Os desentendimentos entre os dois chefes de Estado começaram no dia 22 de agosto, quando Macron publicou em seu perfil no Twitter um texto convocando os países do G7 a discutirem as queimadas na Amazônia no encontro que ocorreria naquele fim de semana. Em seguida, pela mesma rede social, Bolsonaro acusou Macron de usar de tom sensacionalista para se referir à Amazônia e que o objetivo do francês ao se posicionar em defesa da floresta era obter ganhos políticos pessoais. Um dos filhos de Bolsonaro, Eduardo, cotado para assumir a embaixada do Brasil nos Estados Unidos, e o ministro da Educação, Abraham Weintraub, também entraram na briga e usaram seus perfis no Twitter para engrossar as ofensas ao francês. Eduardo chamou Macron de idiota e Weintraub, de cretino.

No domingo (25) Bolsonaro respondeu à postagem de um apoiador no Facebook insinuando que a perseguição do presidente francês era motivada por inveja da beleza de Michelle Bolsonaro. O internauta publicou uma foto na qual as primeiras-damas francesa e brasileira apareciam lado a lado e Bolsonaro comentou: "Não humilha cara kkkkk (sic)". O comentário do presidente brasileiro foi apagado, mas não antes de chegar ao conhecimento de Macron. Na segunda-feira (26), o presidente da França respondeu às provocações. Lamentou a postura de Bolsonaro e disse que a sua conduta era triste por ele e para o povo brasileiro, que deveria estar envergonhado.

Imagem ilustrativa da imagem Ciranda de mal-entendidos

No mesmo dia, a hashtag #DesculpaBrigitte foi parar nos Trending Topics, a lista de assuntos mais comentados do Twitter. Milhões de internautas no Brasil e no mundo manifestaram solidariedade à primeira-dama francesa e criticaram Bolsonaro.

Brigitte, 66, é tudo o que uma sociedade machista não admite: casada com um homem 24 anos mais novo, empoderada, independente, dona de uma carreira e de uma vida pessoal bem sucedida. Características que deveriam ser admiráveis tornaram-se alvo de ageísmo, machismo, sexismo, misoginia.

“No caso da Brigitte, a gente vê os fatos indo na contramão da história. Há um entendimento e clareza maior de que é preciso justamente trabalhar pelo inverso, pela maior igualdade de gênero nas diferentes esferas”, disse Ramon Blanco, professor de Relações Internacionais na Unila (Universidade Federal da Integração Latino-Americana) e professor no programa de pós-graduação em Ciência Política na UFPR (Universidade Federal do Paraná). “Mas não há uma surpresa nisso. Desde a campanha o presidente vem tendo posturas machistas, misóginas, homofóbicas. A questão de gênero não é um efeito colateral. É um meio pelo qual a coisa é operacionalizada.”

Resposta de Bolsonaro a uma postagem de apoiador no facebook se desdobra em novas polêmicas. A última envolveu o ministro da Economia Paulo Guedes que soltou "era feia mesmo", mas  já se retratou
Resposta de Bolsonaro a uma postagem de apoiador no facebook se desdobra em novas polêmicas. A última envolveu o ministro da Economia Paulo Guedes que soltou "era feia mesmo", mas já se retratou | Foto: AFP

Ao sair da esfera ambiental e entrar na vida privada do presidente francês, a conduta de Bolsonaro tornou-se mais reprovável, avaliou o cientista político e professor na FGV (Fundação Getúlio Vargas) em São Paulo, Eduardo José Grin. “Era uma relação entre os dois presidentes, mas o Bolsonaro desceu ainda mais o nível de acusação, com uma declaração misógina e contraditória. Se ele defende a família, atacar a família do Macron é uma contradição.”

Os comentários sobre a primeira-dama francesa podem não apenas interferir nas relações diplomáticas entre os dois países, como contribuir para criar dificuldades econômicas para o Brasil em entidades como a ONU (Organização das Nações Unidas), afirmou Grin. Desde 2015, o IDH (Índice de Desenvolvimento Humano), medido pela ONU, passou a incluir um fator sobre a igualdade de gênero que se transformou em uma pauta inadiável no mundo. “O presidente (Bolsonaro) vai na direção totalmente contrária. Sem dúvida, haverá sequelas, censuras e repercute muito negativamente na imagem do Brasil”, disse o cientista político.

NA ONU

O presidente Jair Bolsonaro pretende fazer uma defesa do seu posicionamento em relação à Amazônia na próxima Assembleia Geral da ONU, marcada para o dia 20 de setembro, em Nova York. Como ele passará por uma cirurgia no domingo (8) para corrigir uma hérnia, o presidente avisou que irá para os EUA "nem que seja de cadeira de rodas". "Porque eu quero falar sobre a Amazônia. Mostrar para o mundo com bastante conhecimento, com patriotismo, falar sobre essa área ignorada por tantos governos que me antecederam", afirmou o presidente. Ele também voltou a criticar uma suposta ingerência externa na Amazônia.

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Leia mais sobre a polêmica envolvendo as queimadas na Amazônia

A Folha Rural deste fim de semana (7/8) traz o artigo “Lavouras aqui, florestas lá”, do pesquisador da Embrapa Soja Amélio Dall`Agnol. Segundo o pesquisador, responsável pela coluna Agronegócio Responsável, o Brasil é acusado injustamente de estar derrubando a Floresta Amazônica. “O Brasil é acusado, injustamente, de estar derrubando a grande floresta tropical com índices insustentáveis, embora menos do que 20% dessa floresta tenham sido desmatados e, segundo a NASA (Agência Espacial Americana), apenas 7,6% da vegetação nativa do território brasileiro foi convertida em lavouras, pastagens ou florestas plantadas, contra parcelas muito maiores na média dos países europeus.

Segundo a NASA, os países europeus utilizam - na média - entre 45% e 65% do seu território para atividades agrícolas, muito mais do que o Brasil, portanto”, escreve Dall`Agnol. Ele lembra que existe desmatamento e queimadas na Amazônia: “Sempre houve, principalmente na estação seca (maio/setembro). Talvez não com a gravidade que a mídia nacional e internacional está divulgando”. E pergunta: “As nações desenvolvidas que estão gritando contra as queimadas na Amazônia estão realmente preocupadas com a nossa floresta?” Confira a coluna completa na Folha Rural.

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