Em todos os cantos, reminiscências
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sexta-feira, 08 de março de 2019
Lais Taine<br>Reportagem Local 

A interna de uma casa comum em bairro pacato na zona sul da cidade revela segredos da alma que a fachada esconde despretensiosamente. Tesouros valiosos em todo canto: pratos, tecidos, quadros, cristais e barro misturados tal qual a personalidade dos moradores. O arquiteto Wagner Donadio e o empresário Weber Wanderley abriram as portas da intimidade para mostrar uma decoração repleta de personalidade e memória.
"Eu não acho excêntrico, para mim é supernatural, o que você acha?", pergunta o arquiteto sentado no sofá que ele mesmo desenhou há duas décadas. Sobre a sua cabeça, pendurados na parede, obras de arte variadas, gravuras, pinturas, colagens, a maior parte é presente de amigos, a outra colocada para contar uma história. "Esse pássaro foi no primeiro leilão que a gente foi, eu nem sabia como era essa coisa de arrematar nada, ele tem essa história, essa coisa de primeira vez", brinca.
Paredes, móveis, objetos repletos de pequenas histórias na unidade composta pela subjetividade da memória. Naquele espaço, a elegância vai além do palpável para criar a uniformidade. "O Weber é mais dos cristais e eu sou mais do barro, nós fomos juntando para ter uma unidade. Acho que quando uma peça tem memória, tem um porquê, ela se combina. Quando tem memória, as peças falam por si", argumenta.

Um buffet da década de 1940, um guarda-roupa da avó que se tornou cristaleira, um altar repleto de castiçais e santas, algumas que viajaram no tempo saindo do início do século passado para proteger as novas gerações em uma espécie de revelação da fé e sincretismo. Cerâmica, vidro, prata, Japão, Chile, Europa e muita arte. "São coisas que representam um povo, eu gosto disso", afirma.
Do outro lado da parede, na sala de TV, mais arte e inspiração. Livros, coleção de bonecas, peças das várias viagens dizendo por onde passaram ou por onde foram lembrados. "Essa sala é mais divertida, porque tem essas lembranças: 'fui ao Ceará e lembrei de você', todo lugar que a gente vai, traz uma peça", revela. A soma dos dois cantos forma o quebra-cabeça, um ambiente de estilo mais elegante, com colares enquadrados, muito dourado, cerâmica, cristais. Outro mais despojado, bonecas, garrafas de vidros, peças artesanais.
Nas nuances, quase dá para decifrar qual dos moradores está mais presente em cada espaço, porém, há uma unidade que confunde quem ousa tentar. Ela está na arte, enquanto um veio do teatro e o outro do brechó e cinema. "A arte sempre perseguiu a gente nesse sentido legal". Não só perseguiu, como ficou. A exposição de peças tão ricas tem curadoria qualificada. Nelas, a presença da cultura e dos amigos, responsáveis por uma parte dos objetos escolhidos.
Todas vieram do antigo apartamento e saíram das caixas para o novo espaço há cinco anos. "Eu sempre quis morar em uma casa, ter um cachorro e a gente conseguiu com essa vinda", conta Donadio, enquanto Otto late no quintal dos fundos. Independentemente dos endereços, a essência é a mesma: misturar as memórias e brincar de unificá-las. "Eu tenho uma filosofia, a casa tem que transpirar a pessoa", revela o arquiteto. Transpiração que responde a pergunta: não é excêntrico, é transcendente. Alma, energia, afeto contidos que vão muito além da superfície.


