Em pé de igualdade
Técnica busca que participantes resolvam suas divergências através de conversas mediadas
PUBLICAÇÃO
sábado, 06 de abril de 2019
Técnica busca que participantes resolvam suas divergências através de conversas mediadas
Erika Gonçalves - Grupo Folha 

Reunir pessoas com conflitos entre si pode parecer a situação propícia para que os ânimos se exaltem, mas quando feito seguindo as técnicas corretas, o processo pode ser muito produtivo. Uma dessas formas é a Justiça Restaurativa, uma técnica de solução de conflito, regulamentada pelo Tribunal de Justiça do Paraná.
Ela pode ser aplicada tanto entre os membros de processos que já passaram pela Justiça - como uma sugestão do juiz às partes -, quanto em grupos como escolas e empresas. Em Londrina, a Lei Municipal 12.467/2016 prevê a aplicação da técnica nas escolas municipais. O objetivo é que os envolvidos possam conversar sobre a divergência em uma situação de igualdade, expondo suas queixas e, assim, conhecerem o ponto de vista do outro e criarem empatia.
Quanto de jogo de cintura é necessário para que o processo seja desenvolvido à contento ao invés de piorar a situação? Segundo Cláudia Catafesta, juíza da 2ª Vara da Infância e da Juventude, e facilitadora da Justiça Restaurativa em Londrina, nesse processo é muito importante ter clareza das regras da técnica, estar bem preparado e saber intervir na hora certa.
Ela explica que em Londrina a técnica é aplicada desde 2014, com o auxílio dos facilitadores, voluntários que foram treinados para aplicar a metodologia. “Por exemplo, em uma escola temos um adolescente agressor e uma vítima, mas a comunidade escolar inteira é afetada e a Justiça Restaurativa pressupõe essa ideia de comunidade. O conflito é das pessoas e elas que devem tratar.”
No caso de autores de delitos a participação no círculo não os isenta de cumprir a pena determinada pela Justiça, mas tem o objetivo de que não voltem a cometer novas infrações.
A técnica foi criada pela norte-americana Kay Pranis após observar índios no Canadá. Segundo Catafesta, Praine notou que eles constroem soluções a partir de consenso, não há quem manda e eles não chamam ninguém de fora para intermediar.
Uma das ferramentas da Justiça Restaurativa é o círculo de construção de paz. Nele os participantes são estimulados a falar baseados em perguntas previamente preparadas pelos facilitadores, sempre respeitando sua vez, que é sinalizada pelo objeto da palavra, um objeto simples, que tenha significado para o grupo.
“Para sentar em círculo as pessoas primeiro devem desejar fazer isso. Um dos pressupostos é a voluntariedade. A pessoa é convidada a participar, faz uma entrevista com o facilitador e ele é obrigado a explicar tudo que pode acontecer, quais são os limites daquela atuação. A pessoa pode aceitar ou não. Não é momento para ofender ninguém, respeito é o primeiro pressuposto. Então constroem-se valores e depois constroem-se diretrizes. As pessoas sentam em círculo para que todas sejam iguais, ninguém está numa ponta ou na outra. Essa horizontalidade é muito forte.”
O círculo sempre é acompanhado por dois facilitadores, que deverão se manter atentos de forma a intervir imediatamente quando as regras forem quebradas, antes que os participantes se exaltem.
“Eu já fiz um em que houve um conflito no meio do círculo. No momento que o conflito se instalou, eu, como facilitadora, fui obrigada a retomar as diretrizes e perguntar ao grupo se desejaria continuar observando as diretrizes, senão infelizmente a prática não poderia continuar. Em consenso eles decidiram continuar, respeitando as diretrizes. Não tem bate-boca, mas pode acontecer. O facilitador não é só uma pessoa capacitada, ele tem que ter essa noção muito clara. São dois facilitadores porque um se apoia no outro e sozinho é difícil ter essa administração da situação”, diz a juíza.


