Desafios na roda
Grupo de pais em Londrina discute paternidade com empatia pelas dores e angústias individuais
PUBLICAÇÃO
sábado, 10 de agosto de 2019
Grupo de pais em Londrina discute paternidade com empatia pelas dores e angústias individuais
Laís Taine - Grupo Folha 

Ter alguém para ouvir suas dores e angústias é bom, mas ter alguém que entende e até passa pelas mesmas situações é melhor ainda. Pensando em compartilhar os questionamentos em torno da paternidade, o psicanalista Valter Prado, 39, criou em 2015 o Paideia: Dialogando Paternidades, grupo londrinense de discussão sobre a importância da função paterna na constituição do indivíduo.
"Em 2011 a minha filha nasceu, eu estudava psicanálise e buscava referências sobre paternidade. Havia muitos grupos de mulheres, mas nenhum de homem. Então, resolvi montar o projeto baseado na escuta ativa para compreender a angústia do outro. Criei uma página no Facebook, em 2015, com posts de provocação, convidando os pais para a discussão", conta Prado, pai da Malu, 8.
A ideia não é apontar o que se deve ou não fazer, mas ter um espaço de compartilhamento com foco nas paternidades individuais inseridas neste contexto do século 21, em que os homens passam a rever a masculinidade e discutem o papel do homem e da mulher na sociedade. "Como fazer isso sem abrir mão do que a gente aprendeu?", questiona.
Luis Henrique Silva, 44, tem três filhos (Ana Beatriz, 23, Alice, 8, e Heitor, 6) e participa do grupo. "Veio de uma necessidade natural de exercer a paternidade ativa e participativa, entender o que é ser pai hoje, e eu acredito que todo mundo tem experiência para trocar. Até porque cada idade tem demandas diferentes", afirma o pai que atua como palhaço. Para ele, trocar experiências lhe trouxe conforto. "Eu não tenho pai e mãe vivos, fica essa lacuna, a experiência vai se construindo no fazer. Só de estar presente nas conversas, isso já me trouxe um alívio", aponta.
Como ele, Matheus Cruz, 36, também entrou no projeto para entender seus processos na educação do filho, Bernardo, 4. "Conheci o Valter na escola do meu filho e achei bacana o projeto. Sempre me batia: 'será que estou fazendo alguma coisa errada?' quando surgia uma birra, mal criação e, querendo ou não, ouvir outros pais ajuda, porque vi que não sou só eu que passo por isso", comenta o comerciante. Nas reuniões, discute-se a educação para a cidadania, falando sobre a importância do respeito com o outro e abordando temas atuais relacionados à paternidade e masculinidade.
Os encontros são esporádicos, divulgados por meio das redes sociais e Prado aponta que o projeto tem base em três pilares: paternidade consciente, entender o que é ser pai ainda que não seja um; paternidade responsável, compreendendo a função e obrigação ainda que não seja casado; e paternidade afetiva, apontando o quanto determinado posicionamento afeta e gera afetos.
O psicanalista explica que o projeto vem para debater ideias preestabelecidas que não se encaixam mais à sociedade atual, em que o pai presente é o que ajuda, quando, na verdade, é uma responsabilidade compartilhada. "As pessoas ainda acham que o pai que faz, que educa, é o paizão. E não é!", critica.
Nesse aspecto, acredita que ter com quem trocar ideias sobre o assunto traz benefícios que vão além da educação do filho. "A paternidade melhora a gente como indivíduo. A criança é nosso espelho o que nos leva a melhorar, de querer ver e respeitar o outro, e nessa relação a gente se torna um indivíduo melhor", afirma Prado.
Transição e transformações sociais
O grupo Paideia: Dialogando Paternidades vem da necessidade de interação, compartilhamento de dúvidas e angústias de pais que passam por momento de transição social. Atualmente, eles se veem na angústia de educar pessoas melhores para um mundo em constante transformação, o que exige reflexão mais abrangente sobre o homem como indivíduo neste contexto atual.
"Houve um tempo em que a figura predominante era a do pai, agora vai se pulverizando e a criança tem destaque na família", observa Luís Henrique Silva, um dos participantes do grupo. "Agora há o respeito à figura do filho, buscamos respeitos na educação e relação com o ser humano para que ele seja um adulto mais consciente. E a paternidade é muito importante nisso, educar é se reeducar, rever conceitos", defende.
O desafio está justamente em equilibrar o que se aprendeu sobre educação até agora com novas formas de exercer a paternidade, colocando em discussão os desafios atuais que surgem a partir desse novo jeito de se relacionar com o mundo. "Meu pai não era muito aberto. Em outros tempos, o argumento era: 'vai fazer isso, porque eu estou mandando!' e isso não cabe mais hoje, não é mais uma postura autoritária. As crianças hoje indagam bastante, formulam pensamento sobre tudo. Achar um equilíbrio disso e andar em sintonia com os pensamentos da mãe é o desafio", afirma.
E abrir mão também de alguns costumes. Matheus Cruz, 36, conta que gosta de tirar dias específicos para só brincar com o filho e que quando convida um pai para fazer o mesmo, nunca há tempo. "Acho que é preciso se privar de algum bem seu de vez em quando, em vez de tomar uma cervejinha, vai com o filho no parque, é tão prazeroso quanto. São fases", aponta. O comerciante conta que parou de beber durante a gestação da esposa para poder acompanhá-la nos desafios e passar a compreendê-la melhor.
Para Valter Prado, 39, criador do grupo, a desconstrução está muito relacionada à mãe dar espaço e também ao empoderamento feminino. "Nós somos de uma geração que não foi educada assim. É uma corrente do feminismo mesmo, o macho do século 20 não podia ser sensível. O homem sempre teve sensibilidade e afetividade, mas por padrão e construção social, não podia demonstrar", afirma o psicanalista. A contrariedade à masculinidade tóxica na educação dos filhos vem, segundo Prado, muito dessa mãe/mulher que permite essa troca de experiências para construir uma educação melhor para os filhos. (L.T.)
SERVIÇO
Para participar dos encontros de pais, basta seguir a página Paideia: Dialogando Paternidades, no Facebook. O próximo encontro está agendado para o dia 24 de agosto.


