Mães do século 20, filhos do século 21
Um lado é totalmente íntimo da tecnologia e o outro muitas vezes tateia sem saber exatamente quais os limites a serem colocados
PUBLICAÇÃO
sábado, 11 de maio de 2019
Um lado é totalmente íntimo da tecnologia e o outro muitas vezes tateia sem saber exatamente quais os limites a serem colocados
Erika Gonçalves - Grupo Folha 

O conflito entre pais e filhos não é nada fora do comum. Entretanto, a geração mais recente, os chamados nativos digitais, são bem diferentes de seus pais. Enquanto um lado é totalmente íntimo da tecnologia, o outro muitas vezes tateia sem saber exatamente quais os limites a serem colocados.
Segundo a psicóloga Elsie Silva, vivemos em uma época de hipermodernidade, globalização, celular, internet e uma demanda imensa. As mulheres vieram de um papel onde não tinham muitas escolhas além de serem mães e entraram no mercado de trabalho. Enquanto elas se cobram para darem conta de tudo, os filhos são super conectados e o limite desse uso ainda não está bem definido.
“A tecnologia para esses jovens dá muito prazer e ela absorve muito a atenção deles, tirá-los desse mundo gera conflito. As famílias não têm referência do que seria mais ou menos certo. Os pais também têm dificuldade em estabelecer limites para eles próprios. Você chega em um restaurante e cada um está em seu celular. Hoje se está vendo o que se perde com o excesso, e um dos pontos é a habilidade emocional, o se conhecer, o lidar com o outro, o conhecer as próprias emoções”, explica.
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Com uma rotina apertada entre trabalho, maternidade, vida pessoal e afazeres domésticos, as mães se sentem culpadas em deixar os filhos com seus aparelhos eletrônicos. Para a especialista, a dica é delimitar um tempo e um horário para que crianças e adolescentes possam usufruir da tecnologia, de forma até a prepará-los emocionalmente. “Eles não têm muitas vezes estrutura emocional para renunciar àquilo que dá prazer. Enquanto pais, nós temos que ser esse limite, essa regra. Posso deixar brincar enquanto eu faço janta, por exemplo, e é muito importante acompanhar o que eles estão vendo, controlar o que estão tendo acesso. Tem que orientar, participar.”
Para quem quiser investir em outros recursos que não celulares e tablets, Silva sugere incluir a criança nas atividades domésticas. Se é hora do jantar, os filhos podem participar colocando a mesa ou ajudando no preparo da refeição. Além de dividirem um momento juntos, eles irão aprendendo a dividir as tarefas domésticas.
RESPEITO
Em seu dia a dia no consultório, Silva percebe que outro conflito é relativo à falta de limites das crianças e, consequentemente, de respeito aos pais. “As crianças, por terem mais informação, são muito questionadoras e estão tendo dificuldade em ter respeito com os pais, ficam batendo de frente. Esse conflito do respeito acho que está sendo muito forte hoje e os pais estão com muita dificuldade em assumir a autoridade. Eles ficam se questionando se estão sendo excessivos e os filhos aproveitam e entram em embate com os pais. Isso se torna muito desgastante, em muitas famílias.”
Silva diz que os pais precisam resgatar seu papel como autoridade em casa - não de autoritarismo -, e as crianças precisam entender que há regras em casa. “A criança não pode ser o reizinho. Se deixo meu filho não ir à escola um dia, depois outro, o que estou ensinando? As crianças não sabem lidar com frustração. Ensinamos isso quando ela aprende a esperar e tomar o sorvete só no final de semana”, exemplifica.


