Dia da Consciência Negra: mas somos conscientes?

Em meio ao mês eleitoral, palavras como representatividade, equidade e direitos fazem parte de uma luta que se fortalece

Lara Bridi (estagiária)*
Lara Bridi (estagiária)*

Chega mais um 20 de novembro, a emblemática data que desperta esperança de muitos e curiosidade de outros. Afinal, o que é a “Consciência Negra”? Do que se conscientiza e qual sua importância? Por que essa data é lembrada? As repostas se encontram em uma história que começa há mais de 300 anos atrás, no período colonial. Naquela época, a escravidão ainda fazia parte da realidade brasileira, colocando o indivíduo trazido da África em condições de mercadoria, em condições de objeto. Na busca pela liberdade e direitos básicos, muitos fugiram para os quilombos, comunidades que acolheram essa população. Foi em 20 de novembro de 1695 que se deu o assassinato daquele que foi o mais memorável líder de quilombos, Zumbi dos Palmares – e daí a data. 


Dia da Consciência Negra: mas somos conscientes?
iStock
 


Séculos depois, descendentes desses povos escravizados vivem um espelho do Brasil de seus antepassados. Mais de 56% da população nacional é negra, como demonstrado no ano passado por dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), mas esse contingente ainda não ocupa o espaço público, educacional e empresarial nessa proporção. Por outro lado, a Rede de Observatórios da segurança mostra que o povo negro é o mais violentado: 75% dos mortos pela polícia são negros, assim como 61% das vítimas de feminicídio. Em média, a cada 100 mil habitantes, 28 são assassinados; mas o número salta para 200 entre os homens negros de 19 a 24. 




Visto esse quadro, não é possível dizer que haja democracia racial no país. Quem conta isso é a Doutora Maria Nilza da Silva, 56 anos, professora de Sociologia na Universidade Estadual de Londrina (UEL) e coordenadora do Núcleo de Estudos Afro-Brasileiros da UEL. Ela explica que a data da “consciência negra significa realmente um chamado, é um dia para a gente lembrar que essa população, não somente no Brasil, é vítima de racismo, de desigualdades e injustiças”. A morte de Zumbi marca esse chamado desde os anos setenta, com o Movimento Negro Unificado, em um resgate do histórico dos quilombos como símbolo de liberdade. E hoje o dia não representa luto, mas luta.  


Dia da Consciência Negra: mas somos conscientes?
iStock
 


Maria Nilza entende que a população negra não tem a garantia de seus direitos e muitas vezes não conhece a própria história. A doutora destaca a importância de políticas de ação afirmativa e reparação histórica, como cotas e reserva de vagas, na construção de uma comunidade mais igualitária e diversa, ao passo que indivíduos negros demonstram suas potencialidades ao assumir novos papeis.  Em sua visão, a inclusão de negros na comunidade não é benéfica apenas para eles, pois “quem ganha é a sociedade brasileira”, diz ela. Por isso, o 20 de novembro é celebrado com comemoração a vitórias passadas, reflexão acerca da realidade e o que pode ser feito para mudá-la. 



Participação e representatividade política 


Ainda há muito a ser trilhado até que o negro conquiste seu protagonismo na sociedade. Nas eleições realizadas no domingo (15), por exemplo, Londrina teve 26,71% de seus candidatos autodeclarados pretos e pardos, mas nenhum foi eleito. Já em Curitiba, foi nessa ocasião em que foi eleita a primeira mulher negra como vereadora na cidade. Seu nome é Carol Dartora. Ela assumirá o cargo ano que vem sendo a terceira candidata mais bem votada da capital, ultrapassando os oito mil votos.  


Aos 37 anos, após lecionar na rede pública de ensino e ter-se feito presente no movimento negro, feminista e sindicatos, foi a primeira vez que Dartora se lançou politicamente. “A gente fica muito feliz de eu ser a primeira vereadora negra eleita, mas ao mesmo tempo isso traz uma denúncia: apenas em 2020 uma mulher negra vem ocupar um cargo na administração pública da cidade, e isso é triste” - relata Carol. 


Carol Dartora, primeira negra eleita como vereadora em Curitiba.
Carol Dartora, primeira negra eleita como vereadora em Curitiba. | Divulgação
 


A preocupação com a comunidade negra se faz presente em suas pautas a serem levadas à câmara. Além de procurar combater o genocídio da juventude negra, é sua prioridade trabalhar na diminuição do preço das passagens de ônibus de Curitiba, que são os mais elevados do estado e um dos maiores do país. A vereadora eleita afirma que “pode não parecer uma questão de raça, mas é. A classe trabalhadora tem cor”. Carol enxerga que, ainda que haja insurgências como a dela, a representatividade negra ainda é proporcionalmente reduzida, quase invisibilizada. Mas ela espera que o resultado dessa eleição vá “adubar o campo para que a gente possa ter eleições presidenciais mais democráticas e mais representativas”. 


 


Religião: mais que espiritualidade, um resgate histórico 


Como herança, os afrodescendentes não só guardam uma narrativa de luta, mas também uma riqueza cultural. Entre suas manifestações, as religiões de origem africana como a Umbanda e o Candomblé ocupam grande espaço na formação a identidade negra. “Quando a gente tem a oportunidade de ter acesso às religiões de matriz africana, a gente tem acesso à história do povo negro. É visível a qualquer olho, a nossa história é apagada” – essas são as palavras da atriz e produtora cultural Aline Sales. Com 37 anos de idade e formação católica, Aline conta que sua entrada na Umbanda foi essencial para a descoberta da “Aline Negra” e de sua aceitação. Hoje, ela é Filha de Santo em um terreiro em Londrina.  

Dia da Consciência Negra: mas somos conscientes?
iStock
 


A atriz relata que não apenas em palavras e violência se manifesta o preconceito contra a religião que escolheu. Ele também está na mudança de olhares e tom de voz das pessoas que não conhecem a crença. Tendo sido inclusive catequista em seu passado, Aline vê que “o preconceito vem da desinformação. Se a gente parasse para analisar os rituais que são feitos nas religiões, num todo, eles têm grande semelhança. A gente muda o endereço”. 

Essa discriminação é provinda de um racismo estrutural, ou seja, presente nas instituições e cultura da sociedade. A batalha é travada em passos graduais, mas já mostra resultados. Segundo a Folha de São Paulo, 32% dos prefeitos eleitos em primeiro turno este ano são negros autodeclarados, um aumento em três pontos percentuais em comparação com as eleições anteriores. O aumento da presença negra nesses cargos é importante visto que “não é possível ter uma sociedade mais justa quando apenas um grupo populacional dessa sociedade assume o poder. O poder também tem que ser compartilhado”, explica a doutora Maria Nilza. 

Dias dedicados à reflexão, como o 20 de novembro, ou até mesmo décadas inteiras com esse objetivo (a exemplo da Década Internacional dos Afrodescendentes da Unesco, na qual vivemos até 2024) são essenciais para reafirmar que “o povo negro constitui a história do nosso país. Talvez nosso país não existisse sem o povo negro” – nas palavras de Aline Sales.  



Quem é Zumbi dos Palmares? 


Zumbi dos Palmares foi um dos maiores líderes brasileiros de quilombo. Morto em 1695, o comandante esteve a frente de Palmares por 15 anos. Foi batizado Francisco por um padre e, em sua adolescência, fugiu para o quilombo onde se acredita que ele tenha nascido anos antes. Mudou seu nome para Zumbi e, anos depois, assumiu a liderança da comunidade. Localizado na Serra da Barriga (Alagoas), Palmares foi o mais emblemático quilombo colonial da América Latina.

 Zumbi dos Palmares na Bahia
Zumbi dos Palmares na Bahia | iStock
 

Estima-se que o acampamento de resistência chegou a abrigar cerca de 20 mil habitantes, incluindo pessoas pretas, brancas, indígenas, fugitivos e pobres. Após quase um século de luta contra o sistema escravista, Palmares foi destruído por tropas comandadas por bandeirantes europeus, em 1694. Zumbi foi assassinado no ano seguinte em uma emboscada e teve sua cabeça exposta em praça pública. Ele é conhecido por simbolizar bravura e resistência. 


O que é o Movimento Negro Unificado? 


Dia da Consciência Negra: mas somos conscientes?
iStock
 

O Movimento Negro Unificado (MNU) é um grupo ativista brasileiro fundado em 1978 e pautado na luta contra a discriminação no país. Surgiu em meio a ditadura militar em São Paulo e foi historicamente marcado quando, em 7 de julho daquele ano, reuniu milhares de pessoas nas escadarias no Teatro Municipal de São Paulo. O movimento atua no campo político, social e cultural. Hoje acumula diversas conquistas, como a demarcação de terras quilombolas e a criação da Lei 10.639, que torna obrigatório o ensino de História e Cultura Afro-Brasileiras em instituições de ensino básico.  


* supervisão Patrícia Maria Alves (editora)




 

Como você avalia o conteúdo que acabou ler?

Pouco satisfeito
Satisfeito
Muito satisfeito

Últimas notícias

Continue lendo