"A ideia de não se alienar no processo tem muita força aqui dentro de casa", diz Moisés Alves de Oliveira, que utilizou madeira de demolição da propriedade rural onde nasceu
"A ideia de não se alienar no processo tem muita força aqui dentro de casa", diz Moisés Alves de Oliveira, que utilizou madeira de demolição da propriedade rural onde nasceu | Foto: Lais Taine



Na casa da família de Moisés Alves de Oliveira, a transgressão vai além da tinta. O espaço foi projetado e pensado nessa forma de enxergar o mundo. Os móveis foram executados pelo professor, que trouxe a madeira de peroba das propriedades antigas, presentes também no chão. "Boa parte da minha história está nesse piso, era da tulha que a gente enchia e esvaziava. Tem uma tábua ali que eu me lembro muito bem dela lá. Dos 11 aos 21 anos eu trabalhei lá, mas eu fui desmanchar essa tulha agora, depois dos 40. Eu convivi com essa madeira com arquitetura bem específica do italiano simples, nada espetacular", conta.

A marcenaria, hoje um hobby, foi profissão na adolescência, quando viveu por dois anos em São Paulo. Na experiência, aprendeu a trabalhar a madeira de forma profissional, atividade que executa por prazer na oficina que montou na casa. A esposa, Majorie Oliveira Vargas, também ganhou um espaço, um atelier onde pode produzir suas costuras e peças de artesanato. O ambiente foi pensado pela família, constituída por pais e dois filhos, e lembra uma casa de campo, com muita madeira, tijolos à vista, artesanato, pés de fruta, espaços comuns integrados, tudo remetendo ao simples e ao passado em uma atualidade em que a vida é conduzida pelo mercado.

"Eu tenho nessa casa um pouco dessa crítica de contracultura. É meio marxista, tem o conceito de alienação. Essa tinta comercial que você não sabe como ela é, que é boa porque tem uma propaganda, porque o vizinho falou, porque está na mídia, a empresa fala, é um jogo comercial imenso que coloca a ideia de qualidade, objetividade, facilidade, de estética e quando você joga isso na parede está colocando toda essa condição discursiva", critica.

Na contramão, encontraram uma forma em que conseguem aplicar um pouco do que acreditam. "Nós não queríamos isso, a gente queria saber de onde veio. A ideia de não se alienar no processo tem muita força aqui dentro de casa. Meus filhos lavam os carros, eu corto a grama do meu jardim, a gente não tem empregada, a gente termina o almoço e lava, a gente corta, projeta, planta, porque gosta dessa não alienação. É preciso interagir dentro do processo, criar junto, manipular, colocar a mão na massa, estar presente", ensina.

A casa expressa essa cultura nos materiais utilizados, a peroba que constitui mesas, bancos, cadeiras. No piso que veio da antiga propriedade da família. Nos tecidos aplicados em almofadas, toalhas de mesa. No trabalho manual, no processo de integração e congregação entre os moradores. E na tinta, peça que une toda a cadeia entre memória, transgressão e busca por uma vida mais consciente.

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