Brincar nunca sai de moda
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sexta-feira, 05 de outubro de 2018
Lais Taine<br>Reportagem Local 
O ato de brincar nunca fica ultrapassado, o que muda é o jeito de brincar. Estela Ferreira, 63, conta como era com suas bonecas feitas de milho. "A gente apanhava a espiga, tirava uma parte da palha, puxava o cabelo... Tinha umas ruivas, loiras (ri), a gente colocava roupinhas com retalho e brincava", recorda. A memória da professora aposentada vem de uma infância livre de tecnologia, mais próxima da natureza e cheia de criança aprontando.

"Cavalo de pau. Achava um cabo de vassoura e punha cabeça nele. Burquinha, a gente ganhava e tinha um ciúme daquelas bolinhas, até brigava", lembra rindo. Com um irmão gêmeo, recorda que na chácara onde vivia, na cidade de Nossa Senhora das Graças, Norte do Paraná, não ficava só nas bonecas. "Tinha uma mangueira no quintal, a gente subia."
O quintal era repleto de convites: frutas, folhas, pedras. "Fazia chiqueiro de pau, brincava de casinha, comidinha com as coisas que havia no nosso entorno", menciona. Naquela época, para brincar era necessário apenas sair pelo portão. "Toda casa tinha umas quatro ou cinco crianças, então juntava umas 40 na rua. A gente saía e já tinha criança, chamava um vizinho, começava do nada", conta.
Com essa quantidade de crianças, as discussões aconteciam com frequência. "Dava muita briga, mas a gente mesmo resolvia em um tapa, no tô-de-mal, no correndo e escondendo, no outro dia estava tudo bem. Mas lembro que minha mãe ia lá e brigava por nós também", ri da lembrança.
As cantigas sempre foram muito presentes na infância de Ferreira. Elas ditavam o ritmo das brincadeiras de roda. Para os maiores, a diversão era atrapalhar os pequenos. "Minha irmã era mais velha, sempre estragava. A gente chorava, corria atrás da mãe", revela.
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O convívio com outras crianças auxiliou no desenvolvimento. "A gente era muito esperto, mas porque era muito solto. Tinha bastante liberdade, até passava uns apuros. Proporcionar que a criança brinque faz com que ela aprenda mais", salienta.
No tempo de Ferreira, as brincadeiras exigiam mais criatividade, era preciso exercitar essa habilidade para criar os brinquedos. "Bichinho de pelúcia, eu me lembro, eu só tinha um e ele era tudo", fala, lembrando do valor que dava ao objeto.
Com duas filhas e dois netos, compara os modelos de educação. "Hoje a situação é outra. Antigamente todo mundo cuidava de todo mundo e hoje o vizinho é um estranho. Acho que hoje as crianças não têm tanta oportunidade", critica.
Outra diferença é a relevância do papel da avó. "Como vivíamos todos juntos, a gente tinha mais contato e na casa da vó a gente aprontava mais ainda, porque ela deixava. Eu deixo também", revela.
Apesar do período e contexto diferentes, acredita ter conseguido proporcionar uma infância livre dentro do que era possível para as duas filhas. Agora, com os netos, tem um novo desafio. Se depender da memória, história para contar é o que não vai faltar.


