Escolha de elencos para algumas produções audiovisuais gera controvérsias
Polêmica na tela - há décadas dentro e fora do país, a adoção do “whitewashing“, escalação de pessoas brancas para papéis que representam personagens de outras etnias
PUBLICAÇÃO
sábado, 05 de setembro de 2020
Polêmica na tela - há décadas dentro e fora do país, a adoção do “whitewashing“, escalação de pessoas brancas para papéis que representam personagens de outras etnias
Marcos Martins/Especial para a FOLHA 

O ano era 1969. No dia 7 de julho, a Rede Globo estreava, no horário das sete, “A Cabana do Pai Tomás”, novela escrita por Hedy Maia, Glória Magadan e Walther Negrão, totalmente inspirada no romance “Uncle Tom's Cabin”, de Harriet Beecher Stowe, uma abolicionista e escritora norte-americana. O principal personagem é o escravo negro Pai Tomás. Ao lado da esposa Cloé e de outros amigos na mesma condição, eles enfrentam fazendeiros na luta pela liberdade.
Mas, antes mesmo de estrear, o folhetim foi detonado nos jornais da época, que criticaram a escolha do protagonista: o ator Sérgio Cardoso, que era branco, e tinha o rosto e partes do corpo maquiados de preto, usava peruca de cabelos crespos e pedaços de rolha para alargar as narinas e fazer o personagem.
Houve forte reação ao “blackface” – prática na qual brancos se pintam para imitar negros, geralmente de maneira caricata. A opinião na classe artística era de que Milton Gonçalves deveria fazer o papel. Tia Cloé foi a primeira protagonista negra na televisão brasileira, interpretada pela atriz Ruth de Souza. Devido ao papel de destaque, ela chegou a ter problemas com colegas do elenco. “Algumas atrizes brancas não queriam que o nome delas ficasse atrás do meu nos créditos. Não guardo mágoa, mas acho qualquer tipo de preconceito uma estupidez”, declarou, anos depois, em uma entrevista.

Passados 47 anos, outra novela global foi alvo da crítica pela escolha do elenco. “Sol Nascente”, coincidentemente também de Walther Negrão, era ambientada na fictícia Arraial do Sol Nascente, e tinha como protagonistas uma família de descendentes de japoneses. Só que os dois principais personagens do núcleo não foram interpretados por atores de ascendência japonesa ou oriental. O patriarca da família, o japonês Kazuo Tanaka, foi vivido por Luis Melo. E a filha, Alice, papel de Giovanna Antonelli.
No último fim de semana, a polêmica que parecia esquecida foi ressuscitada na internet. Em uma live com as atrizes Danni Suzuki e Bruna Aiiso, de junho e que só repercutiu agora, Danni conta que o papel principal da novela havia sido escrito para ela. “Eu era a protagonista da novela, tinha sido escrita pelo Walter Negrão pra mim. Ele me chamou pra conversar, pesquisou minha vida. Fez a história de japonês com italiano, que é a minha história. Ela era designer porque eu fiz design industrial, ela surfava porque eu surfava. Enfim, foi toda construída em cima da minha vida real”, afirmou na transmissão. E complementou. “Na época, primeiramente, eles falaram que eu não seria a protagonista porque queriam uma menina mais jovem”, revelou.

Maria Casadevall, primeira substituta convidada para o papel, é dez anos mais jovem do que ela. Giovanna Antonelli, porém, é um ano mais velha. As escalações dela e de Luis Melo geraram um manifesto, assinado por cerca de 200 artistas brasileiros de ascendência oriental, questionando as escolhas. O texto pedia o fim da “discriminação étnica que ocorre em algumas produções de audiovisual que retratam o oriental de forma estereotipada, preconceituosa e distorcida da realidade”.
O autor da novela, na época, justificou a decisão em entrevistas. “Tentamos achar nos testes uma protagonista japonesa, mas não encontramos uma com status de estrela. Eu precisava disso, a Globo queria uma estrela. Novela tem um custo muito alto, não dá para arriscar”, resumiu. Já a emissora desconversou. “Os critérios de escalação das obras da Globo são técnicos e artísticos. São avaliados vários aspectos, como adequação ao perfil do personagem, disponibilidade do elenco, composição total do casting, dentre outros. E essa decisão não cabe apenas a um profissional e sim a um time, composto por autor, diretores e diretoria de Entretenimento da empresa”, afirmou em nota.
Mas, dois anos depois, outra produção da emissora esteve na berlinda. A novela das nove “Segundo Sol”, de João Emanuel Carneiro, era ambientada em Salvador, considerada a capital mais negra do país. Só que a produção contava apenas com protagonistas brancos. Desta vez os protestos foram ainda mais fortes e até o próprio elenco reclamou. O Ministério Público do Trabalho entrou com uma ação e a Globo reconheceu que precisava “evoluir com essa questão”.
Há casos positivos também. Em 2004, Taís Araújo protagonizou a novela das sete “Da Cor do Pecado”. Cinco anos depois, foi uma das famosas “Helenas” de Manoel Carlos, em “Viver a Vida”, e voltou ao protagonismo em “Cheias de Charme” (2012) e “Geração Brasil” (2014). Atualmente, é uma das protagonistas de “Amor de Mãe”, novela das nove interrompida devido à pandemia, e que deve voltar apenas no início do ano que vem.
A dramaturgia precisa replicar o mundo real
Em 1995, “A Próxima Vítima”, de Silvio de Abreu, havia trazido a família Noronha, de classe média, formada por Zezé Motta, Antonio Pitanga, Lui Mendes, Norton Nascimento e Camila Pitanga – que em 2015 protagonizou “Babilônia”, de Gilberto Braga. No entanto, apesar das boas iniciativas, entre 2004 e 2019, foram ao ar quase 150 novelas pela Globo, SBT e Record. Em apenas 13 delas houve papéis principais com atores negros, mesmo com várias sendo ambientadas em cidades com grande população negra.
Para o ator e escritor Márcio Oliveira, de Curitiba, os fatos expõem a falta de oportunidades que atores e atrizes que não são brancos enfrentam no mercado de trabalho, ainda com espaço restrito. “A gente encontra mais chances no teatro e até no cinema, mas quando se fala em televisão, o abismo é enorme. Temos uma população negra que enfrenta o preconceito em todas as profissões, poucos ocupam cargos de liderança e não é diferente no meio artístico. Tivemos conquistas nos últimos tempos, novelas que trouxeram o racismo para a pauta de discussão, espaço para protagonistas negras, mas ainda estamos longe de ocupar, nas produções audiovisuais de maneira geral, espaço proporcional ao contingente populacional que representamos no país. É preciso encarar isso de forma assertiva e mudar a realidade, com educação e conscientização”, avalia.
A atriz e produtora Lucia Nagae, de São Paulo, concorda. “A dramaturgia precisa replicar o mundo real, e ele é vasto, formado por orientais, negros, índios, e várias outras raças, etnias. Mas, de repente, parece que o mundo artístico não quer enxergar isso. Um personagem asiático interpretado por alguém que não é asiático não faz sentido. É a versão irreal do mundo real. Além de uma visão deturpada, machuca muito na alma”, protesta.
Controvérsias também no cinema

As produções de cinema americanas também costumam ser criticadas pela falta de diversidade. A situação é ainda pior quando atrizes e atores brancos são colocados em papéis de negros, latinos, asiáticos, indígenas e outros. Confira algumas escolhas controversas, neste levantamento recente do site Huffpost.
Angelina Jolie - O Preço da Coragem (2007)
O filme é baseado no drama real da jornalista Mariane Pearl. O marido, Daniel Pearl, um jornalista do The Wall Street Journal, é sequestrado e assassinado por militantes paquistaneses. Embora Mariane tenha nascido na França, sua ascendência é afro-cubana. Ela tem cabelos naturalmente encaracolados e uma pele mais morena. Escalada para o papel, Angelina Jolie não tem raízes africanas. De ascendência europeia, o cabelo da atriz não é naturalmente encaracolado, sua pele é branca e seus olhos são verde-azulados.
Mick Rooney - Bonequinha de Luxo (1961)
Um clássico de Hollywood, conta o romance entre a jovem socialite nova-iorquina Holly Golightly (Audrey Hepburn) e um homem que se muda para seu prédio. Nele mora o senhor Yunioshi, um senhorio bravo que ela tenta evitar a todo custo. Escolhido para o papel, Mick Rooney não era japonês. O ator americano, de ascendência escocesa, tem olhos puxados, é dentuço e tem sotaque pronunciado.
Laurence Olivier - Othello (1965)
Uma das várias adaptações para o cinema para a tragédia de Shakespeare do mesmo nome, na qual Othello é um general no exército veneziano. Ele também é um cristão mouro, o que significa que ele costuma ser retratado com a pele mais escura. Mas o ator britânico Laurence Olivier, que fez o personagem, não tem raízes árabes ou africanas. Por isso, ele pintou o rosto de cor escura para fazer o papel.
Katherine Hepburn - A Estirpe do Dragão (1944)
O filme se passa na segunda guerra sino-japonesa. Nele, Jade é uma chinesa que lidera seu vilarejo na luta contra os invasores japoneses. Mas a mulher chinesa, que vive num pequeno vilarejo na China, foi vivida por Katherine Hepburn, que não tinha nenhuma ascendência asiática. A atriz americana era descendente de europeus.
Jim Sturgess - 21 (2008)
Baseado em fatos reais, o filme conta a história de aluno brilhante do MIT treinado, junto com colegas, para ser tornar um especialista em contar cartas no jogo de 21. O protagonista do filme, Ben Campbell, é baseado em Jeffrey Ma, um aluno do MIT que aprendeu a contar cartas - e ele tem ascendência chinesa. A maioria dos integrantes do grupo de alunos tinha ascendência asiática, mas foram interpretados por atores brancos no filme. Escolhido para o papel, o ator Jim Sturgess, britânico, teve de ser treinado por um técnico para dominar o sotaque exigido pelo papel. O papel de Sturgess foi completamente “embranquecido” em 21, e o ator também é conhecido por se maquiar para interpretar um asiático em A Viagem, de 2012.
Carey Mulligan - Drive (2011)
Baseado num romance de mesmo nome, conta a saga de um habilidoso dublê de Hollywood, que se envolve em problemas quando tenta ajudar Irene, sua vizinha. No livro, a vizinha do dublê é Irina – uma latina de vinte e poucos anos. No filme, a personagem virou Irene, vivida pela britânica Carey Mulligan. O diretor dinamarquês Nicolas Winding Refn disse que reescreveu a personagem Irina como branca porque “não conseguiu achar uma atriz latina para proteger”.


