Com a ajuda da tecnologia, Mauro e Florisbelo Mazzeo conseguiram se reencontrar em Londrina: família unida, história reconstruída
Com a ajuda da tecnologia, Mauro e Florisbelo Mazzeo conseguiram se reencontrar em Londrina: família unida, história reconstruída | Foto: Arquivo Pessoal



Uma tragédia familiar separou os irmãos Florisbelo, Mauro e Carlos quando crianças. Os locais eram próximos: Irerê (distrito de Londrina), para onde o mais velho foi levado para viver com os avós paternos, e Tamarana (Região Metropolitana de Londrina), local em que os avós maternos moravam e criaram os dois mais novos. Apesar da pouca distância, a relação entre eles foi menos próxima do que gostariam e, na fase adulta, o contato foi totalmente perdido com um deles.

"A gente se via, mas depois a gente se separou. Eu me casei, vim para Londrina, um foi para Marialva (Região Metropolitana de Maringá) e outro para Ortigueira (região dos Campos Gerais). Uma vez, o Mauro trouxe a filha dele nenezinha, a mulher dele estava internada no Hospital Universitário de Londrina e ele deixou a Mônica, minha sobrinha, para a gente cuidar. Depois dessa época, eles sumiram", conta Florisbelo Mazzeo Neto, 68.

Desde então, só tiveram a notícia de que o irmão tinha ido embora para Curitiba. O mais novo, Carlos, manteve contato, mas faleceu há dois anos. Florisbelo pensava estar sozinho após anos de procura. "Minha filha morou quase 10 anos em Curitiba, todo esse tempo procurando e nunca encontrou. A gente chegou a pensar que ele tivesse morrido", afirma.

Foi por uma coincidência do destino e curiosidade de Josiane Mazzeo, filha de Florisbelo, que surgiu a pista certeira. "Minha filha comprou um item e veio na nota o sobrenome Mazzeo. Ela foi procurar saber se tinha algum parentesco, descobriu uma tia deles, irmã da avó materna, que tinha contato com a filha do Mauro", conta Luzia Garbossi Mazzeo, 58, esposa de Florisbelo.

Com a ajuda da tecnologia, conseguiram entrar em contato com aquela menina que ajudaram a cuidar há 32 anos. Mônica teve papel crucial na ponte entre os dois. O pai mora na zona rural a 45 minutos da capital e possui comunicação por meio de um celular com dificuldades de sinal. Para que eles consigam se comunicar, ela coordena os horários para que o tio ligue quando o pai vai visitá-la na cidade.

A primeira vez que se falaram por telefone foi uma alegria que comove até hoje. "Eu estava com muita saudade, a gente queria se ver, eu fiquei muito emocionado... Ficamos 32 anos sem saber de nada, eu achava que ele tinha falecido", emociona-se Florisbelo.

O fim de uma angústia e o começo de outra. Saber que o irmão estava vivo trazia um alívio, mas querer abraçá-lo e conversar sem as interrupções técnicas faziam parte do novo desafio. Em menos de um mês, a sobrinha organizou a viagem até Londrina para promover o reencontro. Mauro veio acompanhado de toda a família. "E foi aquele abraço gostoso! A gente começou a relembrar o tempo de quando ele foi em casa. Ficamos sabendo da vida um do outro... Eu admiro muito o meu irmão, fiquei feliz", recorda com a voz embargada.

Um feriado prolongado intenso, a família unida, a história reconstruída. Novos aspectos sobre a mesma memória, um tinha a curiosidade de saber a versão do outro, os motivos da distância, dos desencontros e da saudade que nunca teve fim. Hoje os irmãos mantêm contato com a ajuda de Mônica, uma entre os três filhos de Mauro.

Entre as perdas e desencontros, uma família renasce. Agora mais unida, mais forte e mais disposta a manter os vínculos e a proximidade que lhes foram roubados mais de uma vez. O próximo encontro já está programado. Desta vez, Florisbelo é quem vai arrumar as malas para visitar a família do irmão. "É perto, cinco horas de viagem, rapidinho. Estamos pensando em passar o fim de ano com eles lá", anima-se com sorriso no rosto.

Nem dez minutos e parecia uma eternidade

A mãe sentou-se ao lado dos filhos no carpete da livraria. O setor infantil permitia o despojamento dos pés descalços e do sentar-se ao chão. Ali, todos eram livres: adultos, crianças, livros. Na descontração do ambiente movimentado pelo agito familiar, um piscar de olhos foi suficiente para que as vontades independentes do menor, em seus incompletos 2 anos, o chamassem para longe sem que ninguém visse, ainda que presentes cinco sentinelas adultos.

"Foi uma questão de segundos, ele estava do meu lado, virei para pegar um livro e depois não estava mais. Como ele era muito pequenininho, nós ficamos apavorados", recorda a mãe, Liberaci Pascuetto Perin, 51, do fato ocorrido há 10 anos. Os segundos passam preguiçosos quando se perde algo tão precioso. O desespero da procura e a falta de respostas fazem nem dez minutos parecer uma eternidade.

Impossibilitada de pensar, a tarefa de avisar a equipe de segurança do shopping foi do pai. Nem dez minutos geraram o desespero da procura, a culpa da perda, a angústia da impotência diante da situação que poderia acontecer com qualquer um, mas não com ela. "Eu tinha certeza que alguém tinha sequestrado meu filho, eu entrei em desespero. A sensação de impotência, irresponsabilidade, pânico. Eu me senti a mãe mais irresponsável do mundo, porque eu julgava todo mundo. Nós ficamos uns cinco ou dez... Nem dez minutos e para mim foi uma eternidade."

Do lado de fora da loja, uma funcionária da equipe de segurança tinha uma criança descalça no colo e os dois brincavam no quiosque de sabonetes coloridos. No peito da mãe, o tempo parou sem nem completar os dez minutos. A explosão do reencontro, do alívio incomparável e da felicidade impetuosa. "Quando eu vi que ele estava lá eu quase desmaiei, foi indescritível. É de fato um reencontro", ainda comemora.

Nem dez minutos de liberdade para aquela criança independente que reviu a mãe como quem sai de casa com a garantia do bom-dia do vizinho. "Ele estava supertranquilo, superbem, ele nem percebeu que estava perdido", ri. Quem viu de perto ainda pergunta: "como você conseguiu perder?". Ela também não sabe. Ficou gravada a intensidade compacta de um tempo que levou nem dez minutos.

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