Capacidade em alta, oportunidade em baixa
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sexta-feira, 13 de julho de 2018
Lais Taine<br>Reportagem Local 

As transformações sociais resultaram em cinquentões mais saudáveis, mais produtivos, com maior expectativa de vida e maior expectativa em relação ao que está por vir. Econômica e politicamente, essa geração tem grande importância na configuração social brasileira atual, mas ainda é pouco valorizada. A análise de Samira Kauchakje, 56, cientista política da PUCPR (Pontifícia Universidade Católica do Paraná), apresenta as mudanças e os desafios dos atuais cinquentenários.
Ela destaca que o novo perfil das pessoas entre 50 e 60 anos tem uma relação com três fatores. "Vamos pensar em uma geração Leila Diniz, da contracultura, sociedade alternativa não só em modelo econômico, mas de identidade, e, junto a isso, as políticas públicas de garantia de direitos relacionados à saúde na década de 1980, mais especificamente em relação às mulheres na faixa reprodutiva", explica.
Segundo a cientista, as políticas públicas ampliadas garantindo a saúde como direito de todos na década de 1980 tiveram importante repercussão no desenho demográfico do País. Além disso, as ações públicas ligadas ao acesso universal à contracepção e planejamento familiar, também no mesmo período, mudam a expectativa de vida, perfil econômico e educacional, trazendo maiores perspectivas às famílias.
Outra questão é a herança de movimentos anteriores de contracultura, sociedade alternativa, revolução sexual e atitude combativa, buscando outra forma de pensar a presença no mundo e também as questões políticas em relação ao estado, reivindicando identidades diversas na formação de um ambiente de não conformismo e papéis sendo contestados. Essas ações, segundo a especialista, justificam as diferenças entre essa geração de cinquentenários em comparação aos cinquentões antigos.
APARÊNCIA FÍSICA
Somado a isso, a cientista política explica que algumas décadas atrás, o tempo de vida era mais curto, o que muda a relação quanto ao tempo. "A expectativa de vida aumentando muda também a expectativa em relação à vida", afirma. Portanto, há uma mudança de atitude perante a essa transformação do tempo. Tempo que molda também a aparência física. "Há todo um comércio, toda parte produtiva voltada a esse público, tanto na saúde como na indústria da preservação da beleza. Isso faz com que a aparência se modifique."
Para além da indústria do culto ao corpo, o menor desgaste físico também contribui para esse novo molde. "As pessoas entre 50 e 60 anos hoje se beneficiam de uma vida mais cômoda, a despeito das desigualdades, mas, no geral, a vida é muito mais cômoda e poupa muito mais o corpo das pessoas", explica Kauchakje, afirmando que isso se deve aos avanços tecnológicos e também às conquistas de leis trabalhistas, com proteção ao trabalhador, com tempo e condições de trabalho regulados e garantidos pelo estado.
COMPETITIVIDADE
No entanto, quando se trata de garantia de oportunidades no espaço de trabalho, há uma desvantagem. Embora a cientista política concorde que os cinquentenários sejam os novos trintões na aparência e também na capacidade produtiva, há ainda um preconceito. "Não somos os 30 em relação às oportunidades. Nós temos uma cultura de valorizar a juventude, portanto, há uma preferência por pessoas mais jovens, então a competitividade se dá também pela faixa etária", argumenta.
Para ela, a própria configuração do espaço público para ocupar a cidade, bares, etc. é voltada para os mais jovens. Nisso, tece crítica à desvalorização. "Há um descompasso, porque os cinquentenários são as pessoas que garantem os jovens, pois eles estão estudando para entrar nos espaços de trabalho. Os jovens perto dos 20 e 30 anos dependem dessas pessoas de 50 e 60", afirma. Esse desequilíbrio é ainda maior nas camadas menos privilegiadas e nível de escolaridade mais baixo.
Avaliando essa estrutura social brasileira, que em alguns aspectos há uma evolução dos cinquentenários e, em outros, desafios, Kauchakje acredita que estamos em movimento. "Para nós, em nossa cultura especialmente, eu diria que os 50 anos estão sendo os novos 30. Somos os novos 30 em termos de expectativas e capacidade produtiva, o trabalho como parte da vida e de identidade, mas nós não temos as mesmas oportunidades", destaca.


