Do tomate à máquina de costura, as feiras livres de Londrina oferecem produtos e serviços às vezes inusitados. Sete dias da semana em 32 pontos diferentes, todas as regiões da cidade são contempladas e a equipe de reportagem da FOLHA passou por duas delas: a extensa feira da região dos Cinco Conjuntos (zona Norte), na avenida Saul Elkind, e a tradicional feira do centro da cidade, na avenida São Paulo. Quarta-feira, sexta-feira, não importa a feira. É dia de feira!

A feirante Cleusa de Camargo vende temperos e chás em barraca de 30 anos
A feirante Cleusa de Camargo vende temperos e chás em barraca de 30 anos | Foto: Ricardo Chicarelli



De mãe para filha
"O que é bom para gordura no fígado?", pergunta uma cliente encostando a barriga na barraca. O acompanhante já emenda em tom de brincadeira: "o que é bom para abrir apetite?", ri. Na feira da Saul Elkind, temperos e chás são dispostos em diversos saquinhos sem etiqueta, somente com o conhecimento de Cleusa de Camargo, 61, é possível descobrir o nome de cada um.
"O que eu vendo mais é a mistura de 14 temperos que eu faço na hora. Ele é antibiótico, para anemia, tira a dor. Eu faço o chá da raiz", explica. O chá não cura tudo e muitas pessoas surgem com dificuldades diferentes, exigindo conhecimento da feirante. "Alguma coisa eu sei. Minha mãe tinha essa barraca há 30 anos, ela sim sabe tudo, mas está com 83 anos, fica em casa agora", explica.
No entanto, hoje isso não é mais um problema. "Eles veem tudo na internet e já procuram sabendo", conta. A feirante conseguiu indicar diversos produtos para diferentes problemas. Chá de canela de velho para dor na coluna, também afirma tomar certo tempero embebido em água todos os dias. Alguém pergunta o que é aquele pó amarelo e ela responde com dois nomes diferentes. A neta ao lado observa, esboçando a continuidade da tradição familiar. (L.T.)

Provas e prosas
Horário de pico na feira da Saul Elkind começa às 10h para Renan Silva Dias, 34. Com os embutidos pendurados e outros em bandejas dispostas no balcão, a conversa é pausada diversas vezes para mostrar os produtos aos clientes que movimentavam o atendimento.
Queijo, linguiça, bacon vendidos exclusivamente na feira. "Já tive açougue, mas com sinceridade, por conta dos custos do comércio, aqui é melhor. Aqui eu tenho menos clientes, mas compensa mais. Além disso, a clientela é diferente, aqui o pessoal não é tão enjoado", brinca.
Dias tem alvará para seis dias da semana, mas trabalha em quatro feiras diferentes de Londrina ao lado da irmã e esposa. Há 5 anos na feira, acredita no potencial dos produtos caseiros. "Acho que o pessoal gosta por não ser industrializado. Os embutidos a gente mesmo que produz, o queijo não", explica.
O queijo fresco é provado por uma cliente que topa levá-lo. Enquanto aguardam, alguns aproveitam para olhar os potes de doces e geleias, perguntam algo sobre a linguiça, levantam a rede de proteção contra insetos.
Os compradores de feira são curiosos e esse relacionamento entre feirante e comprador é que faz diferença. Dias vai tirando as dúvidas, conversa com um, oferece a degustação de um produto e essa forma de negociação vai conquistando o cliente que, entre provas e prosas, acaba levando um produto a mais na sacola. (L.T.)

Ao lado da barraca da mulher, Lima Cesário aproveita a feira para vender máquinas de costura usadas que ele mesmo consertou
Ao lado da barraca da mulher, Lima Cesário aproveita a feira para vender máquinas de costura usadas que ele mesmo consertou | Foto: Ricardo Chicarelli



Que tal uma máquina de costura?
Duas barracas encostadas, uma mesma família. Enquanto Marili Campano Cesário, 62, vende as peças de roupas infantis que confecciona, o marido, Lima Cesário, 65, vende máquinas de costura usadas. "Eu compro com defeito, arrumo e vendo", afirma o vendedor. As peças expostas normalmente variam entre R$ 200 e
R$ 250.
Lima só aproveitou a oportunidade. Como a família confecciona roupas, ele focado em plus size - "o meu forte é bermuda tamanho maior" -, ela em peças infantis, viu no contato diário com o trabalho a oportunidade de também revender as máquinas usadas.
A família mora próximo à feira, no conjunto Aquiles Stenghel (zona Norte). O que eles mais vendem é o conjunto de moletom infantil, que custa R$ 25. As cuecas, no valor de R$ 2,50 também saem bastante. "Aqui é bom porque vem gente de todo lugar, o público é bem variado", afirma Marili.
Entre as máquinas de costura e as peças infantis, a família toca o negócio unida. Uma barraca ao lado da outra, aproveitando a visibilidade da feira, juntos recebem os clientes. Durante a semana, também atendem em casa, mas é a feira de domingo seu principal ponto de vendas. (L.T.)

Bolinha, carioquinha, carnaval
Arroz, feijão, café são oferecidos na barraca de José Domingues, 59, que começou vendendo verduras aos 19. Durante o período de feirante, foi procurado por produtores rurais interessados em vender outros produtos em sua banca. Foi aí que percebeu uma nova forma de se trabalhar na feira: trocando as hortaliças por sacos de cereais.
"Bolinha, carnaval, dois tipos de carioca. Cavalinho, cavalão, vermelhinho, catetinho...", Domingues vai falando os tipos de feijão e amendoim que tem. Os diferencias destacados por ele são variedade e qualidade por preço reduzido. "O café cru, que não é moído, isso não tem no mercado e também tenho vários tipos de feijão. Outra coisa é que a qualidade, quando se tem no mercado, torna-se mais caro", afirma.
O café cru também é oferecido em um ponto próximo dali. O cheiro que atrai sai da tímida barraca de Washington Ribeiro, 33. "Eu nasci nessa banca. Desde 1984 meu pai vinha aqui. Agora eu só continuo o trabalho dele", conta. Moído ou em grão, a banca de Ribeiro é exclusiva de café. Moído na hora, 500 gramas custam R$ 11. (L.T.)

Leonardo Corsi: "Ele (pai) sustentou a família, hoje eu continuo e sustento a minha"
Leonardo Corsi: "Ele (pai) sustentou a família, hoje eu continuo e sustento a minha" | Foto: Ricardo Chicarelli



O consertador de panelas
Uma kombi extravagante chama a atenção pela quantidade de ferramentas e utensílios de cozinha pendurados na feira dos Cinco Conjuntos. Leonardo Corsi, 37, vende peças de panela, de fogão, acessórios para a cozinha e faz consertos, ofício aprendido com o pai, que desempenhou o mesmo trabalho desde a década de 1980 até o último ano.
"Ele veio de São Paulo fazendo esse serviço. Me lembro de que eu vinha para a feira com ele ainda criança, desde os 5 anos. Ele sustentou a família, hoje eu continuo e sustento a minha", orgulha-se em prosseguir no trabalho após a morte do pai.
Entre batidas com uma espécie de martelo, a conversa se desenrola enquanto uma panela sofria as pancadas. A agilidade – conquistada com a experiência – permite a fala com poucas interrupções do serviço, o que não significa menosprezar a atenção - o feirante consegue dar conta das duas coisas com maestria.
É a experiência. Todos os dias da semana Corsi está em uma feira de Londrina. Os domingos possuem maior clientela. "A barraca é muito conhecida, meu pai era bastante conhecido, pelo menos aqui na região", sorri. Voltando a atenção ao trabalho, despede-se da equipe de reportagem ao lado da família, que o ajuda no atendimento aos domingos. (L.T.)

Para casa
Um descascador de batatas diferente, coador de pano, tapetes, decoração, cobertas, almofadas. A feira também é lugar de pensar na casa. Várias barracas possuem as cobertas de plush que custam, em média, R$ 40. Do Paraguai, Ibitinga (interior de São Paulo), da região, do artesanal ao industrial.
Fátima Nascimento, 60, tem uma kombi lotada de produtos para casa que fica estacionada no fundo da sua barraca. Uma parte do que revende é artesanal, como panos de prato, almofadas e o ‘puxa-saco’, a peça mais procurada. "O diferencial é que são mercadorias que não se acha em lojas e é mais barato", defende.
Vinte e dois anos de feira, Nascimento sabe o que qualquer cliente quer: qualidade e preço. Coisa que talvez só a barraca pudesse oferecer, já que os custos para o feirante são bem inferiores aos de uma loja em ponto fixo. "Aqui também não tem burocracia", afirma. Em sua barraca, há uma diversidade de produtos de cama, mesa e banho, como tapetes, toalhas e caminhos de mesa. (L.T.)

Ana Maria Pereira fabrica todos os itens que vende, das roupas às coleiras
Ana Maria Pereira fabrica todos os itens que vende, das roupas às coleiras | Foto: Gina Mardones



Pets também têm vez
Não são só alimentos que são vendidos na feira. Os pets podem ficar bem estilosos e quentinhos com as roupinhas fabricadas pela artesã Ana Maria Pereira. Ela conta que começou a fabricar as peças para cães de maneira despretensiosa. "Minha primeira encomenda foi, na verdade, uma mochilinha para um cachorro. Eu já trabalhava na feira vendendo bolsas, que é um outro produto que eu fabrico. Aí uma pessoa me pediu a mochila, eu fiz e depois comecei com as roupas. Tenho o maior prazer em fazer isso, é como se fosse para um bebê", ela conta.
Há sete anos como feirante, Pereira diz que fabrica todos os itens que vende, das roupas às coleiras. Em sua banca é possível encontrar também as plaquinhas de identificação, que ela grava na hora com os dados do cliente. Também atende a pedidos especiais, fazendo roupas sob medida.
Participando das feiras três vezes na semana, ela também comercializa os produtos via internet e em bazares. A quantidade de vendas na banca varia conforme a época do ano. "Tem cliente que vem todos os anos comprar roupinhas. É curioso porque já vi cachorro em Cambé usando uma roupa que eu tinha feito, elas vão para todos os lugares", constata orgulhosa. (E.G.)

Na banca de Clarinha Bueno da Silva, peças de vestuário custam até R$ 45
Na banca de Clarinha Bueno da Silva, peças de vestuário custam até R$ 45 | Foto: Ricardo Chicarelli



Estilo em conta
Um amontoado de peças dispostas na calçada em uma esquina da avenida Saul Elkind (zona Norte) complementa a feira com a placa que diz: "qualquer peça: R$ 5". Quem passa, tem a opção do brechó ao ar livre ou buscar barracas que ofereçam peças novas, produzidas na região ou não, confeccionadas entre família ou de revenda. Tudo a gosto do freguês.
Biquínis, roupas masculinas e femininas, esportivas, infantis, bolsas, meias, lingeries... É possível ter estilo sem pagar muito caro por isso. Clarinha Bueno da Silva, 65, possui uma barraca de vestuário com peças novas e usadas. Os valores variam entre R$ 5 e R$ 45. "Prefiro vender na feira, porque aqui recebo à vista e consigo fazer bem em conta por conta dos custos baixos que eu tenho", argumenta. A peça mais cara da barraca de Silva é a calça jeans masculina.
Próximo dali, Enrique Xavier Neto, 71, oferece as bolsas fabricadas pela família de maneira semiartesanal. O empenho e vontade de vender são grandes, mas percebe a dificuldade entre tanta concorrência. "Hoje em dia os importados tomaram conta. A China dominou tudo", lamenta.
Há 10 anos na feira, o feirante dispõe algumas bolsas em uma lona no chão, outras em um cabideiro na ponta. A feira é a oportunidade de tirar algum dinheiro com as criações. "Eu vendo só aqui na Saul. A gente vai variando os produtos, dá para tirar um tanto", afirma. Embora enfrente as dificuldades do comércio, persiste com o trabalho de sorriso no rosto. (L.T.)

Luciana Magalhães: além do preço, atendimento é o diferencial
Luciana Magalhães: além do preço, atendimento é o diferencial | Foto: Ricardo Chicarelli



Peixe fresco
As caixas de isopor fechadas deixam qualquer curioso desconfortável. Saber que é peixe não basta, é preciso abrir a tampa para se certifir daquilo que nunca teve dúvida. Luciana Aparecida Magalhães, 41, explica que a família toda trabalha na barraca oferecendo frutos do mar e pescados.
"As pessoas não comem peixe, deveriam comer mais. Aqui o preço é melhor que o da peixaria e temos o peixe fresco e peixe de mar", afirma. A família busca de Santa Catarina e os oferece em feiras quatro vezes por semana há mais de 10 anos.
A clientela é fiel. Everaldo Silva, 42, frequentador assíduo da barraca afirma que o atendimento é um grande ponto na hora da compra. "Gosto por causa do preço e do atendimento, aqui você conversa com o dono da barraca, brinca, eles dão desconto. Aqui eu chego, cumprimento, converso com todo mundo e troco receita", comenta.
Além do preço, um dos principais argumentos dos feirantes, o convívio com os moradores da região tornam o atendimento personalizado pelo próprio clima ameno de feira. "O pessoal faz amizade, vira cliente, tem gente que vem de longe para comprar", ressalta Magalhães. (L.T.)

mockup