História milenar no fundo da xícara
Plantas aromáticas para infusão trazem o poder de cura e de sabor aos chás
PUBLICAÇÃO
sábado, 23 de março de 2019
Plantas aromáticas para infusão trazem o poder de cura e de sabor aos chás
Laís Taine - Grupo Folha 

Certa vez, o imperador chinês Shen Nung deixou sua água fervendo enquanto ele repousava sob a sombra de uma árvore. Uma brisa veio e levou as folhas de algumas plantas até a bebida, exalando um aroma arrebatador. O imperador, então, provou aquele líquido e descobriu ali o poder, o sabor do chá. A história chinesa, que teria ocorrido em 2.737 a.C, conta a origem da bebida milenar que hoje atrai adeptos do mundo todo. Em uma xícara, o chá manifesta sua história, cultura, efeito medicinal, tradição e, claro, os mais diferentes sabores.
Mas engana-se quem pensa ser chá toda erva mergulhada em água fervente. Dani Lieuthier, especialista na bebida e idealizadora do Instituto Chá, explica que o chá é referente a apenas a uma erva específica. "Chá é o nome de uma planta: camellia sinensis, todas as outras ervas são infusões, essa é a diferença, mas o chá também é uma infusão da planta de chá, assim como eu posso fazer uma infusão de hibisco", informa a especialista.
Apesar de ser de uma planta só, o sabor pode mudar muito conforme as condições nas quais essa planta cresce (o terroir), a subespécie e também o processamento, que faz com que resulte nos seis tipos de chás: verde, preto, branco, amarelo, escuro ou oolong. "Tem essa diferença no processamento que vai trazer folhinhas diferentes e tem sabor muito diferenciado também", revela.
CULTURA
Tomar uma xícara de chá é um costume que vai passando de vó para filho, de filho para netos, de geração em geração, mas o início disso tudo se deu no sul da China. "Os monges budistas cultivavam chá ao redor dos templos, eles usavam para meditar, porque o chá tem essa possibilidade de te manter relaxado e desperto ao mesmo tempo", afirma Lieuthier. A bebida seguiu a rota das especiarias, indo para a Europa, que aplicou um consumo diferenciado na pausa da tarde, e depois se espalhou pelo mundo.
No Brasil, outras ervas foram incorporadas às infusões. "A gente tem muito forte esta questão das ervas medicinais, seguindo nossa cultura, nossa ancestralidade indígena, consumindo essas ervas com propriedades terapêuticas", explica. A erva mate é hoje a mais consumida pelos brasileiros, seja no chimarrão ou tostado para ser tomado quente ou gelado.
Todo essa questão histórica e tradicional vai de encontro ao poder de relaxamento, equilíbrio do corpo e terapêutico da bebida milenar que conquista adeptos do mundo todo, seja pelo sabor ou pelo poder de cura. Alecrim, hortelã, hibisco, cada um a seu gosto, tempo de processamento e reflexão, os chás apresentam, além de sabor, a riqueza cultural e de autoconhecimento.

De acordo com a especialista Dani Lieuthier, 32, tomar chá é um processo terapêutico que inicia desde a escolha da erva para a infusão. "O que eu vou tomar hoje, aquela coisa meio intuitiva: abro meu armário de chás e de infusões e já começa esse momento introspecção, de você olhar para dentro, perceber o que está precisando naquele dia. Depois esquentar a água até que a temperatura fique correta, o tempo que você vai esperar é um momento que acaba relaxando", afirma a especialista.
Olhar para as ervas no armário e misturá-las para a formação de uma infusão é uma das características do brasileiro. Enquanto a ayurveda, medicina tradicional indiana, defende o equilíbrio do corpo pela ingestão de alimentos corretos e usa muito o poder das ervas medicinas em infusões, no Brasil, a tradição indígena também aponta para a cura por meio das plantas. "Fitoterapia, fitoenergética, aromaterapia... Dentro do blend (mistura) tem uma infinidade de ervas e possibilidades para montar um chá que a gente vai tomar, sem dizer das plantas comestíveis que ainda não estão registradas", avalia.
Lieuthier esteve na Amazônia em busca de plantas aromáticas comestíveis para o preparo de infusões. "Tem muitas plantas que os índios consomem e que não estão registadas ainda. Olha o tamanho da flora brasileira. Se você pode comer, também pode tomar", comenta sobre o desconhecimento e a diversidade ainda não explorados pelos brasileiros.
Para ela, todo esse processo de conhecimento das ervas e autoconhecimento para encontrar a erva adequada envolve cultura, tradição, sabor, cura e paixão. "É muito rica essa parte de plantas tradicionais brasileiras. Voltar-se para elas com esse olhar da cura e de prazer, porque o chá pode trazer as duas coisas: pode ser gostoso e estar curando, mesmo que você esteja tomando só porque ele é bom", defende.

Com o desenvolvimento de infusões especiais, blends, descobertas de novas ervas aromáticas, há também a necessidade de conhecimento para saber indicar e avaliar bons produtos. O sommelier de chás vem para apresentar toda a origem do chá, fazer análise sensorial, identificar notas de aroma e sabor, as tradições, processamentos diferentes, entre outros.
"Além da questão do processamento, o sommelier de chá entende a cultura também. Cada cerimônia do chá, por exemplo tem uma forma de expressão diferente, uma especificidade e forma de ver o mundo. Ele conhece tudo isso", afirma Dani Lieuthier, idealizadora do Instituto Chá, que promove cursos de sommelier e de tea blend.
Além disso, o profissional compreende também outras formas de aplicação do chá, não só como bebida (quente ou fria), mas como ingrediente culinário, com a possibilidade fazer harmonização com pratos.
De acordo com a especialista, a avaliação do chá depende em boa parte da análise sensorial. "Visual, olfativa, gustativa, tem análise nessas três etapas. Visualmente você vai analisar a folha dos chás, seca, úmida, o licor do chá - que é o líquido preparado e não o chá em si - analisa a cor, aroma, sabor, textura na boca e assim por diante", descreve.
MERCADO
Segundo Lieuthier, o mercado na área tem se expandindo, com algumas marcas apostando nos chás especiais e com a introdução de novas marcas. "Está se expandindo não só no consumo, mas na oferta também. Temos cada vez mais produtos, mais chás disponíveis à venda. Antigamente não se encontrava muito, hoje em feiras locais ou mercados especiais já se consegue encontrar uma diversidade maior de chá", afirma.
Ao perceber o nicho, algumas pessoas têm procurado o curso para investir em uma nova carreira, unindo paixão e oportunidade. "A gente recebe muitas pessoas que querem trocar de profissão e estão buscando um nicho diferente para empreender, que querem abrir uma empresa ou trabalhar com consultoria", revela.
SERVIÇO
A escola Instituto Chá é itinerante e passa por diversos estados do País. Os próximos cursos serão em Brasília (26/03), Curitiba (30/03) e São Paulo (06/04). Saiba mais por meio do link: www.institutocha.com.br ou entre em contato pelo e-mail: [email protected].


