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m de leitura Atualizado em 25/09/2021, 11:43

Inflação: uma velha conhecida se apresenta às novas gerações

Escalada descontrolada de preços trouxe para 2021 o temível cenário dos anos 1980

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sábado, 25 de setembro de 2021

Marcos Martins/Especial para a FOLHA
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A um aumento contínuo e generalizado dos preços de produtos e serviços em uma economia dá-se o nome de “inflação”. O Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa mostra a origem da palavra: do latim “inflatio,onis”, também significa “inchação, inchaço, tumor, edema, hidropisia, distensão gasosa, meteorismo, flatuosidade, cólica, timpanite, dilatação (da água vaporizada)”.

Para medi-la, o IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) calcula o IPCA (Índice de Preços ao Consumidor Amplo). Ele aponta a variação do custo de vida médio de famílias com renda mensal de 1 a 40 salários mínimos, por meio de um levantamento mensal, realizado em 13 áreas urbanas do Brasil, o que envolve aproximadamente 430 mil preços de 30 mil locais. Os valores são comparados com os preços do mês anterior, resultando em um único índice que reflete a variação geral de preços ao consumidor daquele período.

O indicador começou a ser calculado em 1980 e, desde então, a maior variação mensal foi em março de 1990 – 82,39% –, enquanto a menor variação aconteceu em agosto de 1998, de -0,51%. Se a variação do seu salário, de um ano para o outro, for menor do que o IPCA, você perde seu poder de compra, já que os preços sobem mais do que a renda.

Como ela “queima” o poder de compra da população, já que um valor em dinheiro compra cada vez menos do mesmo bem ou serviço, a inflação ganhou a figura de um dragão para representá-la. E, atualmente, o monstro vem queimando como há muito não se via no Brasil. A estimativa para 2021, que no início de janeiro era de 3,32%, alcançou 8,35% na última semana.

CAOS NOS ANOS 1980

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O assunto causa arrepios na fisioterapeuta Fátima Rodrigues, que lembra bem o caos dos anos 1980, quando a escalada da inflação causava uma disputa diária, nas gôndolas dos mercados, com os remarcadores de preço. “Quase todo dia o preço das coisas mudava, sempre subia. Você recebia o dinheiro e tinha que fazer as compras logo, senão perdia valor. Era comum o funcionário com a maquininha na mão, trocando os preços, e a gente correndo para pegar um produto antes disso acontecer, já que naquele tempo não passava o código de barras no caixa”, relembra.

A hiperinflação – chamada assim quando atinge níveis superiores a 50% ao mês – no Brasil foi uma realidade entre as décadas de 1980 e 1990. Com números elevados desde antes da ditadura militar, a inflação piorou muito no período, com média anual de 69,89% ano ano e pico de 235% em 1985. Com a redemocratização, sucessivos planos econômicos tentaram uma saída. Os planos Cruzado, Cruzado II, Bresser e Verão, durante o mandato do presidente José Sarney, tiveram de tudo — congelamento de preços, corte de zeros, moratória de dívidas, desvalorização cambial e criação de novas moedas. Apesar de momentos curiosos, como em 1986, quando os “fiscais do Sarney” denunciavam aumentos nos mercados na época do congelamento de preços, todos os planos fracassaram.

Com a eleição de Fernando Collor, em 1989, vieram os planos Collor e Collor II. O primeiro entrou em vigor em março de 1990, quando o índice de inflação estava na casa dos 80%. Trouxe como medidas a mudança da denominação da moeda de “cruzados novos” para “cruzeiros” e o confisco das cadernetas de poupança de quem tivesse valores acima de 50 mil cruzeiros. O governo pretendia devolver os recursos da poupança em 18 meses, com correção de 6% ao ano, o que nunca ocorreu. Esse sequestro é até hoje associado ao nome do ex-presidente, que sofreu impeachment em 1992.

Itamar Franco, que o sucedeu, lançou mão do Plano Real, liderado pelo então ministro da Fazenda, Fernando Henrique Cardoso. Embora tenha deixado o cargo quatro meses antes da entrada em vigor do plano, FHC é até hoje associado à medida que finalmente trouxe calmaria à economia brasileira e acabou pavimentando seu caminho ao Palácio do Planalto – o IPCA, que em junho daquele ano era de 47,43%, caiu para 6,84% no mês seguinte e chegou a 1,86% em agosto de 1994. Um ano depois, estava em 0,99%.

“Eu lembro que foi um alívio. Depois de tanto tempo daquela bagunça, a gente podia planejar as coisas. Você recebia o salário e podia planejar o que iria comprar, quando iria comprar. Você ia ao mercado em uma semana, na seguinte o preço das coisas era o mesmo. O salário não desvalorizava, mal dava para acreditar”, rememora Rodrigues. O mecânico Cecílio Naldani também conheceu as duas realidades e agora reclama da alta geral dos preços no país. “Cada vez que a gente vai no mercado, gasta mais e leva menos, está cada vez mais triste”, dispara.

SITUAÇÃO DRAMÁTICA PARA OS MAIS VULNERÁVEIS 

Pior ainda está para as famílias mais pobres. A inflação medida por faixa de renda mostrou que, para esse grupo, ela foi maior e chegou a 10,63% no acumulado de 12 meses até agosto, de acordo com levantamento do Ipea (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada). O órgão considera famílias de “renda muito baixa” as que recebem menos de R$ 1.808,79 por mês. Na outra ponta, os domicílios com mais de R$ 17.764,49 são classificados como “renda alta”.

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No acumulado de 12 meses, os mais vulneráveis foram impactados pela alta dos alimentos (+16,6%), energia elétrica (+21,1%), gás de botijão (+31,7%) e medicamentos (+41,3%). Já os mais abastados foram impactados pelos combustíveis (+41,3%), passagens aéreas (+30,2%) e aparelhos eletrônicos (+12,4%). “Isso mostra que a desigualdade castiga até nesse momento. Quanto menor a renda de uma família, mais ela gasta com alimentação e itens de primeira necessidade, como gás e energia, sendo que esses custos também impactam na produção de alimentos, criando um efeito cascata. Então, no cenário que estamos vivendo, os pobres sofrem muito mais”, explica o economista Alfredo Mattos.

Em algumas regiões do Brasil, o preço da cesta básica de alimentos chega a consumir 65,32% dos ganhos mensais das famílias com renda de um salário mínimo, de acordo com números do Dieese (Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos). 

MANUAL DE SOBREVIVÊNCIA NA INFLAÇÃO

No meio da turbulência, os brasileiros se viram como podem, cada um com sua realidade. O administrador de empresas Renato Vidal não viveu a loucura inflacionária dos anos 1980-1990 e admite a dificuldade em mensurar as dificuldades passadas pelos pais. Com uma renda confortável atualmente, Vidal reclama dos preços, mas a preocupação maior é com o patrimônio. “Tive que buscar informações para saber se mantinha o dinheiro aplicado em alguns investimentos, se corria o risco de perder muito, como poderia eventualmente aproveitar para render mais, já que o cenário também mexe nas taxas de juros”, explica.

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O economista Alfredo Mattos concorda com a preocupação, apontando que, para conter a inflação, o Banco Central deverá mexer na Selic, a taxa de juros básicos da economia brasileira. “E, nesse caldeirão de instabilidade do cenário econômico, ainda temos as incertezas políticas, que interrompem as reformas necessárias, e a crise hídrica, que pode causar racionamento de energia e afetar a produção de alimentos. Os próximos meses vão ser conturbados”, prevê. Para o grupo com renda maior, o conselho de Mattos varia conforme o perfil do investidor. “Para se proteger da alta de juros e inflação, uma alternativa é apostar nos títulos pós-fixados, como Tesouro Direto, além de LCI e LCA, debêntures e fundos de investimentos, que não sofrem tanto com a alta de preços. As moedas estrangeiras também são opções e outro conselho é evitar a poupança, cujo rendimento vem perdendo constantemente para a inflação” aponta o economista, que frisa a importância fundamental do investidor ter a ajuda de profissionais para uma melhor decisão, já que é preciso levar outros fatores como prazo e tarifas, por exemplo.

Enquanto brasileiros como Vidal se preocupam com o futuro, a grande maioria do país faz as contas para sobreviver agora mesmo, no presente. Colocar comida na mesa fica cada vez mais difícil, tanto que a Conab (Companhia Nacional de Abastecimento) estima que 2021 deve fechar com o menor consumo de carne no país desde 1996. “É um absurdo. Um quilo de fraldinha por R$ 40, R$ 50, o quilo do frango disparou também, já vi por R$ 30. Onde vamos parar”, revolta-se o mecânico Cecílio Naldani.

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Para que não sobre mês e falte salário, Mattos também dá algumas dicas. A primeira é colocar detalhadamente na ponta do lápis – ou em uma planilha no computador – todas as despesas e receitas. “Com um olhar geral sobre o que se gasta, dá para ter uma ideia do que é possível cortar, do que pode ser reduzido e o que é essencial e não pode se mexer”, explica. Outra ação, segundo o economista, é negociar gastos fixos como telefone celular, televisão por assinatura e internet. “É possível procurar planos mais em conta e, em alguns casos, se a família concluir por isso, cancelar serviços não tão necessários”, aponta. Negociar possíveis dívidas, em busca de juros mais baratos, também é aconselhado.

Mudanças de hábitos também podem ser uma alternativa para reduzir despesas. “Substituir alimentos, procurar ou produtos mais em conta, ou do mesmo grupo de nutrientes e que não tenham subido tanto, apelar para promoções e até para mercados maiores, de grandes redes e atacados, que costumam ter preços mais acessíveis, ter desconto na compra de mais unidades. No caso de frutas, legumes e verduras, opções direto do produtor também podem ser mais baratas”, sugere Mattos.

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No entanto, apesar das indicações, o economista lamenta o atual cenário. “Tivemos muitos efeitos diretos da pandemia, que afetaram o mundo todo, e que demandavam uma atenção maior e um trabalho mais assertivo dos governos, e isso faltou, não tivemos uma organização e um planejamento pensando em camadas mais vulneráveis, por exemplo. Por isso, a quantidade de pessoas em extrema pobreza aumentou muito. É preciso olhar para esse grupo e pensar em alternativas”, analisa. Sobre o futuro, Mattos prevê mais turbulência e dificuldade, mas sem o risco de o país reviver a confusão econômica dos anos 1980. “Mesmo com a inflação subindo, ainda estamos bem mais controlados que naquele tempo. Não dá para se comparar os períodos e é muito improvável voltarmos àqueles patamares, o que não tira a gravidade do momento. Há gente passando fome, cozinhando com lenha e isso tem de preocupar toda a sociedade”, argumenta o economista.

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