Feito com alma
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sexta-feira, 07 de setembro de 2018
Lais Taine<br>Reportagem Local 

Acompanhar o processo do início ao fim de um produto é para poucos. Derick Guerreiro Costa, 29, artesão do couro, acredita que tem esse privilégio e que isso seja o que dá autenticidade ao produto, o que chama de "alma". Carteiras, suspensórios, cintos estão entre os produtos, que apesar de terem técnica e design clássicos, sempre levam um toque de inovação.
"As pessoas assustam um pouco, porque elas falam que é difícil ver alguém da minha idade trabalhando com isso, mas pelo contrário, tem duas marcas bem grandes brasileiras que trabalham nessa mesma linha e os criadores são relativamente jovens", aponta o artesão sobre esse movimento de jovens no artesanato.
Arquiteto de formação, deixou o escritório aos 26 para investir em outros trabalhos que dependem da criatividade, como produção de vídeo e artesanato em couro. "Um amigo começou a fabricar aventais para tatuadores com detalhes em couro e a mãe dele já trabalhava com isso há muito tempo. Eu fiquei um mês com eles aprendendo, pensando, para tentar criar uma marca", afirma. Desde então, Costa pesquisa sobre o trabalho e utiliza a internet para aperfeiçoar a técnica. O ateliê fica na própria casa e o negócio está em processo de estruturação.
Trabalhando com pronta-entrega e também com encomendas, Costa cria novas formas para objetos que já são clássicos. "Meus clientes vão dos 20 aos 60 anos. O trabalho em si já é um processo milenar. Essa questão do couro e de não utilizar maquinário já segue estilo tradicional, a questão da modernidade fica mesmo por conta do design, com peças e modelos novos. Tem que estar acompanhando sempre as mudanças, as tendências, mas eu acho legal ter essa coisa do tradicional, básico e clássico, o mais prático possível", defende.

A tradição é o que atrai o olhar do jovem para o negócio. "Ninguém mais se interessa por trabalhos manuais, todos querem ser youtubers", brinca. O artesão também reutiliza couro de outras peças e preza pela valorização de ofícios antigos, como marcenaria, carpintaria e relojoeiros. "Tenho um amigo que está na terceira geração de relojoeiros e ele está vendo que não está dando para continuar, não tem para quem passar. Eu acho bem triste isso, está se perdendo a cultura. Eu sei que é normal dos processos industriais, mas o que me deixa feliz nessa coisa artesanal é que é feito com mais alma, feito um a um", afirma.
E por ter "alma", acaba custando mais, o que às vezes é pouco valorizado pelos consumidores. "Minhas carteiras variam entre R$ 80 a R$ 200. Em uma feira, a mulher olhou e perguntou 'por que tão caro? Não é você que faz?' É porque sou eu mesmo que faço que é caro", responde, rindo. Limpar, tratar o couro, produzir o molde, cortar, são inúmeros detalhes que vão dar o acabamento do produto e que levam tempo. "É exclusivo, tem personalidade, nenhum trabalho vai sair igual ao outro", afirma.
Essa desvalorização do artesanato é criticada pelo artesão como falta de investimentos na cultura como um todo. Para ele, a arte é subjugada e o artesanato entra no pacote. Mesmo assim, trabalha no que acredita e pretende desenvolver a marca para levar um pouco da própria "alma" para o cliente. "O artesanato é uma peça simples, envolve carinho, paixão, tudo que você sente está sendo passado para o produto", finaliza.


