'Brincar é um estilo de vida'
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sexta-feira, 05 de outubro de 2018
Lais Taine<br>Reportagem Local 
"Eu ouvia minha avó cantando Alecrim Dourado, mas descobri que tem mais outros versos que agora eu divulgo", conta a musicista e professora Meire Valin, 59. "Alecrim, alecrim aos molhos, por causa de ti choram os meus olhos. Alecrim, alecrim miúdo, que nasceu no campo perfumando tudo", canta Valin, que trabalha defendendo canções antigas nas brincadeiras infantis.

Um violão, uma roupa divertida, a voz e o espírito livre chamam as crianças para a brincadeira. A proposta é desenvolver habilidades das crianças ao proporcionar conhecimento através de vivências, mas esse olhar vai além da profissão. "Essa coisa de brincar é um estilo de vida. Eu sou brincante", orgulha-se ao contar que passou a usar o termo quando viveu por dois anos em Olinda (PE), onde, segundo ela, as pessoas são mais brincantes.
O cancioneiro popular está presente na atividade e na memória. "Lembro que quando eu tinha 6 anos, eu morava na Vila Portuguesa, a gente brincava na rua, não tinha asfalto. Tinha muito dessas brincadeiras de roda, com música e movimentos corporais. Eles cumprem a função de socialização, entretenimento, percepção do corpo, um monte de coisa que as crianças vão fazendo naturalmente", conta.
Algumas olham torto para a exuberância resplandecente da mulher apelidada de 'cabeça de nuvem' pelas crianças, fama sustentada com o respeito pelos cabelos brancos. "Antes eu saía de casa toda paramentada, colorida, com vários instrumentos, brincando, e tem criança que não me conhece, se assusta. Tem turminha que já pega fogo, mas tem outras que são mais recolhidas, que eu evito até olhar, não tocar, para que elas se sintam melhor", revela.
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A fórmula é aplicada na escola onde trabalha. Mas no universo particular de cada família, a brincadeira também pode ser estimulada. "Há uma grande crise da civilização, desse modelo econômico que a gente assumiu. As pessoas não têm poder, não se sentem felizes, livres. Essa história da brincadeira tira a pessoa desse equilíbrio ridículo, estático, morto", analisa, por isso, defende que brincar é bom independentemente da idade. "Quando eu toco, provoco as pessoas a cantarem também, brincar, fazer com que elas se expressem e curtam. É simples, não precisa cantar afinado, mas vamos cantar, se relacionar."
O convite é para que todos brinquem com e como as crianças, em qualquer lugar, em qualquer horário, pois a musicista lamenta que muitos pais não aproveitam para se divertir com os filhos. "As crianças estão sentindo uma solidão muito grande. Elas brincam menos, primeiro que não tem espaço para socialização, os pais restringem muito, e o sistema educativo também é aquela coisa retrógrada, as crianças não aguentam mais", afirma. Outra questão é a forma de lazer das famílias. "Elas preferem levar as crianças ao shopping, porque a ideia da diversão está relacionada com gastar grana e não com socialização, troca afetiva", aponta.
Toda essa aula, conhecimento, experiência transformada em brincadeira vem de quem tem o bom-humor já intrínseco. No relato cheio de piadas e palavras engraçadas, Valin não sabe se ela é considerada uma adulta criança ou criança adulta, mas defende a importância do espírito livre para a vida. "A gente sabe brincar, a gente só precisa criar as condições", defende.


