Ciranda de mal-entendidos
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sábado, 07 de setembro de 2019
Simoni Saris - Grupo Folha
Os desentendimentos entre os dois chefes de Estado começaram no dia 22 de agosto, quando Macron publicou em seu perfil no Twitter um texto convocando os países do G7 a discutirem as queimadas na Amazônia no encontro que ocorreria naquele fim de semana. Em seguida, pela mesma rede social, Bolsonaro acusou Macron de usar de tom sensacionalista para se referir à Amazônia e que o objetivo do francês ao se posicionar em defesa da floresta era obter ganhos políticos pessoais. Um dos filhos de Bolsonaro, Eduardo, cotado para assumir a embaixada do Brasil nos Estados Unidos, e o ministro da Educação, Abraham Weintraub, também entraram na briga e usaram seus perfis no Twitter para engrossar as ofensas ao francês. Eduardo chamou Macron de idiota e Weintraub, de cretino.
No domingo (25) Bolsonaro respondeu à postagem de um apoiador no Facebook insinuando que a perseguição do presidente francês era motivada por inveja da beleza de Michelle Bolsonaro. O internauta publicou uma foto na qual as primeiras-damas francesa e brasileira apareciam lado a lado e Bolsonaro comentou: "Não humilha cara kkkkk (sic)". O comentário do presidente brasileiro foi apagado, mas não antes de chegar ao conhecimento de Macron. Na segunda-feira (26), o presidente da França respondeu às provocações. Lamentou a postura de Bolsonaro e disse que a sua conduta era triste por ele e para o povo brasileiro, que deveria estar envergonhado.
No mesmo dia, a hashtag #DesculpaBrigitte foi parar nos Trending Topics, a lista de assuntos mais comentados do Twitter. Milhões de internautas no Brasil e no mundo manifestaram solidariedade à primeira-dama francesa e criticaram Bolsonaro.
Brigitte, 66, é tudo o que uma sociedade machista não admite: casada com um homem 24 anos mais novo, empoderada, independente, dona de uma carreira e de uma vida pessoal bem sucedida. Características que deveriam ser admiráveis tornaram-se alvo de ageísmo, machismo, sexismo, misoginia.
“No caso da Brigitte, a gente vê os fatos indo na contramão da história. Há um entendimento e clareza maior de que é preciso justamente trabalhar pelo inverso, pela maior igualdade de gênero nas diferentes esferas”, disse Ramon Blanco, professor de Relações Internacionais na Unila (Universidade Federal da Integração Latino-Americana) e professor no programa de pós-graduação em Ciência Política na UFPR (Universidade Federal do Paraná). “Mas não há uma surpresa nisso. Desde a campanha o presidente vem tendo posturas machistas, misóginas, homofóbicas. A questão de gênero não é um efeito colateral. É um meio pelo qual a coisa é operacionalizada.”
Ao sair da esfera ambiental e entrar na vida privada do presidente francês, a conduta de Bolsonaro tornou-se mais reprovável, avaliou o cientista político e professor na FGV (Fundação Getúlio Vargas) em São Paulo, Eduardo José Grin. “Era uma relação entre os dois presidentes, mas o Bolsonaro desceu ainda mais o nível de acusação, com uma declaração misógina e contraditória. Se ele defende a família, atacar a família do Macron é uma contradição.”
Os comentários sobre a primeira-dama francesa podem não apenas interferir nas relações diplomáticas entre os dois países, como contribuir para criar dificuldades econômicas para o Brasil em entidades como a ONU (Organização das Nações Unidas), afirmou Grin. Desde 2015, o IDH (Índice de Desenvolvimento Humano), medido pela ONU, passou a incluir um fator sobre a igualdade de gênero que se transformou em uma pauta inadiável no mundo. “O presidente (Bolsonaro) vai na direção totalmente contrária. Sem dúvida, haverá sequelas, censuras e repercute muito negativamente na imagem do Brasil”, disse o cientista político.
NA ONU
O presidente Jair Bolsonaro pretende fazer uma defesa do seu posicionamento em relação à Amazônia na próxima Assembleia Geral da ONU, marcada para o dia 20 de setembro, em Nova York. Como ele passará por uma cirurgia no domingo (8) para corrigir uma hérnia, o presidente avisou que irá para os EUA "nem que seja de cadeira de rodas". "Porque eu quero falar sobre a Amazônia. Mostrar para o mundo com bastante conhecimento, com patriotismo, falar sobre essa área ignorada por tantos governos que me antecederam", afirmou o presidente. Ele também voltou a criticar uma suposta ingerência externa na Amazônia.
Leia mais sobre a polêmica envolvendo as queimadas na Amazônia
A Folha Rural deste fim de semana (7/8) traz o artigo “Lavouras aqui, florestas lá”, do pesquisador da Embrapa Soja Amélio Dall`Agnol. Segundo o pesquisador, responsável pela coluna Agronegócio Responsável, o Brasil é acusado injustamente de estar derrubando a Floresta Amazônica. “O Brasil é acusado, injustamente, de estar derrubando a grande floresta tropical com índices insustentáveis, embora menos do que 20% dessa floresta tenham sido desmatados e, segundo a NASA (Agência Espacial Americana), apenas 7,6% da vegetação nativa do território brasileiro foi convertida em lavouras, pastagens ou florestas plantadas, contra parcelas muito maiores na média dos países europeus.
Segundo a NASA, os países europeus utilizam - na média - entre 45% e 65% do seu território para atividades agrícolas, muito mais do que o Brasil, portanto”, escreve Dall`Agnol. Ele lembra que existe desmatamento e queimadas na Amazônia: “Sempre houve, principalmente na estação seca (maio/setembro). Talvez não com a gravidade que a mídia nacional e internacional está divulgando”. E pergunta: “As nações desenvolvidas que estão gritando contra as queimadas na Amazônia estão realmente preocupadas com a nossa floresta?” Confira a coluna completa na Folha Rural.