Keyla Matsumoto Fukuda e os filhos: costumes japoneses passam pela educação, gastronomia, crenças e cultura
Keyla Matsumoto Fukuda e os filhos: costumes japoneses passam pela educação, gastronomia, crenças e cultura | Foto: Ricardo Chicarelli



O Norte do Paraná começou a receber os primeiros imigrantes japoneses no ano de 1908, fruto de um acordo entre governo brasileiro e japonês para resolver interesses de ambas as partes. Desde então, as famílias de imigrantes se esforçam para tornar as mudanças sociais e culturais menos dificultosas, preservando as tradições do país de origem.

Keyla Matsumoto Fukuda, 42, é sansei, neta de japoneses, e mesmo sendo a terceira geração, ainda tem a preocupação de manter os hábitos orientais vivos dentro da família. Mãe de três filhos, Fukuda fez questão de matriculá-los na mesma escola em que estudou, voltada aos costumes nipônicos. A intenção é que os filhos cresçam conhecendo a cultura e a história de seus ancestrais. "É importante que eles saibam de onde vieram e que compreendam o valor desses costumes", afirma.

Aulas de língua japonesa, escrita, soroban (instrumento de cálculo), taikô (expressão musical), judô... Tudo faz parte da grade curricular. As mães aproveitaram o espaço e organizaram um grupo de taikô para adultos, do qual Fukuda também faz parte. Fora da escola, os três filhos participam de aulas de canto japonês. "Eles gostam e até participam de festivais. Neste ano, eles foram classificados para a etapa nacional do 32º Concurso Brasileiro da Canção Japonesa", orgulha-se. Acompanhando os filhos, a mãe acaba se envolvendo com a organização de eventos de canto japonês em Londrina.

Fukuda e o marido, também sansei, se conheceram e se casaram na religião seicho-no-ie, desenvolvida também por japoneses. Dentro da própria casa é fácil encontrar elementos que remetem aos costumes orientais. "O mais comum é o espaço de homenagem de um ente querido que já faleceu, sempre acendo um incenso", explica.

Na gastronomia, a família visita regularmente alguns restaurantes especializados na cidade, mas Fukuda também arrisca algumas receitas em casa. "Costumo fazer sukiaki, udon, missoshiro, no inverno sempre é muito bom", conta. Atualmente, é mais fácil encontrar ingredientes em supermercados, pela difusão da comida japonesa, mas quando é algo mais complicado de localizar, as compras da família passam pelo Mercado Municipal Shangri-Lá ou feiras livres.

Toda a referência faz parte dos ensinamentos de pai para filho e também da oportunidade que Fukuda teve há 17 anos, quando estudou na província de Oita, no Japão. "Foi uma experiência incrível. O que eu sabia era pelo que meus avós e pais contavam, então eu descobri que aqui a gente preserva mais a cultura antiga, coisas que os jovens de lá não davam tanto valor, eles estavam mais ocidentalizados do que eu esperava, mesmo assim, aprendi muito com a vivência", recorda-se explicando que a visita foi fundamental para seu desenvolvimento.

Da vivência, trouxe muita bagagem cultural, além de objetos que recordam o país. "É muito bom saber de onde a gente veio. Eu trouxe muitas lembranças de lá e eu acho importante que os descendentes vivam e conheçam o Japão na prática", argumenta. Com tantas menções na família, os filhos também já se interessam em conhecer o país dos antepassados. "Eu tento não influenciar tanto, é uma decisão deles, mas eu já sinto que eles têm a curiosidade em saber mais", finaliza.

Reverência e gratidão
A religião é um fator bastante influenciador na cultura de uma nação. Enquanto o Brasil possui vários costumes cristãos, no Japão alguns hábitos tiveram origem no budismo. De acordo com a Embaixada do Japão no Brasil, quando o budismo foi introduzido no país, o Xintoísmo era uma crença local já difundida, então as duas começaram a interagir.

O monge João Campos, do Templo Budista Hompoji, de Londrina, explica que a religião segue o caminho da iluminação e tem práticas altruístas. "Todos nós fazemos parte de um corpo só, é a lei da interdependência, portanto temos a obrigação de ajudar o outro para que eu fique bem", orienta.

Na cultura japonesa existem elementos que são oriundos dos ensinamentos de Buda. "A expressão 'arigato' (obrigado em japonês) é uma palavra que possui etimologia do ensinamento budista 'arigatai', que representa a gratidão e algo que é difícil de existir ou acontecer", conta. O monge também explica que o cumprimento japonês, a reverência, também é uma forma de saudar o Buda que existe no outro.

Nos rituais estão o mantra sagrado Namumyouhourenguekyou, que representa todas as orações do universo compactado. "É a causa, a essência e semente da iluminação", explica. E o uso do incenso representa o oferecimento do corpo de Buda, acredita-se que por meio do perfume o indivíduo é guiado para a terra pura.

Os costumes japoneses continuam sofrendo a influência budista. Em Londrina, o Templo Hompoji atende aproximadamente 100 famílias e recebe pessoas de todas as etnias, o culto é em português, mas as orações se dão na língua japonesa. Os encontros são diários, às 7 horas de segunda à sexta, às 8 horas aos sábados e às 9 horas aos domingos e feriados. Nas quintas-feiras há um encontro noturno, às 19 horas.

Um pedaço do Oriente

O Japão sofre influência de suas crenças, o budismo é uma delas. O monge João Campos explica que a reverência é uma forma de saudar o Buda que existe no outro
O Japão sofre influência de suas crenças, o budismo é uma delas. O monge João Campos explica que a reverência é uma forma de saudar o Buda que existe no outro | Foto: Roberto Custódio



Descendentes de japoneses também marcam presença no comércio de Londrina. No Mercado Municipal Shangri-Lá é possível encontrar diversos ingredientes e objetos importados do Japão para atender as famílias nipônicas e também os brasileiros, que cada vez mais têm interesse na cultura oriental.

Marcos Yamanaka ajuda na mercearia da família e conta que tradição transmitida de pai para filho foi natural. "No início da loja, nós não tínhamos tantos produtos, então acabávamos produzindo em casa, como o tofu e o sushi. Eu comia e como comida japonesa todos os dias, então tenho contato constante", conta.

Nas vendas, Yamanaka explica que cerca de 80% dos clientes ainda são japoneses, mas que o número de vendas para brasileiros está crescendo. "O que o brasileiro compra é diferente do japonês, eles gostam mais de doces diferentes, mas está aumentando a busca por produtos típicos entre não descendentes também", diz.

A mercearia conta com fornecedores de outras regiões e alguns produtores locais. Entre os ingredientes mais vendidos estão o tempero hondashi, sakê culinário e shoyu. "É o que toda casa de qualquer japonês vai ter", afirma. Já na parte de utensílios, panelas, garrafas térmicas e jogos de porcelana orientais são os que mais atraem a clientela.

No local, às vezes é necessário arriscar atendimento na língua japonesa. "Ainda tem muitos que não conseguem se comunicar muito bem em português ou que preferem se expressar na língua materna. Como sou descendente e minha família toda se comunica bem na língua, consigo atendê-los", conta com modéstia.

Sabendo da influência que o Japão tem sobre a região, Yamanaka compreende que o mercado funciona melhor em Londrina, mas que em outros locais os comércios são voltados para restaurantes. "Londrina tem cultura bem forte, a comunidade tem se esforçado para difundir a cultura japonesa. Hoje a visão é mais positiva, mudou a imagem que se tinha do japonês e do Japão", defende.

O comerciante também reconhece a importância que a mercearia tem para manter a tradição em Londrina e acredita que hoje o acesso aos produtos de origem nipônica está mais fácil, por conta da difusão da cultura, mas que nem sempre foi assim. "Sem essas lojas especializadas seria complicado manter os costumes, a produção de pratos típicos dependiam apenas delas", argumenta. Apesar de atualmente ser possível encontrar alguns produtos típicos no supermercado, as lojas especializadas podem oferecer maior variedade de produtos e marcas. (L.T.)

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