O desejo de reencontrar, no futuro, amizades que marcaram tanto uma fase da vida e registrar sentimentos, assuntos do momento, juntar objetos, fotografias e guardar tudo isso em uma caixa e combinar de abrir com o grupo, somente depois 30 anos. Essa foi a ideia que 14 amigos tiveram, em 2004, nos tempos em que finalizavam o ensino médio em Londrina. Passados 14 anos, eles contam ao Folha Mais como a experiência tem fortalecido vínculos e permitido enxergar as transformações e a passagem do tempo com um expectativa diferente e até surpreendente - sobretudo acerca das escolhas profissionais.

Parte dos amigos mostram a maleta que atualmente abriga as mensagens guardadas para 2030
Parte dos amigos mostram a maleta que atualmente abriga as mensagens guardadas para 2030 | Foto: Saulo Ohara



A afinidade dos meninos ia além da sala de aula. O intervalo, as partidas de futebol e os encontros para andar de bicicleta só aumentaram o grau de amizade daquela turma que, ao vislumbrar que a "farra" estava com os dias contados e que, perto do vestibular e com a necessidade de dedicação intensa aos estudos, diminuiriam as chances de se ver, queriam projetar para o futuro a importante amizade que construíram. "Na virada do 2º para 3º ano fizemos uma festa para marcar esse período de transição, sabíamos que dali pra frente seria uma outra fase, não teríamos mais a mesma liberdade e teríamos que virar gente e até estudar em outra cidade", explica o coordenador de marketing e eventos, Ivan Nishi, hoje com 32 anos.

Da ideia para concretização, eis que um tubo de PVC recebeu cartas de todos os amigos. "Cada um escreveu o que quis e eu sinceramente não me lembro o que está lá", diz Nishi. Vai ser uma surpresa". Disquetes, tênis da moda, carteirinhas de estudantes e outros acessórios que remetem a essa época tão especial para os garotos. Uma das regras era que se um de nós falecesse, cápsula deveria ser aberta e, infelizmente, isso aconteceu". Era dezembro de 2010, período em que os que estudam fora retornam para a casa da família para passar as festas de fim de ano e férias e Renan Saito perdeu a vida em um acidente de carro. "Renan fazia medicina e no funeral decidimos abrir a cápsula, retirar seus pertences e os entregamos para a família dele", relatam. "Foi emocionante ver a sua mensagem. Era curta, guardada em um pote de filme de fotografia, mas que transmitia toda a sua personalidade e bondade por meio de palavras", recorda Vitor Tsuguio Hiraiwa.

"Fiquei muito feliz por saber que a morte do Renan não significou um fim, mas o começo de uma amizade mais sólida, cheia de valores e sentimentos entre o grupo de amigos. Eu sinto que a perda de alguém tão querido quanto ele causou a ressignificação dos nossos valores e prioridades de vida, passamos a olhar coisas simples com outros olhos", disse a irmã de Saito, Renata Saito, em nome também de seus pais, Márcia e Celso.

De tubo de PVC a maleta, o importante é o conteúdo
Diante da necessidade de abrir a cápsula os amigos contam que a ação foi trabalhosa. "Foram muitas horas procurando, embora tivéssemos noção de onde estava. Daí em diante passamos tudo para uma maleta. Ela tem duas chaves - distribuídas para dois amigos e um outro é incumbido de ficar com a maleta". A cada ano, o grupo se reencontra, é feito um churrasco e um novo sorteio para as chaves e maleta. "Quem está com a maleta tem a missão de organizar um churrasco para todos", explicam. "Então né, Lucas", cutucam o amigo lembrando que a data está próxima.

Feito coração de mãe, a cápsula foi recebendo também as cartas e objetos de significado para os cônjuges e novos amigos em um sinal de evolução e de como é especial fazer parte desse grupo. Da ideia inicial à inserção de pensamentos, ao momento de decidir sobre um novo formato, a cápsula se revigora. "Sim, temos um grupo no WhatsApp, e naquela época era só orkut", divertem-se.

"Era um desejo, uma vontade de manter a união e amizade desse grupo incrível; de aprisionar parte de nós mesmos em um espaço imutável e eterno. Não importaria o que acontecesse - aquele momento que guardamos estava protegido... E iríamos reviver aquilo em algum momento com todos juntos!", resume o administrador de empresas Igor Kuromoto de Castro.

MENSAGENS

"Infelizmente um amigo maravilhoso veio a falecer num acidente terrível, foi horrível, o sentimento de perda de um irmão, um dos mais corretos da turma, sempre muito esforçado, tímido e muito brincalhão. Amigo, pescador, boleiro, sorridente e esforçado, são as poucas qualidades que me surgem ao lembrar do nosso querido amigo." Hugo Naotoshi Miyabara, microempresário

"Espero que continuemos nos encontrando, no mínimo uma vez por ano, até 2030, quando, definitivamente, iremos abrir a cápsula, quero muito que meus filhos participem disso e que despertem o interesse nesse tipo de prática para manter amizades que durem a vida inteira, como é o nosso caso." Murillo Aramaki Bianco, engenheiro civil

"Lembro-me como se fosse hoje, em um fim de semana, no final da tarde, nos reunimos com vários amigos de longa data na casa do Ivan Nishi para guardar objetos que nos fariam lembrar mais tarde da juventude, infelizmente já está chegando perto da hora de abrir a cápsula do tempo, estamos ficando velhos. Como passou rápido!" Vitor Inouye, administrador

"Toda vez que nos reunimos fazemos novas memórias e fortalecemos nossa amizade. O Renan era aquele cara que quando faleceu todos os amigos pensaram: "esse é o cara que não merecia morrer agora". Ele estava no começo do curso de medicina, para o qual ele passou anos estudando para conseguir entrar. Que 2030 seja um momento de renovação e não de término." Gabriel Gambarini Cunha, gerente de TI

"Na época já sabíamos que cada um iria seguir um caminho diferente e que seria importante manter contato. Todos os anos nos reunimos para comemorar o aniversário da cápsula e juntar todos novamente. Hoje a 'família' já aumentou com esposas e filhos, mas a essência da reunião sempre se manteve." Eduardo Itiama, administrador

"O conceito era bem simples: um grupo de amigos querendo tornar bons momentos juntos em memória. Com o passar dos anos, muitos mudaram de cidade, casaram, tiveram filhos e a cápsula do tempo continua sendo uma oportunidade de reencontro para todos nós."
Vitor Tsuguio Hiraiwa, administrador

"Um dos aprendizados que levo com a morte do Renan até hoje é que a vida só vale a pena quando é compartilhada. Podemos levar o amor no meio do caos que vivemos de inúmeras formas, seja com abraços, sorrisos, caridade, por meio da arte, com a troca de conhecimentos e respeito a todos os seres que existem." Alexandre Oguido, servidor público

" Significa uma amizade que atravessa décadas. Minha expectativa ao reler a carta é de poder ter realizado os sonhos que eu tinha em 2010, ver que aqueles sonhos se tornaram realidade, e que estejamos todos saudáveis e juntos quando esse dia chegar." Leticia Sales, empreendedora

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