Costurando a sexta estrela no peito
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sexta-feira, 22 de junho de 2018
Lais Taine<br>Reportagem Local 

Londrina, 18 de julho de 1994
"É o meu querido Senna, ele me deu sorte. Ele é vencedor!", disse Mara Neide Tucumantel, aos 35 anos, à FOLHA, em comemoração pela vitória do Brasil na conquista do Tetracampeonato.
Londrina, 4 de junho de 2002
"Torcedor madruga, sofre e comemora", chamava o título da matéria da FOLHA para a estreia do Brasil na Copa de 2002. Tucumantel deu entrevista falando sobre as adaptações aos horários de funcionamento do seu bar, no centro da cidade.
Junho de 2018
"Estou confiante, acho que nós temos tudo, temos um grande treinador, grandes jogadores, acredito que dessa vez nós vamos conseguir levar essa estrela", aposta a proprietária do Bar Brasil, aos 59 anos. Tucumantel tem uma história de torcedora e memória da relação de Londrina com o futebol muito fortes.
A primeira vez que viu um jogo pela TV tinha 12 anos e foi na Copa de 1970. "Ficou uma coisa muito forte, porque eu não só ouvi, eu vi o jogo", recorda. Essa paixão pela imagem e futebol se expandiu para o bar, adquirido há 30 anos pela família. "O bar está com 76 anos, já um vovô. Ele já tinha o nome de Brasil antes e quando nós compramos, em 1988, ficou Bar Brasil", afirma.
Desde o início, o local investiu em transmissão de esporte, como lutas de box, corridas de fórmula 1 e futebol, atraindo os olhares de quem queria ter a mesma sensação que ela teve aos 12. Mesmo com a popularização dos televisores, o bar continuou com a proposta, aumentando o número de Tvs e telões, decorando o local com motivos esportivos, oferecendo promoções de acordo com o horário dos jogos.
Por isso é que Tucumantel guarda memória de como os londrinenses reagem a uma Copa do Mundo. No Tetracampeonato, aquele registrado pelo jornal, ela conta que "foi uma das coisas mais emocionantes". Ela guardava uma garrafa de champanhe enrolada na bandeira desde a morte de Ayrton Senna, quase três meses antes. Com a conquista, abriu a garrafa e molhou quem estivesse por perto. Também pegou um apito, foi para a rua sinalizar para os carros, enquanto muitos clientes do bar se deslocavam para a avenida Higienópolis, ponto de reunião dos londrinenses.
No Penta, em 2002, recorda que estava entre a cozinha e o atendimento, mas menciona que os clientes gritavam. "Quando sai gol é uma festa, quebram garrafa, copo, arrancam as bandeiras e os panos pendurados. No fim da Copa nem tem mais decoração", ri do êxtase de uma vitória brasileira. "É maravilhoso um jogo do Brasil, porque todos torcem para uma bandeira só."
Mas nem toda Copa é animada assim. A torcedora apaixonada lembra que chorou de emoção algumas vezes, mas também cita a última participação do Brasil. "Me deixou muito triste, me magoou muito, os jogadores pareciam que não tinham uma pátria, um país, que tinham se naturalizado na Europa e que ninguém era brasileiro", critica.
Isso porque a dona do bar estava tão confiante que pediu para fazer as camisetas do estabelecimento já com as seis estrelas, garantindo o hexa. Ao levar os 7 gols da Alemanha, o clima do bar foi para baixo. "Podia-se falar que foi depois de um enterro. Algumas pessoas beberam muito. Começaram com cerveja e terminaram com pinga. Alguns jogaram a cadeira, saíram xingando, foi muito triste esse jogo."
Este ano a comerciante está mais prudente, mas com um desejo, quase uma necessidade, de vitória brasileira. "Nós estamos passando por uma fase difícil no País. Política ruim, inflação alta, greve, desemprego, corrupção, até o resultado da última Copa... Tudo que tinha que dar errado, deu", argumenta.
Para quem grita, chora, abraça desconhecidos e grita na rua, o clima ameno é um pouco frustrante. O bar está enfeitado, como uma casa de quem aguarda a chegada de uma visita que não responde às cartas enviadas. Mas dizem que brasileiro não desiste nunca e Tucumantel ilustra bem essa premissa. "Espero que de agora em diante as coisas comecem a dar certo. Se começar com o hexa, já vai ser bom", torce mais uma vez.


