De onde vêm tantas ideias?
PUBLICAÇÃO
sexta-feira, 12 de outubro de 2018
Walquiria Vieira<br>Reportagem Local 
Na arquitetura e na decoração, a criatividade salta aos olhos e nos conduz a refletir como artigos inusitados podem cumprir tantas funções - e ainda tornar o ambiente bonito e funcional. O Folha Mais visitou o Yellow Delli, também conhecido como Chão Comum, que na prática é mais que um ponto comercial. Localizado na Estrada do Limoeiro, em Londrina, é parada de ciclistas e de pessoas que buscam um lugar tranquilo para um chá, um lanche, uma refeição completa e também para desfrutar da estrutura integrada à natureza. Quem nos apresenta a casa e sua proposta é Neriyah, membro da Comunidade Doze Tribos.

Os móveis de peroba, a iluminação, a decoração com rodas de carroça, cestos de maçã e dormentes de trilhos de trem chamam a atenção no espaço localizado na Estrada dos Limoeiros, onde até o lavabo é pensado com bastante criatividade
Construído sobre um terreirão de café, o restaurante é um convite a deixar que as horas passem. As mesas de madeira, a iluminação e o formato dos bancos, bem espaçosos, seguram o convidado, que explora mais que o cardápio. Cestos de maçãs fazem as vezes de pendente e iluminam, sem cansar, quem está à mesa. As peneiras de café decoram paredes, o miolo do cubo da roda da carroça se transforma em arandela e clareia o corredor de acesso aos lavabos, carregados de criatividade.
Neriyah explica que o aproveitamento é uma prática entre os membros da comunidade e todos contribuem para o resultado. "A madeira é a peroba, que também faz parte da história de nossa região. E trazer isso para nosso mobiliário é valorizar nossa cultura e passado", diz. Sem alterar as características originais, perobas (frutos de casas de fazendas desmontadas), correntes de arado e dormentes de linha férrea são como aula de história nas paredes do local.

Segundo Neriyah, a falta de recursos foi ponto de partida para usar o que seria descartado. "O primeiro restaurante nasceu na década de 1970, quando jovens se juntaram e uma pessoa abriu, na casa dela, um lugar para receber. Todos queriam trabalhar juntos, unidos e em um local aconchegante. Sem recursos, até mesmo os pregos daqui são de reaproveitamento e talvez isso nos torne criativos", explica. "Esses tijolos, por exemplo, são de uma olaria. Eles estavam encerrando as atividades, nos ofereceram e fomos até lá e os ajudamos na desmontagem. Foi bom para os dois lados", acrescenta.
LEIA MAIS
- Ode ao pé de manga
- A faceta inovadora do brasileiro
Hoje, o Yellow Delli está em vários lugares no mundo e serve não só para seus membros, mas a todos os que chegam e querem se sentar. "É o mesmo cardápio na Alemanha, França, Japão, República Theca. Eu morei na comunidade de Nova York e o restaurante tem a mesma cara", afirma. Nos 365 metros quadrados da unidade de Londrina, os convidados se surpreendem, fazem perguntas e se encantam. "Procuramos fugir do que é artificial e a madeira, além de aconchegante, é resistente", valoriza.
Os vidros trazem luminosidade natural e permitem enxergar a natureza. "Trazemos esse sentimento ao frequentador, que fica impressionado porque não alteramos as características originais e alguns pedem até que vamos à casa deles para ajudar em uma reforma pessoal. Nos indagam de onde tiramos tantas ideias. É simples: basta olhar para a natureza", sugere.
Entre detalhes que não passam despercebidos, o forro feito de juta de saco de café. "Era juta que estava jogada em uma caçamba e isso não poderia virar lixo", reflete. Uma estante com produtos ganhou ripas de galhos de café, com torno que se divide entre o belo, o histórico e o funcional. E o que dizer dos pilões de madeira, tão socados no passado, e que resistem ao tempo e se impõem, ao alegrar o espaço com a vida que vem das plantas?
Um lugar para conservar, de certo, e que atrai pessoas de Londrina e região. "Chegam a nós informações de que as pessoas gostam do nosso atendimento, contam para outras pessoas e assim surgem nossos frequentadores", diz Neriyah.



