A cada virada de ano, as pessoas se percebem em um ritual coletivo de esperança fazendo listas de metas, promessas de transformação e com uma crença quase mágica de que quando o relógio bater meia noite, a pessoa terá a sua vida completamente transformada. No entanto, essa carga emocional depositada no dia 1º de janeiro pode ser mais prejudicial do que motivadora, segundo a psicóloga Beatriz Campos.

Durante uma entrevista a psicóloga alerta sobre o fenômeno psicológico por trás dessas expectativas de ano novo e oferece um guia realista para quem deseja, de fato, iniciar um ciclo de mudanças positivas.

A "INJUSTIÇA" COM O MÊS DE JANEIRO

De acordo com Campos, há uma grande injustiça presente no imaginário coletivo com o mês de Janeiro. "Acho meio injusto atribuir tanta função para o começo do ano", reflete. "Por que depositar todas as minhas expectativas e torcer para que ele solucione todos os meus problemas, sendo que fico aqui como apenas uma telespectadora?", questiona Campos.

A psicóloga explica que o problema está na transferência de responsabilidade. "O início do ano é carregado por muita expectativa. O difícil é colocar tanta responsabilidade no dia 1º de janeiro, como se ele fosse solucionar tudo. A data vem com uma carga muito pesada, é uma virada de ciclo importante, mas temos que fazer nossa parte."

REDES SOCIAIS: O CENÁRIO PERFEITO PARA FRUSTRAÇÃO

Segundo Campos, o primeiro passo que se deve dar para evitar decepções é não se comparar com tudo o que se vê nas redes sociais. "Na era da rede social, tudo é muito lindo, tudo é maravilhoso. Todo mundo tem aquela vida perfeita, aquelas fotos e vídeos perfeitos", observa.

"Quando se tenta colocar toda essa vida perfeita na vida real e não funciona, muita gente se frustra. Para evitar isso, é preciso colocar objetivos dentro da sua realidade. Se você quer perder 5 quilos, pergunte-se: o que estou fazendo para alcançar esse objetivo? Quais estão sendo minhas escolhas?", explica Campos

METAS OU COBRANÇAS ?

A psicóloga ainda faz um alerta importante e que muitas vezes é ignorado, que é de nem tudo que carregamos para o ano novo são desejos saudáveis. Muitas vezes, são expectativas frustradas de anos anteriores que se transformam em cobranças internas.

"É preciso fazer uma autoanálise para saber se o que estou carregando para o próximo ano são expectativas frustradas, algo que quero fazer diferente", aconselha. "Seu ano pode começar completamente diferente porque não temos que necessariamente carregar metas de anos anteriores se elas não fazem mais sentido para você e mesmo assim querer solucioná-las de uma vez."

O MITO DA TRANSFORMAÇÃO À MEIA-NOITE

Campos reforça que ao desconstruir uma das maiores ilusões da virada do ano. "Normalmente as pessoas pensam: 'Já virou meia-noite, sou uma outra pessoa, vou começar esse novo ano de tal maneira'. Temos que entender que às vezes encerramos o ano cansados, exaustos, e não obrigatoriamente temos que virar outra pessoa quando der meia-noite."

A flexibilidade, segundo ela, é crucial. "No decorrer do ano, vamos tendo muitas mudanças. Uma meta inicial pode não ser a mesma do meio ou do fim do ano. Temos que ter essa flexibilidade porque nós somos mutáveis. As metas precisam ter ligação com suas ambições do momento."

MICRO-HÁBITOS: PEQUENAS CONQUISTAS COMO TROFÉUS

A estratégia mais eficaz, de acordo com a psicóloga, é abandonar a mentalidade da mudança radical. "Quando queremos mudar drasticamente, se uma coisinha no meio do processo não der certo, é mais fácil desistir do restante. Enquanto isso, com micro-hábitos, você vai enchendo seu 'potinho' com conquistas aos poucos."

"É melhor ir aos poucos do que já ir de uma vez, pois assim você valida essas pequenas conquistas. Quando é tudo muito grande e muito rápido, não conseguimos ter uma boa visão do que foi feito e há pouca valorização comparada às pequenas mudanças."

Imagem ilustrativa da imagem Como transformar as suas resoluções de Ano Novo em mudanças reais
| Foto: ljubaphoto/getty images

CHECK-UP EMOCIONAL: O PRIMEIRO PASSO REAL

Antes de fazer qualquer lista de metas, Campos recomenda que o indivíduo faça um processo de autoavaliação. "É preciso fazer perguntas emocionais: como encerrei meu ano? Como desejo começar? O que aconteceu no ano que passou e não quero carregar? Esse processo é fundamental para de fato você se renovar."

Esta lista deverá ser escrita de forma manual, não digital, é uma ferramenta poderosa que ela recomenda. "Escrever o que está acontecendo, com papel e caneta, ajuda a tomar consciência do que se está desejando, qual sentido isso tem, o que posso melhorar. Ajuda na organização mental, pois durante a virada do ano estamos meio 'malucos'."

ROTINA E AUTOCUIDADO: FLEXIBILIDADE ACIMA DE RIGIDEZ

Sobre o processo de implementação prática das mudanças, a psicóloga defende uma abordagem sensata. "Primeiro é preciso pensar como essas metas vão entrar na nossa rotina de forma saudável. Não adianta que sua rotina e suas ambições sejam opostas. Seus desejos têm que estar alinhados com suas escolhas."

Ela redefine o conceito de rotina, "rotina não se trata necessariamente de rigidez, é uma organização, busque entender seus hábitos diários sem ter uma ideia de rotina fixa, pois as coisas do dia a dia podem entrar em desacordo", orienta Campos.

O VERDADEIRO SEGREDO DA TRANSFORMAÇÃO

Campos finaliza com uma reflexão sobre o que realmente se trata da transformação pessoal. "O ano só começará diferente se você se propor a ser diferente. Se não, continuará carregando as mesmas coisas, as mesmas escolhas, os mesmos lugares."

"Propor-se ao novo também é uma maneira de se reconhecer como novo. Senão você fica naquela síndrome de Gabriela: 'eu nasci assim, cresci assim, vou ser sempre assim'. A gente muda nem que seja um pouco sempre tem uma novidade na nossa frente, desde que estejamos abertos a isso."

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