"Ainda vamos precisar do politicamente correto por muito tempo até que as pessoas consigam entender que somos seres humanos e temos os mesmos direitos" opina Zaíne Garcia de Assis
"Ainda vamos precisar do politicamente correto por muito tempo até que as pessoas consigam entender que somos seres humanos e temos os mesmos direitos" opina Zaíne Garcia de Assis | Foto: Saulo Ohara


"Eu entrei no elevador e o rapaz disse: 'você não penteia o cabelo para trabalhar? Seu cabelo está para o alto'. Ele falou sorrindo, mas a gente percebe quando há um incômodo", conta Zaíne Garcia de Assis, 23. Em outra ocasião, encontrou o mesmo rapaz que repetiu a expressão. "Então eu falei que a brincadeira dele era de muito mau gosto. A partir daquele dia, ele passou a me olhar torto, porque eu reagi", fala com a certeza de quem teve a atitude correta, sem exageros.

Situações como essas são corriqueiras na vida da secretária e estudante. O cabelo crespo e a pele negra geralmente são motivos de atenção do outro. "É um comportamento inadequado. É o mesmo que eu falar que uma pessoa está gorda, feia ou magra demais. É o meu cabelo, ele é assim, qual é o problema? Acho que o politicamente correto vem para a pessoa entender que ela tem de se colocar no lugar do outro e que o outro talvez goste do jeito que ele é", aponta.

Se de um lado tem a ofensa, do outro, o excesso de cuidado de quem não queria causar mágoa acaba gerando justamente o contrário. "Dizer que sou negra não é ofensa, mas as pessoas ficam sem jeito de falar. Falam morena, mulata... Não precisa ter medo, mas eu entendo que é um reflexo de muito tempo atrás, de escravidão, e isso virou um xingamento", afirma, contando que na própria família alguns não gostam de serem chamados de negros "porque não se reconhecem, não se sentem bem com isso. Então, acabam usando termos para suavizar".

É por conta disso que a secretária faz o equilíbrio e compreende que muitas pessoas remetem aos negros com cuidado. "O politicamente correto é complicado hoje porque a gente está no meio do processo. Alguns estão lutando para que não haja mais esse medo de falar que somos negros, mas se liberar, muita gente, tanto brancos quanto negros, vão usar isso para falar o que quiserem e ofender", justifica.

O termo afrodescendente não pegou e até Assis brinca sobre a colocação, por isso defende que haja uma conscientização para o uso da palavra "negro" quando for descrever a cor da pele de alguém, embora destaque que essa não seja a única forma de definir uma pessoa e acredita que o reconhecimento seja o caminho. "Quando os negros se reconhecerem como tal, a sociedade vai entender que negro não é um xingamento."

Enquanto isso, orienta a empatia. "Eu me sentiria bem se o outro estivesse falando isso para mim? Acho que essa mudança de pensamento tem de ser construída e vem dos dois lados. É um equilíbrio, o outro tem que saber agir e a gente tem que saber reagir, porque senão a gente vive em pé de guerra, se ofendendo", comenta.

E nessa onda do politicamente correto em que muitas pessoas usam termos para ofender e outros, com receio de usar palavras inadequadas, acabam por gerar confusão, não consegue atribuir se o conceito ajuda ou atrapalha o processo. "Não sei dizer se sou favor ou contra, eu sei que é necessário. Nós ainda vamos precisar do politicamente correto por muito tempo até que as pessoas consigam se colocar no lugar das outras, entender que somos seres humanos e temos os mesmos direitos, que a cor da pele não diferencia ninguém", argumenta.

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