Vegetação seca no Vale da Morte, em San Pedro do Atacama - Chile
Vegetação seca no Vale da Morte, em San Pedro do Atacama - Chile | Foto: Fotos: R.R.Rufino/ Divulgação



Era para sair sozinho, mas Ronaldo R. Rufino encontrou um amigo de última hora e os dois se aventuraram na expedição fotográfica pelo Chile e Bolívia. Era janeiro de 2018, foram 16 dias, 7,2 mil quilômetros percorridos, 8 kg perdidos e registros de tirar o fôlego, literalmente. Altitude, temperatura, clima deram o tempero no caminho que cruzou paixão pela fotografia, trabalho e contemplação.

Antes da viagem, o planejamento. "Eu nunca saio a campo como um aventureiro. Para todo projeto é feito um processo de logística. Então, eu tenho os pontos de onde eu vou dormir, onde tem combustível, água e comida, quantos dias vou ficar fora, acampar", enumera o fotógrafo já experiente. Acostumado com as expedições no Brasil, decidiu documentar a natureza em novos cenários.

Salar de Tara é uma das principais atrações do passeio do Atacama - Chile. Devido à altitude de aproximadamente 4.400 metros, as noites são belas e muito estreladas
Salar de Tara é uma das principais atrações do passeio do Atacama - Chile. Devido à altitude de aproximadamente 4.400 metros, as noites são belas e muito estreladas



O Chile foi o escolhido. "Eu sou biólogo, sempre fui apaixonado pela natureza, pela vida, pela forma que ela se manifesta e a fotografia é uma ferramenta de documentação", argumenta. Unindo as paixões ao trabalho, fez do prazer um negócio. Vulcões, gêiseres, deserto, o cenário escolhido atendia às duas pontas.

Outra atração se escondia depois da fronteira: o Salar de Uyuni, a maior reserva de sal de lítio do mundo, na Bolívia. O caminho conta com 350 km de deserto e atravessá-lo exige precaução e uma equipe maior. "É no meio do nada, não tem apoio, não tem suporte", explica.

Salinas Grandes, norte da Argentina: este salar é cortado pela rodovia que leva à fronteira com o Chile - Paso de Jama
Salinas Grandes, norte da Argentina: este salar é cortado pela rodovia que leva à fronteira com o Chile - Paso de Jama



Por força do destino, um casal de brasileiros – outros dois londrinenses - disposto a estender o passeio aceitou o convite. Mais à frente, entra para o grupo um baiano que tinha sido assaltado, já sem equipamentos na caminhonete. Os cinco encararam a travessia da Reserva Nacional de Fauna Andina Eduardo Avaroa: os 350 km no meio do nada que Rufino mencionou.

"Esse processo no meio do nada é muito legal, porque parece que você está andando no meio da lua em alguns momentos", compara. O local rendeu imagens incríveis pelas lagunas que permeiam o caminho, percurso que só uma expedição autônoma permitiria. "A gente podia escolher quando e onde dormir, conforme o local e gosto. A barraca você monta em dois minutos", afirma.

Flamingos se alimentando no fundo da Laguna Colorada, na Reserva Nacional de Fauna Andina Eduardo Avaroa – Bolívia
Flamingos se alimentando no fundo da Laguna Colorada, na Reserva Nacional de Fauna Andina Eduardo Avaroa – Bolívia



A questão é o conforto. É preciso estar preparado para enfrentar algumas situações. "De noite a temperatura cai, então a água congela, o ar é seco, resseca todas as vias aéreas internas, aí se você respira pela boca, a língua endurece. Era preciso estar hidratando o corpo o tempo todo. A altitude gera um cansaço insuportável, você se sente fraco e irritado", revela.

Mas tudo valeu a pena, segundo o que diz e o que apresenta nas imagens. "O que mais me surpreendeu são as expressões da vida à medida que vai subindo a altitude, os padrões de vegetação que mudam drasticamente. A quantidade de flores no deserto é surreal. Como é seco, cai uma 'aguinha' e aquilo explode em flor", descreve com olhar analítico de cientista e intensidade de fotógrafo.

Na Bolívia, o contraste de cultura de um país castigado. "Mas em contrapartida, a natureza da Bolívia é uma coisa extraordinária", afirma. A intenção do fotógrafo é voltar em período de maior seca no salar. "Fotografia é isso, você vai em um dia e é uma coisa, vai no outro e é outra interpretação. Então, mesmo indo ao mesmo local, nunca traz o mesmo conteúdo, tudo isso é muito bacana", declara.

Essas imagens de Rufino entrarão em livro de três volumes. Elas também fazem parte de uma exposição fotográfica gratuita no showroom da A.Yoshii (avenida Madre Leônia Milito, 1.800). Algumas já foram selecionadas para integrar o projeto de decoração de um apartamento e também serão colocadas em seu banco de imagens, unindo-se às mais de 120 mil fotografias disponibilizadas.

mockup