Marcos Romanha criou a própria marca há 14 anos e hoje tem cinco lojas: "Ficamos seis meses produzindo material para estocar na garagem de casa e juntando dinheiro"
Marcos Romanha criou a própria marca há 14 anos e hoje tem cinco lojas: "Ficamos seis meses produzindo material para estocar na garagem de casa e juntando dinheiro" | Foto: Gustavo Carneiro



É possível fazer diferente aquilo que já foi passado de geração para geração? O artesanato tradicional possui o seu mercado, mas empreendedores perceberam que inovar - ainda que com técnicas antigas - pode ser um caminho para atingir um nicho no mercado. Cores ousadas, materiais diferentes, design arrojado chegam ao resultado de um produto exclusivo sem perder a característica artesanal.

Com essa proposta, o casal Marcos Romanha, 40, e Mônica Papke, 41, fundou a marca Doutro Mundo, em Londrina. Os dois se conheceram na faculdade de Desenho Industrial, onde começaram a produzir suas peças. "Fazíamos coisas para a nossa casa, depois amigos e parentes pediram. Começamos a vender como sacoleiros mesmo, os primeiros produtos eram cabideiros, porta-retratos, caixas decorativas, móbiles e peças decorativas", recorda Romanha.

Com o tempo, os dois prepararam a produção para abrir a primeira loja. "Muita gente diz que não abre loja porque não tem dinheiro, mas a gente também não tinha. Ficamos seis meses produzindo material para estocar na garagem de casa e juntando dinheiro. Escolhemos um ponto para alugar, fizemos todos os móveis da loja e, quando abrimos, tínhamos R$ 2,5 mil de reserva", conta. A primeira loja foi aberta há 14 anos e hoje são cinco unidades na cidade.

Romanha ficou os seis primeiros anos entre o antigo emprego e o novo empreendimento para ter segurança. Como a produção artesanal depende muito do tempo, produzir e vender foi uma dificuldade. "Passou a ser interessante ter mais variedades, começamos a trazer coisas de fora. Ficamos com um mix de peças exclusivas e peças diferentes", afirma.

Atualmente, a loja tem apenas 5% de peças artesanais, o que o proprietário quer mudar. "Muitos produtos artesanais não são competitivos e poucas pessoas estão dispostas a pagar, mas estamos querendo voltar a produzir, porque isso fortalece a marca. Para isso, precisamos nos estruturar, ter visão de escala e direcionar para o mais viável", explica.

De uma forma ou de outra, o artesanato ainda continua presente. "Se a gente pode ajudar o bairro, por que não?", brinca. São quatro marcas de cervejas artesanais da região, uma marca de café de Londrina, artista plástico que produz peças com desenho à mão, produtos com tema da cidade e peças manuais em geral. Para isso, foi preciso uma seleção. "A gente gosta de ter esses produtos, tenta encaixar no mix se o produto for diferente e bom", afirma.

INOVAÇÃO
Romanha acredita muito no potencial do design para atingir novos clientes para o artesanato. "Muitas pessoas aprenderam a fazer e reproduziram essas peças, mas está cansando. A geração está mudando, as expectativas também. Se não trouxer algo diferente, inovador, não adianta, é preciso criar novas peças", afirma.

A tecnologia é uma ótima ferramenta de inspiração, e mudar formato, utilizar cores novas e materiais diferentes, ainda que com técnicas antigas, são formas utilizadas por Romanha para produzir peças criativas. Como o design é a força do negócio, o casal continua criando, mas terceiriza a produção.

CONSELHOS
Depois de anos de experiência, o empresário recebe com frequência propostas de outros artesãos, mas afirma que muitos ainda têm acabamento médio. "O nosso também era assim, nós fomos aprimorando, isso muda muito o valor final", explica.

Outro problema é conseguir chegar num acordo de valor final e peças muito tradicionais. "O preço de revenda é muito difícil, percebo que isso é um problema para entrar no mercado, porque fica inviável. Outra questão, principalmente na nossa região, é que temos muitas peças com pouco design, pouca evolução, muita gente fazendo ainda as mesmas peças", explica. Embora o tradicional tenha o seu nicho, é preciso saber se a proposta bate com a identidade da marca.

O artesanato tem uma questão ainda mais profunda. "Muitos não dão valor, mas está melhorando. Alguns já entendem que quando estão comprando acabam ajudando alguma comunidade específica", diz, com olhar de quem viveu essa dificuldade, mas também aconselha quem deseja investir. "Tem que mergulhar de cabeça, a gente só deu certo quando entrou de vez e produziu bastante para poder ver o que dava certo e errado, assim inovar e sair do 'mais do mesmo'", finaliza.

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