Entre outros significados, a palavra legado tem como definição "o que é transmitido às gerações que se seguem". Um bem, um conhecimento, uma lição de vida, vários são os legados que podem ser recebidos por aqueles que ficam. Às vezes coisas simples, atos banais do dia a dia podem ganhar um significado mais do que especial.

Carlos e Rosani Kühnlein herdaram do pai o gosto de trabalhar com as plantas e seguem de perto todos os passos desse aprendizado
Carlos e Rosani Kühnlein herdaram do pai o gosto de trabalhar com as plantas e seguem de perto todos os passos desse aprendizado | Foto: Ricardo Chicarelli



Londrina perdeu em fevereiro deste ano o paisagista alemão Erich Franz Kühnlein, que partiu talvez sem imaginar que deixou muitas outras sementes além daquelas produzidas pelas inúmeras plantas que cultivou. Foi acompanhando mudas de ipês, tipuanas, sibipirunas e quaresmeiras entre outras espécies destinadas a refazer parte da arborização de Londrina que ele chegou ao município em 1953. Aqui conheceu sua esposa Lindinalva, com quem teve cinco filhos.

Dois deles seguiram seus passos de perto e herdaram o gosto de trabalhar com as plantas. Bióloga e paisagista, Rosani Cavalcanti Kühnlein conta que foi na companhia do pai que ela fez suas primeiras incursões na natureza, fosse para um piquenique ou para conhecer espécies na Serra do Mar.

"Ele nos levava para a natureza desde que éramos pequenos, sempre foi um ecologista. Ele cuidava muito bem dos animais, teve até um mini zoológico logo que se casou e isso influenciou muito na nossa vida. Eu queria fazer biologia, mas para trabalhar com bichos. Meu pai sempre foi muito liberal, nos deixou fazer o que quiséssemos e fui mexer com zoologia. Quando terminei a faculdade fui para a Alemanha fazer minha especialização e chegando lá, o forte era botânica. Eu não ia perder a oportunidade, comecei a fazer estudos com plantas dos Alpes, do Mediterrâneo. Vi que era mais fácil trabalhar com plantas do que com animais. Fui me apaixonando cada vez mais e depois que voltei fui direto para as plantas", conta, acrescentando que foi com o apoio do pai que acabou se tornando paisagista.

Já o arquiteto paisagista Carlos Kühnlein ficou em dúvida sobre agronomia e arquitetura e foi em uma conversa com o pai que se decidiu pela segunda opção. Se a faculdade lhe deu noção espacial de como dispor os exemplares, foi com o pai que ele aprendeu sobre as plantas.

"Desde criança, ainda mais sendo menino, qualquer espaço livre eu colava nele, íamos para a chácara. E ele sempre com essa coisa de buscar planta nova. E nisso, como eu acompanhava tudo, com 10 anos de idade já (estava) em cima de trator, cortava grama. A gente aprendia a lidar com as máquinas e com as mudas. Estava brincando e ouvia-o falar com um funcionário, ia gravando. As técnicas que ele nos ensinou vieram desde cedo. Eu não me lembro muito de ter perguntado - depois de adulto sim -, mas muito do que aprendi, a reconhecer um bicho ou praga na planta, foi na prática de estar junto. Ele não era de ficar falando sobre aquele assunto, a não ser que você perguntasse, ai ele contava a história toda", recorda-se
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Carlos lembra ainda que durante a faculdade usava o tempo livre entre as aulas do curso integral para ajudar o pai nos seus afazeres, mesmo que fosse em um sábado cedo, depois de uma noite de festa. "Se estava combinado, estava combinado, não tinha como reclamar. Meio por gosto e meio na marra fui aprendendo a lidar com as plantas. Na universidade aprendi sobre a parte de estética, mas o espaçamento de plantio, como a planta se desenvolve, daqui a 30 anos como ela vai estar, foram com os ensinamentos dele. Hoje, tenho muito do trabalho dele impregnado no meu", atesta.

Rosani afirma que, embora mais experiente, o pai não influenciava no gosto dos filhos, opinando se algo não estava bonito. "Ele dizia que era como uma tela, cada um tinha um gosto. Só não perdoava plantar de forma errada, uma planta de sol na sombra, por exemplo. Por ter feito biologia eu já tinha a estrutura para isso, eu conhecia as plantas, mas com ele conheci muito mais, adaptei o que tinha estudado dos pássaros e virei o que sou hoje."

LEMBRANÇAS
Entre alguns momentos marcantes com o pai, ela se recorda das excursões familiares para conhecer novas flores e também dele aproveitar a época das floradas para marcar as árvores e a cor das flores. Passada a floração, era o momento de coletar as sementes. Ela se emociona ao recordar de uma das vezes em que foi com os pais e seu filho, na época com apenas três anos, recolher sementes de uma grande paineira vermelha no Shopping Catuaí. "Lembro do meu bebê correndo catando sementes, meu pai, minha mãe. Todo mundo achava que a gente era louco e hoje essas plantas estão enormes na chácara, estão lindas. Inclusive tem uma que eu plantei na avenida Faria Lima, na rotatória, e todo ano ela dá aquela florada maravilhosa e foi da semente que a gente catou daquela vez", conta.

Os irmãos destacam o gosto do pai pela mecânica, que também passou para os filhos, tanto que um deles acabou se tornando mecânico de máquinas offset. "Acredito que o sonho dele era ser um mecânico, mas pelas circunstâncias, ele foi estudar o que tinha. Motor ele conhecia, ninguém colocava a mão se ele não conhecesse o cara. E homem pega mais isso de máquina. Meu primeiro interesse foi nas máquinas, no cortador de grama", diz Carlos.

"Por ele gostar de ferramentas resolvia tudo: parte de irrigação, elétrica. Quando ficou doente (Kühnlein teve Alzheimer) nós notamos que não estava bem depois que desmontou uma torneira e não conseguiu montá-la de novo. Ai percebemos que tinha algo errado. Até então ele ficava aqui, montava tudo, não deixava ninguém por a mão nas ferramentas. Sempre foi muito resolvido, nós o chamávamos de mestre, dizíamos 'o mestre chegou'. Espero ter herdado isso um pouco, pelo menos tento resolver tudo", afirma Rosani.

Além do legado profissional, ficou para a família a lembrança de um pai parceiro e amigo, amante das festas e da dança. "Ele sempre gostou de comer bem, isso foi marcante nele. Falava em churrasco e ele estava pronto e os cinco filhos também, fala em churrasco e estamos prontos. Esse lado festeiro era dele, embora minha mãe seja descente de italianos, também gosta de festa", lembra a filha.

"Herdei dele essa coisa de persistência, de falar e cumprir, às vezes aguentar uma conversar errada, mas resolver pacificamente. No primeiro momento a gente estoura, mas em segundo momento você vai lá e se desculpa", conta Carlos emocionado.

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