Como dinamite: a explosão do K-pop
Grupo BTS quebra recorde de Gangnam Style de música coreana mais tocada no mundo – mas o que é o fenômeno K-pop?
PUBLICAÇÃO
sábado, 09 de janeiro de 2021
Grupo BTS quebra recorde de Gangnam Style de música coreana mais tocada no mundo – mas o que é o fenômeno K-pop?
LARA BRIDI COSTA 
Os sete garotos do Bangtan Sonyeondan, ou BTS, fazem história ao ter três álbuns no topo da Billboards em menos de uno (feito anteriormente apenas pelos Beatles) e se tornarem os artistas sul-coreanos por mais tempo no Top10 músicas mais tocadas da mesma tabela. Seu hit Dynamite emplacou na lista por 13 semanas, quebrando o recorde até então sustentado por PSY. Ele é o nome por trás da canção de 2012 Gangnam Style (aquela da dança do cavalinho, lembra?), cujo vídeo foi o mais visto do Youtube à época. Apesar da vertiginosa ascensão de popularidade pelo mundo, ainda não é de conhecimento geral o que, afinal, é o K-pop. Seria um gênero musical? Uma indústria? Um estilo de vida? A resposta é tudo isso e mais.
Definir o K-pop é muito mais difícil do que dizer que é a música pop coreana. O gênero não se limita ao estilo do pop. Ele engloba uma variedade de ritmos ocidentais como o hip-hop, o rap e o techno, além de influências orientais, para criar um gênero único e ao mesmo tempo tão diverso. Mais do que música, o K-pop também é marcado por suas coreografias, performances e figurinos inovadores, que brilham aos olhos do público e se populariza a cada dia. Mellyne Saboya é designer e estudante de jornalismo e acompanha o cenário do K-pop desde a adolescência. Ela explica que existem “muitos grupos e muitas empresas tentando fazer sucesso na Coreia, porque eles perceberam que isso é uma coisa que a juventude no mundo está gostando e consumindo bastante, então cada grupo tem que ser original.”
Esse movimento começou nos anos 90, sob influência de boybands estadunidenses, como The Backstreet Boys. Quem estreou o gênero foi o grupo Seo Taiji and Boys, em 1992, em um reality show. A apresentação dos garotos recebeu a pior avaliação do júri, porém, conquistou os corações da nação, tornando-se os mais tocados das paradas do país. Foi anunciado pela MTV Iggy que, após Seo Taiji, a música K-pop jamais seria a mesma – e ela estava certa. Tamanho foi o sucesso da banda que, em 2015, a revista Rolling Stone anunciou sua canção I Know como uma das maiores músicas de boybands da história. E não é por pouco: foram eles os responsáveis por dar início a um dos mais influentes cenários musicais do planeta. Hoje, a produção já evoluiu muito. Novos artistas são lançados anualmente, incorporando estilos musicais e enriquecendo a cultura popular. O BTS se mostrou como o grupo de maior renome, mas outros como a banda feminina Blackpink também se destacam. As quatro vocalistas são personalidades de grande relevância internacional nos últimos meses, tendo realizado colaborações com as estrelas estadunidenses Dua Lipa e Selena Gomez.
NA REDE
Muito do que se propaga pelo mundo é feito por meio da internet, em videoclipes chamativos e comunidades em redes sociais. A web é um elemento chave para a divulgação e interação dos Kpoppers globalmente, uma vez que a produção é muito mais complexa do que anos atrás e visa atingir também o mercado internacional. Isso faz parte de um plano para expandir a cultura coreana pelo mundo, o qual deu origem a “Onda Hallyu” - ou o crescente interesse por produtos de entretenimento provenientes da Coreia do Sul. Um grande exemplo é o filme de 2019 “Parasita”, primeiro longa em língua que não o inglês a levar o Oscar de Melhor filme. Mellyne entende que, no passado, havia muito preconceito com produtos que vinham de fora do circuito estadunidense, em especial da Ásia. Mas a nova juventude, “a geração atual das pessoas que estão entre 12 a 16 anos têm a mente mais aberta”. Assim, o consumo explodiu nos últimos anos, mas não somente de músicas e filmes: a procura por aulas do idioma coreano também estiveram em alta, e novas oportunidades surgiram no mercado, como o de dança inspirada no K-pop.
Uma fábrica de sucessos
Nada desse sucesso é por acaso. A indústria cultural coreana é altamente metódica. A combinação de artistas belos, joviais, carismáticos e talentosos – enfim, “perfeitos” - é resultado de um intenso investimento empresarial. Diferentemente do que se observa no ocidente, os ídolos coreanos não são descobertos aleatoriamente. Pelo contrário, são escolhidos entre milhares ainda na adolescência por meio de concursos, testes seletivos e reality shows para serem aperfeiçoados como artistas. A partir daí, participam de treinamentos que vão desde canto e dança a idiomas e postura frente às câmeras. Eles ainda podem ser submetidos a procedimentos estéticos tais quais cirurgias plásticas para melhor se adequarem a um padrão de beleza. Dentre as regras para estar nesse meio, os jovens precisam seguir um comportamento exemplar, têm acesso aos celulares limitado e podem ter suas vidas sociais interferidas, como em casos em que são proibidos de namorar.
Essa maneira de lapidar um ídolo tem sido alvo de duras críticas por violar os direitos humanos. Essa foi a acusação de Kris, ex-participante da banda EXO. Em 2014, ele abriu um processo judicial contra a agência S.M. Entertainment e deixou para trás o grupo. Em ocasiões mais extremas, a pressão exercida pelos produtores sobre os artistas acarreta em distúrbios psicológicos, como depressão e ansiedade, e já chegou a levar ao menos três ídolos ao suicídio.
Por isso, o governo coreano vem pensando leis que protejam os artistas, de forma a limitar as ações de agências sobre eles, preservando sua saúde. A relação entre governo e comunidade cultural coreana é muito forte, pois o estado entende que o fortalecimento e propagação da cultura traz prestígio à nação e é benéfica à economia. No ano passado, por exemplo, foi aprovada pelo parlamento a proposta apelidado de “Lei BTS”. A nova lei diz respeito ao serviço militar obrigatório, antes previsto para todos os homens aptos coreanos entre os 18 e 28 anos. O período se estendeu para os 30 anos para músicos que se destaquem no cenário internacional, como é o caso dos integrantes do BTS.
Mellyne aceita iniciativas como essa esperançosa. Mesmo que não seja uma grande fã do BTS, “saber que eles estão fazendo sucesso, saber que o sucesso deles vai ajudar outros grupos a expandirem globalmente, para mim, é uma coisa muito boa”, comenta ela. Em sua visão, “a cultura ocidental tem um pouco de prepotência quando ela se impõe no meio popular, ou seja, se a música faz sucesso, normalmente é dos Estados Unidos, em inglês”. Sua expectativa é que a chegada da Onda Hallyu em tsunami dê a sacudida necessária na indústria cultural vigente, abrindo portas para que o mundo abrace formas diferentes de fazer arte.
Quer conhecer mais do K-pop? Então confira a playlist no Spotify da Folha de Londrina que reúne alguns dos maiores sucessos coreanos! Annyeong·hi gyeseyo!


