Histórias de um pomar no quintal
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sábado, 12 de janeiro de 2019
Lais Taine<br>Reportagem Local 

Quando a família Ferraz mudou-se para o jardim Quebec (centro-oeste), em 1974, apenas uma rua era asfaltada. Pai, mãe, cinco filhos, saíram do centro para viver no bairro com ares de campo dentro da cidade. Mais espaço, mais natureza, um terreno maior abrigando espécies de plantas que a família decidiu manter. Isso até a geada de 1975, quando boa parte foi perdida. "A gente acordou e estava tudo preto, queimado", recorda a musicista Hylea Ferraz, a filha mais velha que hoje divide o terreno com a mãe, Walkyria Ferraz, 86.
Apesar de triste, perder boa parte da vegetação deixou de ser um problema quando foram chegando mais mudas. Pitanga, cana-de-açúcar, goiaba, limão, manga, unindo-se aos resistentes. "O abacateiro aguentou a geada com uma das cinco bananeiras. Eles têm mais de 40 anos no nosso quintal", menciona a mãe. Quando as novas mudas cresciam, ainda frágeis, ela recorda uma ventania que fez correria na casa. "Cada filho saiu para socorrer uma planta, cada um segurava uma para não envergar com o vento", conta.
Crescer à sombra das árvores e com fruta fresca às mãos renderam boas memórias. "A que eu mais gostava era a cana-de-açúcar, a gente tinha um facão especial, fazia caldo... Lembro que gente chupava à vontade, chegava a doer o queixo, a gente lambuzava tudo que tinha que tomar banho depois", Hylea ri com a lembrança.
O pomar continuou a fazer memória na terceira geração. "Minha filha, Luisa Ferraz, chegava da escola, tirava a mochila e já corria para o fundo do quintal atrás do pé de goiaba. Ela chegou a dar um nome para essa árvore, chamava-se Aline". Por experiência ou paixão, a neta de Walkyria tem hoje 30 anos, é doutoranda em biotecnologia e estuda plantas.
Não só pelas frutas, acompanhar o processo fazia parte da diversão. "Meu pai curtia muito, ele adorava o caqui, tirava do pé e já comia. A gente sempre procurava saber mais, tínhamos coleção de livros sobre flores, frutas, revistas que tinham setor de plantas e jardins. Os filhos sempre gostaram. Estimula a gente a valorizar mais a natureza", defende Hylea. "O convívio com as plantas, frutas, flores e animais, isso é o importante de se morar em uma casa", acrescenta Walkyria.
Lição de respeito à natureza e de alimentação saudável. Os cinco filhos e parte dos netos, com acesso a fruta fresca, acabavam consumindo mais. "Até hoje. Abacate quando tem, como de tudo que é jeito. Abacate de manhã, de tarde, de noite, com limão, com sal, doce, salgado. Abacate e limão não compramos no mercado. Se estou precisando de limão, vou lá no pé buscar", conta a filha. A Paçoca, cadela de estimação, também não deixa perder uma noz que cai da árvore. "Ela gosta, procura na grama e rói como um osso", ri Hylea, enquanto Paçoca, deitada aos pés da cadeira, não se importa com a fofoca.
E se a produção é muita, a distribuição é automática: parentes, vizinhos, amigos, sempre tem um sortudo que sai com uma sacola na mão. A colheita, às vezes, é feita com a ajuda de uma Taquara com uma cesta na ponta. O quintal parece ser feito para isso. Uma bancada com pia na área externa faz parte da decoração, junto às flores e árvores que atravessam os muros e formam a cerca viva como quem anuncia que ali vive uma família apaixonada por plantas, pássaros e frutas.
Dessa boa convivência com a natureza, fica a degustação de boas memórias. "É um orgulho ter produção própria. Eu recomendo ter pés de fruta em casa, eles não dão trabalho, pelo contrário, sempre foram generosos", afirma Hylea. Generosidade que contagia, ensina e acompanha a história de uma família contada por entre a sombra fresca e o suco doce a ficar na memória das gerações.


