Dando a volta por cima
PUBLICAÇÃO
sábado, 30 de dezembro de 2017
Érika Gonçalves<br>Reportagem Local 

Qual seria sua reação se, estando em uma UTI, fosse avisado pelo médico de que seria necessário passar por uma cirurgia na qual sua chance de sobrevivência seria de apenas 2%? E se ele ainda dissesse para você se despedir de parentes e amigos?
Esse foi um dos momentos mais difíceis vividos pelo jornalista Antônio Mariano Junior. Em fevereiro de 2013 ele começou a sentir uma dor na panturrilha da perna esquerda. Achando que era apenas algo muscular, tentou resolver o problema com analgésicos, mas a dor não cedia. Depois da orientação de um amigo, buscou um médico vascular, que o encaminhou direto ao hospital, com diagnóstico de trombose. Foram 62 dias internados e quatro cirurgias, sendo que na última delas teve parte da perna amputada.
"A vida de deficiente físico não me assustou. Eu sentia tanta dor que a amputação foi um alívio. Nesse período tanto eu quanto meu companheiro estávamos desempregados e foi um grupo de amigos que nos manteve, tanto espiritual, quanto materialmente", conta.
Enquanto fazia fisioterapia e se preparava para a colocação de uma prótese, Junior passou por outra situação muito difícil. Com trombose venosa profunda na perna direita, foi internado novamente. "Fui para a UTI de queimados do Hospital Universitário. A situação era tão grave que um médico me disse que se eu sobrevivesse às próximas 12 horas, eles iriam tentar um outro tratamento. Eu tive muito medo de morrer. Mas eu sobrevivi a essas 12 horas, mesmo tendo uma parada cardiorrespiratória e uma hemorragia."
Devido a um problema respiratório, ele precisou ser transferido para o setor de isolamento da UTI da Santa Casa. Foi quando, na tentativa de retirar os trombos que se espalhavam por seu corpo, os médicos decidiram tentar uma cirurgia muito arriscada. "Mandaram me despedir da minha família, foi o momento mais louco. O que se diz numa hora dessas? Me despedi e fiquei lá, sozinho, com aquele monte de aparelhos, aguardando a cirurgia", conta.
Os médicos estudavam a melhor maneira de realizar o procedimento e Mariano decidiu não se submeter mais à cirurgia. Mariano foi melhorando, até ter alta. Ele diz que ao saber de toda a ajuda e oração que havia recebido, se sentiu mais forte e motivado a trabalhar.
"Recebi uma proposta de emprego, me preparei para colocar a prótese e comecei. Se eu pedi para viver, tinha que trabalhar. Não tive tempo de ser coitadinho nem o fofo do ano. Embora eu tenha contado minha história muitas vezes, é porque acredito que possa ajudar as pessoas. Ninguém se preocupa em procurar um médico vascular, as pessoas não falam sobre trombose e isso mata. Eu tive tudo para entregar o passo, perdi muitas pessoas nesse período, inclusive meu pai. Mas quando a gente decide viver, tudo muda."
O importante exercício da resiliência
É inevitável que em algum momento de nossas vidas passemos por alguma dificuldade. Problemas de saúde, financeiros, amorosos, familiares, a lista é imensa. É fato também que cada um de nós irá lidar com isso de forma diferente. Independentemente da gravidade do fato, há pessoas que conseguem enxergar com clareza a solução rapidamente, enquanto outros ficam se debatendo durante muito tempo, sem achar uma forma de resolver aquilo. À capacidade de nos adaptar às mudanças ou problemas damos o nome de resiliência.
Segundo a psicóloga clínica Josani Campos da Silva, "cada um vai escolher a maneira pela qual vai passar por aquilo. A pessoa consegue se recuperar psicologicamente, usando suas potencialidades. Essas características podem ser pessoais ou o indivíduo pode usar os recursos que existem no meio", explica.
Entre as atitudes que as pessoas podem adotar para desenvolver a resiliência está ter boas relações sociais. "Sentir-se importante naquela engrenagem nos incentiva a querer superar determinada situação", diz Silva.
Cuidar de si e estar com quem se gosta, é outra dessas atitudes. "As pessoas também precisam estar cientes de que a maioria dos estresses são temporários, vão passar. Se ela não pode modificar aquela situação, deve pensar como agir e estabelecer pequenas metas, que sejam alcançáveis. É importante também delimitar o problema, ou seja, se uma área está ruim não significa que a vida toda esteja, ela precisa valorizar as competência que tem."
Atividade físicas e não guardar rancor, se expressar com amigos ou até com a pessoa com quem se está magoado são outras formas, de acordo com a especialista. Ela destaca que quem tem dentro de si todas essas questões, já tem a resiliência. "Quando a situação se apresentar, a pessoa já saberá como agir. Caso contrário a tendência é agir por impulso. Se a pessoa não consegue lidar sozinha com o problema, deve procurar orientação profissional", destaca.


