Cada toada representa uma saudade
A música caipira passou por longa trajetória, saiu do campo, mas não deixou o campo sair dela
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sábado, 03 de agosto de 2019
A música caipira passou por longa trajetória, saiu do campo, mas não deixou o campo sair dela
Laís Taine - Grupo Folha 

A natureza é a casa do caipira, mas a necessidade fez com que muitos deixassem seus lares para viver na cidade. A música acompanhou esse trajeto de quem precisou se acostumar com os costumes urbanos. Nesse processo, a tristeza ficou marcada em versos e melodias simples, mas cheios de sensibilidade, tocando o coração até de quem não vivenciou a rotina caipira.
“Pois o Jeca quando canta, dá vontade de chorar”, disse o compositor Angelino de Oliveira, em 1918, ao escrever a obra mais emblemática do gênero: “Tristeza do Jeca”. Não a primeira gravada, mas muito difundida na época, a canção se tornou o marco inicial da música caipira, como explica Edvan Antunes, autor do livro “De caipira a universitário”. “Ela foi composta em Botucatu (SP), em 1918, e de boca em boca se tornou muito conhecida, mas só foi registrada de maneira fonográfica em 1929”, explica.
O gênero sofria estigma pelas gravadoras multinacionais instaladas no Brasil, fazendo com que as músicas do interior não entrassem na indústria. A primeira música caipira só foi gravada por iniciativa de Cornélio Pires, folclorista e ativista cultural brasileiro, que pagou do próprio bolso o primeiro disco caipira. “Ele era aficionado pelo gênero, porque cresceu ouvindo isso, não entendia porque as gravadoras não queriam. Em 1929, ele lançou o disco com selo vermelho, indicando que só ele podia vender”, conta o autor.
O disco continha poemas do autor, modas de viola e a música Jorginho do Sertão nas vozes da dupla Mariano e Caçula. Foram 25 mil cópias vendidas em um período em que se lançavam duas mil tiragens. Imediatamente as gravadoras passaram a buscar duplas no interior e as canções começaram timidamente a entrar na programação das rádios.
SUCESSO
Muitas duplas ficaram conhecidas a partir de então. Em 1940, Tonico e Tinoco se torna a dupla porta-voz do gênero. “Eles conquistam ampla aceitação popular e se tornam os primeiros ícones genuinamente caipiras, com temática do campo, natureza, vida simples. São referência, ganham popularidade, se expandem e outros estados começam a consumir essa música”. Antunes comenta que novas duplas surgem alimentando o gênero, como Liu e Léu, Zico e Zeca, Luizinho e Limeira. Músicas como “Cabocla Tereza”, “Menino da Porteira”, “Chico Mineiro” começam a entrar no repertório do brasileiro.
SERTANEJO
Aos poucos, a música caipira vai se misturando a outros gêneros. “Por volta de 1950 entram as rancheiras mexicanas, as influências da América Latina. Outras duplas gravaram guarânias paraguaias e começou-se uma metamorfose”, explica. Com essa mistura, introdução de novos instrumentos, nasce a música sertaneja. “Continuou a música de viola, do campo e das coisas simples, e outras duplas foram por outros caminhos, com temáticas mais românticas, dor de cotovelo”, explica.
UNIVERSITÁRIO
O sertanejo foi composto de várias influências e foi se transformando levando a outra ramificação: sertanejo universitário. “A única coisa que tem de caipira nesse gênero é o fato de duas pessoas cantarem juntas e afinadas, mas é uma música totalmente comercial, descartável, reflexo do tempo em que a gente vive”, argumenta.
MÚSICA CAIPIRA
Isso porque o autor enfatiza que a genuinidade da música caipira está na viola e na temática do campo. “É um registro de uma época. A fotografia de um Brasil extremamente rural”, afirma. Para o autor, esse contexto da agricultura ainda mantém em evidência essa música. “Sintetiza o sentimento de milhares de pessoas que saíram do interior, mas mantém dentro de si o sentimento caipira. Embora eu nunca tenha morado em sítio, esse sentimento com a terra natal é terno e bonito”, responde o autor, que tem como preferida “Saudade da Minha Terra”, composta por Goiá. “Essa música conseguiu sintetizar o sentimento de brasileiros que saem do campo, mas o campo não sai deles, esse desejo de retornar para sua terra, de lembrar sua infância, essa música tem uma poesia que consegue sensibilizar as pessoas que ouvem”, defende.
ORIGEM
O gênero música caipira é 100% brasileiro. A mistura entre índios e portugueses deram início a essa forma de se expressar e falar do campo. Edvan Antunes, autor do livro “De caipira a universitário”, explica a origem das canções caipiras. “Muitas pessoas pensam que a música caipira começou com Tonico e Tinoco, mas para puxar o fio dessa história é preciso voltar ao período da colonização. Os portugueses trouxeram a viola para cá. Os jesuítas usavam a viola como meio de catequização”, conta.
A viola se tornou parte da expressão popular, inserida nos ritos religiosos e em comemorações. Com o tempo, os bandeirantes ficaram responsáveis por explorar o país atrás de ouro, disseminando sua cultura entre a mata. “Quando os índios avistavam aqueles homens derrubando árvores, fazendo a picada no mato para acampamento, eles gritavam na língua tupi: ‘kaapira’, que quer dizer cortador de mato”, ensina o autor.
Muitos desses homens se estabeleciam no interior e casavam-se com as índias. Os caboclos, filhos de índios com os portugueses, se estabeleceram pelo interior e o termo se tornou caipira. “Naquele mundo distante, a viola estava envolvida no rito religioso e também no lazer e começa a brotar um estilo que é 100% nosso, brasileiro”, explica.
DUPLA
“Cantar em dupla é a base desse gênero musical. Naquele tempo existiam as modinhas, música de dança e quadrilha e cantar com o amigo ou parente era o que havia, porque não tinha estrada, você via na pessoa próxima uma forma de interagir, se divertir, cantar, dançar”, afirma Antunes. Essa proposta se mantém até hoje, com muitas duplas formadas entre irmãos ou amigos.
PRECONCEITO
O estilo fora do eixo das capitais foi por muito tempo estigmatizado e, por isso mesmo, demorou para conquistar o mercado. Para o autor, a música caipira deveria ser motivo de orgulho no País, assim como outros gêneros que sofreram o mesmo processo, como chorinho e samba.
“Eu acho que o Brasil, infelizmente, valoriza muito o que vem de fora. Tudo que vem de fora é bom, mesmo sendo ruim e tudo que é nosso é ruim, mesmo sendo bom”, critica.
A música caipira faz parte da identidade do homem do interior, que há algum tempo começa a assumir o estilo com orgulho, mas ainda precisa enfrentar barreiras. “Essa música é escondida, esquecida, a gente prefere consumir o que vem de fora, mas o Brasil tem música para o mundo inteiro aplaudir”, defende.


