Entalhando a felicidade
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sexta-feira, 25 de maio de 2018
Lais Taine<br>Reportagem Local 

"Madeira é um elemento que tem que ser respeitado. Eu nasci numa casa de madeira, me criei numa casa de madeira. Ela era feita com árvores retiradas dali, da região", conta José Belaque, 63. O artesão expõe suas peças no Calçadão de Londrina, esquina com a Hugo Cabral, de sexta-feira a segunda-feira. Após uma vida dedicada ao trabalho contínuo e sistemático, Belaque parece ter encontrado na madeira, a felicidade.
As peças são criadas para discursar. Os móveis para bonecas obedecem a arte vitoriana, período que estudou em um trabalho como guia turístico. Formas, desenhos, cores, tudo leva ao passado e tem um pouco de casa de vó. "A minimização, a cozinha do adulto que tinha nas fazendas para as bonecas. Então a criança vai aprendendo, por meio do brinquedo, a história", afirma.
História na expressão e na própria madeira. "Isso tudo é um resgate. Foi uma árvore que deu frutos, sombra, conforto e de repente ela se torna um elemento positivo", defende. Ao mesmo tempo, sofre a influência de suas próprias experiências.
"Quando eu era criança, não tinha indústria de brinquedos e a gente queria brincar. Então, os avós e pais construíam os brinquedos de uma forma artesanal. Eu quis voltar num tempo em que se construía os brinquedos, elementos decorativos, móveis dentro de casa", afirma.
Esse anseio pelo resgate e perpetuação do período por meio da arte veio depois de muitas funções executadas. Belaque trabalhou em despachante, em hospital e em diversas empresas de comunicação, atuando como jornalista, mas a arte sempre esteve presente. Fez teatro, participou de cinema, televisão, grupos de dança. "A arte sempre esteve intrínseca na minha vida, mas nunca se tornou o meu arrimo, porque eu também adorava trabalhar como jornalista", destaca.
Há quatro anos, tomou a decisão de viver da arte após a constatação de ter realizado bons trabalhos em sua carreira, já satisfeito com o ponto onde tinha chegado. "Eu tinha feito uma coisa muito bacana pela minha cidade, de contribuir com essa coisa do social. Eu precisava encontrar alguma coisa para ser feliz", afirma.
A oficina funciona no fundo da casa de Belaque, que vive hoje da renda do trabalho de paisagista e artesão. "Eu estou fazendo uma coisa que amo fazer, na hora que tenho interesse, então eu digo que estou no período fetal. Eu almoço quando tenho fome, levanto quando o corpo pede, trabalho e me estendo até de madrugada quando estou empolgado. Essa coisa sem rotina", sorri.
E vai criando conforme suas crenças e constatações expressas na madeira. Recicladas e não recicladas, afirma usar mais o pinus por questão de respeito e custo. As madeiras de primeira linha que possui são controladas e faz questão de afirmar. "Eu só trabalho com aquelas que têm o selo de controle, se não tiver eu não aceito, não compro. Não dou força para criar-se esse comércio", argumenta.
Belaque lamenta a devastação das florestas e o modelo industrial que acabam por dizimar natureza e sociedades que vivem delas. Por isso, destaca a questão do reaproveitamento. "Depende muito de você, se você enjoou de um móvel, ele possui partes que podem ser reutilizadas. Então eu trabalho com todos os tipos de madeira legal. O pinus para ambientes internos e o cumaru ou peroba-rosa reciclada, que são resistentes para ambientes externos", explica.
No fim, o resultado é a felicidade baseada no respeito pela natureza, pela arte e pela sua história. Todos marcados nas peças que expõe. "Dinheiro é maravilhoso, mas chega um período que ele não é mais tão importante. Ele é importante, mas não é 'tão' importante. Porque a felicidade não é o dinheiro que te traz. É você realizar aquilo que gosta de fazer. Isso é felicidade", acredita.
Tábuas que contam história
As peças do artesão José Belaque têm o propósito de resgatar a história da movelaria de forma minimizada. Nelas, inclui a expressão inspirada no período vitoriano. "Os nichos são idênticos aos que as avós tinham na cozinha, nos banheiros, com seus recortes", explica. A pintura de flores ornamenta a cabeceira da cama de bonecas em seu formato cheio de curvas.
Um genuflexório, peça utilizada no passado para que as pessoas ajoelhassem nas orações, também está entre os itens. "Isso tinha na fazenda. Não é uma coisa de beatismo, nem usual, é decorativa. Isso vai fazer um efeito, porque vai contar uma história. Do fazendeiro, da penitência, do catolicismo", explica.
As minicozinhas de brinquedo obedecem aos modelos antigos em recortes, cores, formas, de maneira que aparentam o mais natural possível, sem a industrialização dos moldes que vieram depois. "Não tem aquele acabamento industrial, você olha e pode dizer que fui eu que fiz. Fica no elemento, é simples, mas é de efeito", ensina.
Os desenhos de flores utilizados carregam o estilo do período aplicados como decoração por meio do pirógrafo. As ondulações são presentes em toda forma. "A vida não é uma linha contínua, eu decidi que não trabalharia com linhas retas. É um pouco da ondulação da história, das mudanças", menciona.
Belaque acredita que seus clientes são aqueles que procuram e entendem o trabalho nos móveis rústicos. A peça mais simples leva, no mínimo, um dia e meio para ser produzida. Na oficina, passa pelos processos de criação, transferência para a prancheta, medidas, risco na madeira, recorte das matrizes, percorrendo as ferramentas, como serra e lixa, até o acabamento e envernizamento.
Peça finalizada, expõe de sexta-feira a segunda-feira no Calçadão de Londrina, mesmo reconhecendo as dificuldades em se viver disso. "No Brasil, a arte não tem o menor valor, ainda é uma coisa obscura. Hoje se comercializou muito a ideia da arte", avalia.
Ainda assim, considera seus desejos de ser feliz ao dizer, expressar e ensinar através da madeira. "Eu quero mais é ser livre, fazer umas coisas poucas, mas que eu gosto, curto. Adoro saber que eu criei, que você vai comprar e vai gostar daquilo. Às vezes eu estou no Calçadão e não vendo nada, mas só de você dizer que lindo que é o meu trabalho, já compensou muito, passo a acreditar mais", orgulha-se.


