça, vi que era uma gata preta, que estava morrendo de fome. Estava muito frio também. Deixei de ir para a aula de inglês e a levei para casa. Alimentei, levei ao veterinário e providenciei vacinas e castração. A ideia era dar lar temporário até ela ser adotada, mas apesar de ser dócil, ninguém quis. Eu não queria nem colocar nome nela para não me apegar, meu irmão brincava que estava na hora de efetivar a gata como sendo da família. Um dia alguém se interessou por ela, mas aí era tarde. Quando contei a novidade minhas filhas começaram a chorar e aí resolvemos ficar com ela, a Flor."

Mônica conta que as filhas Laura, 12, e Júlia, 8, amam os gatos e não ligam para a cor. Por conseguir ainda escapar do quintal, Trufa é bastante conhecida pelos vizinhos, mas Mônica teme que ela acabe sendo maltratada somente por ser preta. O objetivo é deixar a casa mais segura e evitar os passeios da fujona, que escala uma árvore para dar suas voltinhas. "A moça que trabalha em casa já ouviu as pessoas falarem que a gata dá azar, que têm medo. Mas elas só trazem sorte na vida, nos dão muito carinho. Não sou supersticiosa, mas se for avaliar, tenho mais sorte que azar", garante. (E.G)



Como você avalia o conteúdo que acabou ler?

Pouco satisfeito
Satisfeito
Muito satisfeito

Últimas notícias

Continue lendo