Estrangeiros em Londrina contam como percebem as revoltas em países


Erika Gonçalves - Grupo Folha
Erika Gonçalves - Grupo Folha

***

EQUADOR 

Outubro 2019 - Ruas tomadas por uma multidão de manifestantes, nuvens de gás lacrimogênio, barricadas, lojas fechadas. O estopim da revolta foi o aumento da gasolina e o saldo da repressão, 7 mortos e mais de 800 detidos.


Estrangeiros em Londrina contam como percebem as revoltas em países
AFP
 




***

BRASIL 

Separada por quase seis mil quilômetros de sua família e de seus amigos, a equatoriana e estudante de psicologia Ana Cecília Pasmiño Cisneros, acompanha tudo atentamente.  Ela está no Brasil há três anos, desde que veio estudar na UEL (Universidade Estadual de Londrina) e deixou os pais e dois irmãos mais novos em Quito, capital do Equador. 




E se informa sobre a revolta popular em conversas com a família, redes sociais e canais de internet, já que nem tudo é noticiado pelos meios de comunicação de seu país. 



Ela entende que o descontentamento da população vem de algum tempo e os conflitos apenas se intensificaram há um mês, já que o atual presidente foi eleito como um sucessor do presidente anterior, porém, trocou de partido e tem tomado medidas impopulares. Uma das que gerou mais desgosto foi a retirada do subsídio do combustível. 



“Muitas pessoas têm se sentido traídas por causa dessas mudanças, esperavam que ele fosse agir como seu antecessor. Meu pai trabalha em uma empresa privada de flores e recebe por viagem feita. Quando estourou a greve geral e as pessoas foram às ruas, ele ficou sem trabalhar e consequentemente, sem receber. Mas para ele seria ruim o aumento, ele gastaria todo seu dinheiro para pagar o combustível”, explica. 



Ela conta que sua mãe também trabalha em uma empresa que exporta rosas e muitas acabaram se perdendo pois não chegaram a tempo no aeroporto. Além da preocupação com seus entes queridos, outro receio de Cisneros é ter que voltar ao país por falta de recursos. “Fiquei muito preocupada, mesmo estando aqui não tem como (o conflito) não me afetar porque dependo do dinheiro dos meus pais. Tudo parou, ninguém tinha como sair de casa. Teve as perdas materiais, mas muitas pessoas morreram também. Eu nem conseguia prestar atenção na aula pensando no que estava acontecendo lá”, diz.  



Sua esperança é que a situação se acalme depois que o presidente publicou um decreto revogando o aumento do combustível.  “As coisas melhoraram um pouco depois que o presidente escutou a população e começou a dialogar, mas as pessoas ainda estão esperando a publicação de um novo decreto.  Tem pessoas morrendo de fome hoje no Equador, minha avó está dependendo dos filhos, o que não acontecia antes. Não sabemos o que vai acontecer.” 


Estrangeiros em Londrina contam como percebem as revoltas em países
AFP
 




***

Prestes a se formar em Arquitetura, a equatoriana Marjeorie Acuña se mostra surpresa com o que tem acontecido em seu país e diz nunca ter visto algo similar. Tanto que nos primeiros dias de conflito decidiu ficar alheia ao que acontecia, porém, com a piora da situação, começou a se sentir mal por estar longe da família. “Comecei a ficar depressiva, é uma situação muito difícil. Ficamos muito inseguros com o que vai acontecer, agora parece que está mais calmo, mas não se sabe até quando. Converso com meus pais todos os dias” 



Segundo ela, em sua casa a situação não é de todo ruim pois apesar de seu irmão estar desempregado, seu pai é aposentado pela Força Aérea do Equador. Sua mãe, no entanto, é comerciante e muitas vezes não pode trabalhar. “Ela trabalha das 8h às 18h, horário comercial, mas muitas vezes a polícia aparecia às 9h e pedia para fecharem as lojas e voltarem para casa porque não estavam conseguindo garantir a segurança lá”, conta. 



A meses da formatura, ela vive o dilema de voltar para casa ou permanecer no Brasil. “Apesar de morar em Quito, o Equador é um país pequeno, temos apenas três grandes cidades, tenho medo de não conseguir emprego. Eu tinha decidido voltar, mas agora não sei. Apesar de ter o apoio dos meus pais, me preocupa o que vou encontrar.” 


***

ARGENTINA 

Agosto 2019 - Milhares de argentinos vão às ruas em uma jornada de manifestações chamadas de “Urgencia para enfrentar el hambre” (urgência para enfrentar a fome).


Outubro 2019 - Com 48% dos votos o povo argentino elege em primeiro turno Alberto Fernández, tendo Cristina Kirchner como vice. O futuro presidente é professor de direito penal e há 30 anos atua nos bastidores do peronismo. 


Estrangeiros em Londrina contam como percebem as revoltas em países
AFP
 



***

BRASIL

Há quase dois anos no Brasil, a argentina Romina Toranzos vê com preocupação todos os conflitos na América Latina e diz ter ficado surpresa ao perceber como os brasileiros lidam com a situação, inclusive com conflitos internos. “Estou em contato com outros estrangeiros e vemos com tristeza como os brasileiros não se importam, como estão ligados em outras coisas. Quando cheguei, me surpreendi, depois fui conversando com as pessoas daqui para entender o processo. Talvez por estarem em um momento muito polarizado vocês ajam dessa maneira”, afirma a doutoranda em Estudos da Linguagem. 



Toranzos diz que não tem como ficar indiferente ao que acontece em seus país, já que todos foram afetados pela crise econômica, inclusive a classe média. Para saber o que acontece lá, lê três jornais todos os dias, além de acompanhar pelo Instagram os jornais do Brasil. “Temos que estar informados, leio diferentes pontos de vista para ver como as pessoas estão vendo a situação. Também converso com meus amigos. Acho que os argentinos são mais politizados.” 

 

 ***

CHILE

Em oito dias de manifestações no Chile, 19 pessoas morreram e quase 300 ficaram feridos. O início da revolta popular foi o aumento na passagem do metrô em 30 pesos, o equivalente a R$ 0,50.


Estrangeiros em Londrina contam como percebem as revoltas em países
AFP
 




***

BRASIL

Há quatro anos morando no Brasil, o chileno Walter Aquiles, kinesiólogo (profissão similar à fisioterapia), conta que os chilenos estão acostumados a lutar por seus direitos e principalmente os estudantes, que tomam a frente nas manifestações. Por isso, estranha o jeito brasileiro. “Vocês perdoam coisas que no Chile seriam inadmissíveis.” 



Com pais comerciantes, ele diz temer os saques, mas ressalta que no final deve valer a pena tudo que está ocorrendo. “Sei que está difícil a situação lá, mas todos entendem que a classe política tem que mudar. Tenho familiares em todos os lugares onde está havendo confrontos, fico preocupado, mas isso também me dá esperança”, aponta o ex-líder estudantil.  



De viagem marcada para o Chile e os aeroportos fechados, ele não viu alternativa a não ser remarcar a passagem, sem saber se iria conseguir embarcar na semana seguinte. Com escolas fechadas, seus irmãos não conseguem ir às aulas e um deles, prestes a fazer o vestibular, ainda não saber se as provas serão realizadas na data marcada. 



“Gostaria de estar lá protestando, participei da Revolução dos Estudantes de 2012. Comparando a realidade de Brasil e Chile vejo que o perfil dos estudantes brasileiros é muito diferente. Não vejo eles se manifestando aqui”, pondera. 



Segundo ele, apesar de ter um salário mínimo maior quando comparado a outros da América Latina, no Chile o custo de vida também é maior. “Não se consegue viver com um salário mínimo. Os idosos não conseguem pagar todas as contas. E os salários dos parlamentares são altos também. Sinceramente acho que isso vai se espalhar pela América Latina. Se o Chile conseguir fazer uma mudança, vai ser espelho para outros países. Tudo é consequência de um país que se cansou. O Chile está acostumado a catástrofes, terremotos, tsunamis. Acredito que o país vai crescer depois disso!” 


 




***

VENEZUELA

Janeiro 2019 - Panelaços em vários bairros de Caracas e grupos de manifestantes fecharam a avenida Forças Armadas, no centro da capital, aos gritos de “Este governo vai cair”. Governo ordena “blackout” informativo que afetou o uso de telefones, redes sociais, youtube; rádios e tevês sairam do ar.


Estrangeiros em Londrina contam como percebem as revoltas em países
AFP
 




***

BRASIL

 

Há cerca de 20 anos a psicóloga venezuelana Alejandra Astrid Leon Cedeño veio para o Brasil estudar. Aqui conheceu um brasileiro, se apaixonou e se casaram, tiveram um filho, ela se tornou professora da UEL. Tantos anos fora da Venezuela, entretanto, não fazem com que ela se preocupe menos com a grave crise que o país atravessa. “Não se reconhece que a Venezuela vive uma guerra por causa do petróleo”, critica. 



Trabalhando com psicologia social, ela acredita que a revolta tenha como causa pacotes neoliberais, além do aumento do combustível, o que acaba impactando em tudo. “Além disso há isenção de impostos dos ricos e cobrança dos pobres, quando deveria ser o contrário. Isso precisa ser olhado. Acabamos achando que não merecemos ter serviços bons e de graça, apenas outros países merecem. Os povos estão cansados de ser tratados dessa maneira. Queremos não só salvar o planeta, mas fazer de formas respeitáveis para o planeta e para as pessoas. Precisamos olhar e colocar limites.” 



Ela diz que continua trabalhando pelo seu país, para que as pessoas vivam bem e que todos estão focados no que está acontecendo lá. “Não tem como esquecer, mesmo que se queira. Quero voltar, porque ali está minha raiz. Agradeço por poder ajudar o meu país. Merecemos viver em paz e não sobrevivendo de qualquer jeito.” 


Continue lendo


Últimas notícias