Médica patologista, casada e mãe de três filhos, Dora Grimaldi (ao centro) é sócia de um laboratório, onde divide o trabalho com mulheres de diferentes gerações: cada época tem seus problemas e vanta
Médica patologista, casada e mãe de três filhos, Dora Grimaldi (ao centro) é sócia de um laboratório, onde divide o trabalho com mulheres de diferentes gerações: cada época tem seus problemas e vanta | Foto: Saulo Ohara



Embora ainda seja um conceito não acessível a todas nós, a maioria das mulheres hoje tem a liberdade de escolher o que deseja ser, se deseja se casar ou não, ter filhos, adotar, ficar solteira, ser uma profissional de sucesso ou uma mãe dedicada ao lar, ou ainda tudo isso ao mesmo tempo. Tal liberdade, entretanto, é algo ainda bem recente. Convivemos com uma geração de mulheres que viveu a revolução sexual e fez a travessia entre as mulheres destinadas a se casar e serem donas de casa e aquelas que experimentaram toda essa autonomia. Para elas, como foi vivenciar tudo isso?

Médica patologista, casada e mãe de três filhos, Dora Maria Grimaldi diz que nunca pensou sobre a época que viveu em sua juventude, nem dos caminhos que escolheu. Sócia de um laboratório, divide seu dia a dia de trabalho com diversas mulheres, de diferentes idades, solteiras, casadas, com filhos ou não e por isso acredita que cada época tem seus problemas e suas vantagens.

"Eu nunca pensei em nada disso, era tudo tão obviamente que era do jeito que era, a gente não pensava. Mas basicamente isso da mulher trabalhar, casar, continua e é a média. Aqui trabalham 18 mulheres e todas trabalham 16, 18 horas por dia. Cada uma tem mais auxílio de pai, mãe, irmão, de família, sempre alguém tem uma mãozinha, mas é a média. Mesmo em famílias que tradicionalmente a cultura seria meio que contra a mulher trabalhar, como libaneses, japoneses, a maioria das mulheres está trabalhando hoje. A exceção acho que são aquelas que não fazem essa maratona por dia", avalia.

Ela observa que os homens também mudaram ao longo desses anos, embora pessoalmente sua experiência tenha sido bem diferente. Ocupada com a medicina, Grimaldi conta que era o marido o responsável por ir às reuniões no colégio dos filhos, entre outras atividades, o que gerou o questionamento se ele seria viúvo. Ela avalia que hoje os homens também têm mais liberdade para demonstrar carinho para com os filhos, abraçar, beijar e colocar no colo.

Entretanto, a carga maior da criação dos filhos ainda recai sobre elas, o que faz com que sejam preteridas na hora das vagas de emprego. "Quando a criança fica doente, é tudo a mulher que faz, leva na escola, leva ao médico. Não sei se a mulher gosta disso ou se é tão óbvio na cultura dela que ela tem que fazer isso, porque lá atrás é a mulher que educa o homem para ser assim e a mulher para ser assim. A mulher acha que compete a ela resolver todos os problemas, o homem não pode ser incomodado. Isso está em todos os círculos que você vai."

A médica diz que não chegou a refletir sobre casar e ter filhos, já que foi algo passado de geração a geração, porém, na questão do emprego já foi diferente, pois se sua mãe foi impedida pelo pai de ter uma profissão, Grimaldi foi incentivada a trabalhar desde cedo e precisou batalhar para cursar a universidade.

"Hoje é tão óbvio que a mulher vá trabalhar! O homem acho que não encara mais tocar uma família sem a contribuição da mulher. Tenho duas filhas e um filho, uma casou, a outra não, mas tudo de forma livre, não teve obrigação. Cada uma tem sua profissão, se sustenta, se rolar (casar), rolou. Mas antigamente a mulher não tinha outra opção, ou casava ou estava desamparada."

Em sua profissão ela conta não ter enfrentado preconceito, mas reconhece que em algumas áreas antigamente havia resistência da sociedade. Mulheres cirurgiãs, por exemplo, ainda eram minoria, porque não se acreditava que uma mulher pudesse ser competente nessa área.

Para a médica, outra mudança social veio com a tecnologia. As modernidades de nossa época seriam um facilitador da rotina feminina, pelo menos para as mulheres de classes mais altas. "Hoje temos mais escolas, mais comida pronta, tudo vai melhorando. Mas para uma classe menos privilegiada, com salário mais baixo, esse problema de creche, escolinha ainda é um absurdo de péssimo. São caras, é um transtorno, isso tinha que ser muito melhor do que é. Inclusive tinha que ser nos bairros em que elas moram, deveria ser prioridade", considera.

'Seja dona do seu nariz'

"Aquela pressão para ser mãe, dona de casa, ter um casamento formal nunca existiu na minha família", diz Sandra Moreira Batista, dentista aposentada, divorciada, mãe de duas filhas
"Aquela pressão para ser mãe, dona de casa, ter um casamento formal nunca existiu na minha família", diz Sandra Moreira Batista, dentista aposentada, divorciada, mãe de duas filhas | Foto: Fábio Alcover



A dentista aposentada Sandra Mara Moreira Batista define sua situação como de certa forma, privilegiada. Profissional liberal, ela trabalhou em seu próprio consultório e também prestou serviços em um sindicato, e conta que nunca sofreu discriminação profissional, nem ganhou menos que seus colegas.

"Como sou profissional liberal, isso eu não vivi. E também nunca sofri assédio sexual, a dona do meu consultório era eu. Quando comecei minha carreira nunca pensei como seria a minha situação, como seria o Brasil 30, 40 anos depois. Na minha turma de faculdade tinha 60 alunos, 40 eram mulheres, em todo lugar tem mais mulher dentista do que homem. E também como eu já estou aposentada nos últimos sete anos, não sei se algo mudou em relação a isso", afirma.

No campo pessoal, Batista diz que seus pais sempre foram muito modernos para a época e não fizeram nenhuma exigência nem cobrança relacionada a casamentos e filhos, sendo que o conselho era justamente para estudar. "Meu pai sempre falou: 'seja dona do seu nariz'. Ele tem 83 anos e já falava isso há muito tempo. E quanto a ter filhos, eu sempre os ouvi falando para todas nós, que somos cinco irmãs, para não termos muitos. Aquela pressão para ser mãe, dona de casa, ter um casamento formal nunca existiu na minha família."

Ela conta que a única dificuldade que sentiu foi após se divorciar, já que as mulheres separadas eram mal vistas naquela época, na década de 1980. Por isso, acredita que muitas possam ter mantido um casamento, mesmo a contragosto.

Com duas filhas, Batista diz que a situação é diversa para ambas. Enquanto uma é gerente de um hotel de luxo em Londres, se casou e se divorciou, a caçula é profissional liberal, cursa a universidade e está grávida do namorado, sem pressão para casamento. "Não me intrometo, elas são bem crescidinhas", diz.

Sobre a situação hoje, ela diz que ouve falar bastante sobre empoderamento e avalia que há muitos movimentos em favor da mulher. "Mas ainda tem muito a ser conquistado, as mulheres sofrem e vai ser assim por um bom tempo", lamenta.

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