Era para ser uma viagem de 20 dias e lá se vão 20 anos em solo português. Anos bem vividos e que o londrinense Jaime Navarro, 43, divide com os leitores. Ao lado da esposa e das filhas, estas nascidas em Portugal, fala com propriedade da experiência - a acolhida, os desafios, a qualidade de vida -, e claro, do amor pelo Brasil.

Coimbra, cidade universitária, ao Centro de Portugal, com cerca de 150 mil habitantes, foi o local escolhido pelo londrinense Jaime Navarro para viver com a família
Coimbra, cidade universitária, ao Centro de Portugal, com cerca de 150 mil habitantes, foi o local escolhido pelo londrinense Jaime Navarro para viver com a família | Foto: Shutterstock



De certo, o rumo que a vida ganhou - e as alegrias - , fizeram de Navarro praticamente um nativo, a julgar por sua adaptação. Sem titubear, fez do passeio morada e sua vivência é inspiração a quem sonha em conhecer o povo, a cultura, a gastronomia e a arquitetura portuguesa. Sem qualquer queixa, exalta a decisão e considera que a qualidade de vida seja o principal motivo que faça de Portugal o melhor lugar para viver ao lado da família.

Na construção civil, conquistou o primeiro ganha-pão motivado pelo convite de amigos que já viviam em Portugal e propagavam as benesses. "Em Londrina eu vendia carros e deixei o meu trabalho em stand by." Foi sozinho, mas dois meses depois foi a seu encontro a namorada, Luciana, hoje esposa, que é cabeleireira. "Aqui, o dinheiro tem poder de compra, os trabalhadores têm qualidade de vida e nunca sofri preconceito", diz. O período na construção civil foi curto e logo recebeu um convite e passou a exercer o que sabia fazer muito bem no Brasil: vender carros. "Foram dez anos de atuação e agora já estou, há outros dez, no túnel de lavagem", diz Navarro, referindo-se à sua empresa que presta serviço lavando carros, em Coimbra. "Até nove de uma vez, até 900 por dia", conta.

LEIA TAMBÉM
- Amor e esperança pelo Brasil
- Encantos da 'terrinha'

MÉDICO DA FAMÍLIA
A qualidade de vida citada pelo brasileiro pode ser detalhada. As filhas Alanis, 16, e Mell, 9, estudam em escola pública. "A escola da Alanis classifica-se frequentemente em primeiro lugar nas avaliações". A família não paga para ter acesso à saúde. "Não precisa. Funciona muito bem. Mas quem quiser pagar, o valor é de 20 euros. Temos médico da família e para se ter uma ideia, um ano atrás levei a Mell ao médico porque estava com gripe. Foi muito bem atendida, medicada e dois dias depois me ligaram do hospital para saber como ela estava, se havia melhorado e se estávamos medicando certinho. Ou seja, mesmo há tanto tempo aqui, ainda me surpreendo com a forma de tratamento."

Em relação a preconceito, considera que no Brasil, justamente pelas diferenças sociais, haja mais do que em Portugal. "Aqui quem trabalha na construção pode ir comprar um lanche ou uma ferramenta sem sofrer discriminação pelo modo como está vestido. Aqui, o lavador de carro e o jornalista têm o mesmo tratamento médico, que é excelente, só para você entender. Come-se bem, mora-se bem. Ou seja, vive-se bem e não é preciso desembolsar para ter segurança e saúde, por exemplo. Não somos ricos, trabalhamos 360 dias por ano, 44 horas por semana e o expediente é das 8 às 20 horas", detalha. E reforça: "O lavador de carro, o servente de pedreiro ou o motorista são reconhecidos como trabalhadores e vivem com dignidade".

MAIS BRASILEIROS
Navarro admite que é crescente a chegada de brasileiros por lá. "Agora, neste momento, estou recebendo muitos clientes brasileiros e me contam que a saída do Brasil é por causa da violência. A maioria está vindo para ficar de vez, compram apartamento e ao contrário de movimentos do passado que traziam quem queria começar a vida, os que chegaram nos últimos anos são brasileiros de classe média e de classe alta. Já têm uma condição financeira estável, bem sucedidos e querem tranquilidade. A maioria já conhecia Portugal como turista e questões como a liberdade foram decisivas."

De acordo com o londrinense, há lugar para quem chega, sim. "Aqui em Coimbra a população é de 150 mil habitantes e os portugueses migram muito para outros países da Europa. Os que se formam querem outras experiências e seguem para outros lugares para estudar como Alemanha, Suíça, França - e isso faz com que Portugal precise de pessoas. Há muitos brasileiros estudando em Portugal e são bem-vindos", conta

mockup