#INKTOBER - Uma galeria de ilustrações digitais
PUBLICAÇÃO
sábado, 19 de outubro de 2019
Isabela Fleischmann - Grupo Folha 
“Todo mundo pode participar do Inktober. Apenas pegue uma caneta e comece a desenhar”, avisa o ilustrador no site oficial do desafio.
Se, na atualidade, observar e entender as redes sociais ajuda a compreender o mundo contemporâneo e as mudanças no comportamento das novas gerações. Neste mês, uma hashtag que ganhou repercussão pelo mundo, a #Inktober, detonou no universo das artes, uma discussão essencial, o que é arte no ambiente digital?

O movimento iniciado em 2009 pelo ilustrador americano Jake Parker, tem por nome a aglutinação de duas palavras em inglês: ink (tinta) e october (outubro) e propõe um desafio: fazer uma ilustração por dia durante todo o mês. A "brincadeira" começou como um estímulo para o próprio Parker, que desejava aprimorar as técnicas de desenho e desenvolver uma rotina de ilustração. Dez anos depois, o Inktober tomou grandes proporções, com milhares de artistas profissionais e amadores por todo o mundo participando do desafio.

Para começar, o ilustrador deve fazer um desenho, postar com as haghtags #inktober e #inktober2019 e repetir a ação por 31 vezes. O desafio pode ser diário, uma rotina de meia maratona (publicando uma ilustração a cada dois dias), ou um por semana. “O que você decidir, apenas seja constante”, diz o site, reforçando que o objetivo do Inktober é o crescimento e desenvolvimento de rotinas melhores para o desenho. “O mais constante que você for, melhor”.
Embora a regra do Inktober estabeleça que o artista deva publicar a ilustração, o próprio site do movimento sugere que a postagem “seja em qualquer conta na mídia social” ou mesmo “colar na geladeira”. A ideia é compartilhar a arte com alguém. O Inktober começou a publicar listas oficiais com temas para as ilustrações em 2016. Antes disso, cada ilustrador tinha sua própria ideia do que fazer e até hoje há quem não siga regra nenhuma, mas mesmo assim engrossa a galeria de ilustrações na internet.

Londrinenses aderem ao movimento e exaltam os benefícios da criação diária
A partir dos temas, os artistas devem construir suas ilustrações, como um “Dixit” ao contrário. O Dixit é um jogo que tem cartas com desenhos diversos: coelhos, castelos, dragões. O jogador que pega uma dessas cartas deve descrevê-la, de qualquer maneira: palavras, músicas, gestos. Os outros participantes devem adivinhar a carta, que é sobreposta com outras ilustrações. No Dixit, quem descreve não deve ser explícito, já que as cartas também são ilustrações subjetivas. Já no desafio Inktober, uma palavra tema pode dar ignição para diversos desenhos distintos.

É o caso do estudante de artes visuais João Paulo Gasparini, 20. Com o tema “anel”, o artista londrinense desenhou uma mulher envolta em anéis de Saturno. Com o mesmo tema, o colega de curso de Gasparini, Henrique Jun Yoshida, 25, pensou em composições de acrílica sobre papel cartão. “Foi mais difícil para mim, porque prefiro desenhar pessoas”, afirma Yoshida.

Os dois jovens estão no segundo ano de artes visuais na UEL (Universidade Estadual de Londrina) e estão participando do desafio. Gasparini desenha desde criança. Por conta do "traço mais solto", resolveu cursar artes e está ilustrando pela primeira vez no Inktober. "Faço para aprender mais da técnica", conta. Manter a rotina de desenhos não é fácil. "Tento interpretar o tema do dia", diz o artista, que coloca seus gostos nos traços, como a ilustração baseada em LOL (League Of Legends).

Se antes as artes impressas tinham seu espaço físico nas exposições, na internet a produção artística é gigantesca. Procurando no Instagram, há pelo menos 3.379.400 publicações com a #Inktober2019. “Hoje é difícil fugir da internet, é como seu portifólio”, opina.
Para Yoshida, não tem como negar a mídia digital, porque faz parte da sociedade de hoje, e quem desenha adquire referências na internet. "Não acredito em dom. Para desenhar, é estudo, treino", conta. Desde a infância inclinado para as artes, ele lembra que seu pai costumava desenhar para ele e sua irmã. Mas foi somente no Ensino Médio que fez um curso de mangá. Em 2014, ingressou em design gráfico na UEL, onde ficou até o terceiro ano. Decidiu por artes em 2018 e hoje dá aulas de arte por meio do Pibid (Programa Institucional de Bolsas de Iniciação à Docência). "Acho que o design gráfico passa mais a mensagem. As artes priorizam a expressão e não a comunicação", sugere.

É a segunda vez que o estudante participa do desafio. As ilustrações de Yoshida para o Inktober são baseadas no artista que ele está estudando. Foi com a técnica das pinceladas de um artista alemão que ele pintou sua visão de rosto no espelho, com o tema "congelar", com pastel seco sobre papel. Retratar gente é mais o gosto do artista, em relação à "natureza morta". "Gosto de desenhar pessoas. As pessoas se movem", conta.

Giovana Casagrande, 21, é tatuadora e está seguindo fielmente o Inktober todos os dias. Ela costuma fazer os esboços no papel. Mas é no tablet de desenho digital que as ilustrações ganham corpo. "No impresso é diferente por conta da sensação", diz. Ainda que tenha obras digitalizadas, a estudante do terceiro ano de design gráfico na UEL, mantém versões físicas dos desenhos. "Eu sinto que o meio virtual está relacionado com a divulgação, que esse meio é uma oportunidade de descobrir, ao mesmo tempo não substitui o impacto do físico".

A tatuadora fez aulas de desenho para desenvolver as habilidades, que vieram desde criança. Para ela, o sketch diário gera melhorias na técnica. A partir de várias referências, Casagrande faz um "brainstorm" para criar. Suas ilustrações têm um traço grosso, à maneira das tatuagens.

A também tatuadora Victoria Raia, 24, formou-se em publicidade. Mas é de desenhar que ela gosta. "É a única coisa que sei fazer", brinca. Para quem já rabisca nas peles há mais de um ano, fazer um "sketch" diário no caderno é novidade. É a primeira vez que Raia participa do desafio. "Para descobrir minha 'persona'", explica.
Nas tatuagens, a artista não costuma usar cor. Mas no Inktober, ela tem se aventurado explorando traços e desenhos que "provavelmente não virariam tatuagens", conta. "Tento deixar natural, não ver os desenhos já feitos antes".

Raia não segue a lista oficial do Inktober. As propostas de tema que ela aderiu foram feitas por outra ilustradora. Ainda que 50% da tatuadora ache que a internet expõe demais, a outra metade acha que a exposição é boa para a arte. "Promove, você é visto. Tem sido bom, dado bastante retorno, quanto mais faço, fica melhor".
Arte ou maratona obsessiva de desenhos?
Luiz Carlos Jeolás é professor do departamento de licenciatura em arte visual da UEL. Ensina poéticas digitais, fotografia e arte contemporânea, e vê o Inktober com cautela. A geração viciada em smartphones é, para o professor, uma preocupação, aliada ao espírito competitivo que se alastra nas redes por meio do desenho: para ser o melhor, o maior, ou o mais rápido.
"Minha preocupação é isso de colocar um adolescente (o que não acho ruim desde que tenha monitoramento) para fazer uma determinada coisa todo dia. Parece um pouco obsessivo essa maratona de desenhos", sugere.
Não só desenhos, mas a busca pelo melhor trabalho, a melhor fotografia, ou qualquer outra coisa que entre nessa categoria de competitividade, deve ser pensada com calma, segundo Jeolás. “Não estou dizendo que não vale a iniciativa, acho que vale, mas isso de vencedor do mês? Temos que ter cuidado justamente para evitar o que andamos vendo sobre a questão competitiva, esvaziamento das pautas e discussões por uma superficialidade”, opina.
Ainda que não sejam eleitos os melhores desenhos, o desafio se dá em rede. E na rede, há as curtidas e as visualizações, expressões da competição. “Elegemos aqueles com mais likes como artistas?”.

Aliás, outra questão a ser levantada é a ideia de "arte" falada no cotidiano. "A concepção de arte é constituída por vários autores, entre elas instituições públicas ou privadas, academias, galerias, o mercado das artes, todo um sistema que pode corroborar para dado momento eleger algo que torna arte".
Jeolás lembra que quando o artista francês Marcel Duchamp inscreveu a obra “Fonte”, que era um urinol, na exposição da Associação de Artistas Independentes de Nova York em 1917, brincou justamente com as categorias que ele considera “perigosas”. “Não compete a gente ficar dizendo a todo momento o que é arte. A história é mestre em pegar aquilo que antes estava na categoria de um documento e eleger arte. Para além do gosto ou não gosto, pago para ver ou não pago, a arte é uma categoria analítica”.
Se a proposta do Inktober é aprimorar os desenhos, o professor deixa ainda outra provocação para quem deseja pensar o assunto. “O aprimoramento é do desenho que é mais fidedigno e mais próximo do que chamamos de real? O melhor desenhista é mais artista por estar mais próximo do real? Se resolvem desenhar de forma abstrata terão menos likes?”.


