Neyde Jordão: ‘Na África, a gente aprende a trançar com as bonecas’
Neyde Jordão: ‘Na África, a gente aprende a trançar com as bonecas’ | Foto: Gina Mardones



Quando a cabeleireira e administradora de empresas Neyde Jordão veio de São Tomé e Príncipe para o Brasil, há 12 anos, para participar de um intercâmbio universitário, se surpreendeu com a "mesmice" dos cabelos das brasileiras afrodescendentes. "As mulheres de cabelo crespo alisam por não saberem cuidar. Todo mundo elogiava as minhas tranças, por isso comecei a oferecer serviços de cabeleireira para cabelos afro", conta a proprietária do salão Afro Londrina, especializado em cabelos negros.
Hoje, ela emprega cabeleireiras angolanas, haitianas, camaronesas e brasileiras. Em comum, elas possuem o conhecimento ancestral sobre os cuidados com os cabelos, que lhes foram ensinados ainda na infância. "Na África, a gente aprende a trançar com as bonecas", conta. O trabalho de Neyde está ajudando muitos afrodescendentes de Londrina a mudarem a relação com a própria aparência. "Os clientes ficam encantados quando ensinamos a cuidar dos cabelos", diz. Usar produtos certos, pentear apenas no banho, usar os dedos ou pentes largos para desembaraçar e usar produtos específicos inclusive nas tranças são as dicas básicas. "Praticamos empoderamento através do cabelo", comemora.



Neyde conta que ela e as outras cabeleireiras também usam cabelo liso de vez em quando. "Para nós é só um penteado e não uma questão de aceitação social. Uso liso por um tempo, depois faço tranças... É só uma questão de aparência", opina ela, que fica contente quando percebe nos clientes a libertação do padrão liso. "Hoje somos procuradas por pessoas brancas que também querem tranças. Atendemos todo mundo", garante. A única dificuldade de trabalhar no Brasil é em relação a encontrar produtos especializados para negros, que ainda são escassos e de má qualidade. "A indústria poderia investir mais nesta área", pede. (C.A.)

Imagem ilustrativa da imagem Cabelos crespos com orgulho
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