Meu pai sempre dizia que a diferença entre um mendigo e um sultão não é a riqueza, mas a forma como cada um conta sua história. Eu achava engraçado e sempre lembrava desse ditado quando ele reclamava de dinheiro. O "Velho" costumava reagir rindo e me olhando com seus olhos cinzas dizendo que ele, mais do qualquer um no mundo, tinha o sagrado “direito de ser contraditório.”

Eu não sabia, mas ele estava definindo exatamente como eu me senti aos vinte e dois anos segurando minha filha no colo. Eu e a mãe da minha filha éramos dois jovens universitários e duros. Uma geração anterior à nossa, nessa situação, teríamos abandonado nossos sonhos e individualidades. Teríamos casado, eu teria arrumado um trabalho mais ou menos digno e a mãe dela viraria dona de casa. Depois de alguns anos ainda teríamos algumas parcelas de um apartamento vencidas, um Corcel e um cachorro.

Mas o ano era 2005. Não tinha trabalho, não tinha carro e quem trabalhava era minha companheira. Eu, além de ser uma péssima dona de casa, sentia contrariedades nessa “inversão” de papéis. Não que passar muito tempo em casa cuidado da minha filha fosse ruim (era um caos delicioso), mas na época eu sentia dificuldade de distinguir os papéis de uma sociedade que colocou a família patriarcal em xeque.

Com o tempo compreendi que o mundo contemporâneo, por avanços culturais e contradições produtivas, exige que o homem tal qual conhecíamos reinvente sua função na família e na sociedade. Isso tira da figura paterna a centralização das decisões familiares ao mesmo tempo que liberta o homem do estigma da racionalidade e da repreensão. O pai, por fim, pode ser emotivo sem estar embriagado, não precisa mais ter medo do afeto e das palavras. Ao invés de uma figura ameaçadora e silenciosa, o pai agora pode ter medo de barata, chorar em filme e transcender o mito do herói que paga contas. Heróis são mascarados e essa loucura de esconder fragilidades humanas transmite a falsa ideia que não cometemos erros. E pior, não exemplifica aos filhos o hábito de reconhecê-los confundindo a noção de autoridade e impunidade.

Se há algo que a paternidade pode fazer pelos filhos além de desvendar o próprio machismo, é transmitir valores civilizatórios sem abrir mão da vulnerabilidade humana. Isso porque, além de uma crise da identidade masculina, a era da desinformação traz a percepção de que jamais cometemos erros, ou de que tudo é remediável com uma retórica esfarrapada de que nunca nos enganamos. Inclusive é muito provável que a necessidade atual de uma personalidade mitológica e heroica que traga redenção à comunidade através do sacrifício, é provavelmente fruto de um resgate dessa paternidade tóxica que perdeu sua função no mundo contemporâneo. E pior, que é nociva à mulher e à justiça, pois se pressupõe imaculada. Isso me leva de volta aos olhos cinzas do meu pai e seu ceticismo sábio. A frase que ele dizia era: “Tenho o direito de ser contraditório, sou ser humano, pior contradição é não saber disso”.

icon-aspas "Ao invés de uma figura ameaçadora e silenciosa, o pai agora pode ter medo de barata, chorar em filme e transcender o mito do herói que paga contas"

Tarik de Almeida Elid, pai da Luíza, de 14 anos.

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