Black Friday: 'promoções', origens e pancadarias

Data comercial com mais adrenalina envolvida, “sexta-feira negra” é um sucesso tão fresco na cultura brasileira quanto "Fugidinha" de Michel Teló

Bruno Codogno (estagiário)*
Bruno Codogno (estagiário)*

O ano é 2010, Michel Teló "pede para dar uma fugidinha com você". Barack Obama é presidente no EUA e Lula no Brasil. Na tecnologia há o lançamento do tablet que ninguém sabia dizer se era um telefone gigante ou 'e-reader' que fazia ligações. Ainda nesse mesmo ano, com a popularização crescente dos smartphones, o aprimoramento do sistema Wi-Fi, o comércio eletrônico teve um estouro de faturamento de 14,8 bilhões, um crescimento nominal de 40% frente aos R$ 10,6 bilhões faturados em 2009, segundo o relatório Webshoppers da plataforma Ebit. Foi nesse clima que no dia 26 de novembro de 2010 o e-commerce brasileiro lançou, numa jogada de marketing de sucesso, a Black Friday.  

Black Friday: 'promoções', origens e pancadarias
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E o grande dia de promoções nas lojas de e-varejo foi inaugurado no país. A partir de então, se tornou comum economizar com antecedência para esperar a quarta sexta-feira de novembro, quando, reza a lenda, os preços se tornariam tão baixos como nunca antes vistos em todos os tempos. E o sucesso foi imediato no Brasil, em 2010 o dia de preços baixíssimos faturou 3 milhões de reais; em 2011, o brasileiro mais acostumado gastou 100 milhões de reais. E então a data migrou do on-line para as loas físicas também e aí foi correria, compras, "mãos para cima e gritaria". 




Black Friday: 'promoções', origens e pancadarias
Adriano Vizoni/Folhapress
 

  

Mas o que fez essa data ser tão especial se sua origem é tão misteriosa quanto a ideia inicial de quanto vão custar os produtos vendidos durante ela? O nome. Na cultura romana um dia de infortúnio (este ater) era um dia negro. Na tradição cristã, a sexta-feira que já tinha fama de ser um dia especial de azar, piorou sua fama, mas ganhou uma redenção com a crucificação de Cristo, na Sexta-feira Santa. Na cultura anglo-saxã, a black friday passou a ser então dias de infortúnios que contrastam com a Santa, em particular eles passaram a usar essa expressão principalmente para designar dias de má sorte economicamente significativos, mesmo que na terça ou quinta-feira. 

  

Uma dessas datas que ajudou a difundir o termo para o mundo foi a crise financeira iniciada na sexta-feira 24 de setembro de 1869 nos EUA. Os corretores Jay Gould e James Fisk tentaram dominar o mercado do ouro na Bolsa de Valores de Nova York. Por conta da distorção econômica causada pela interferência dos dois, o governo foi obrigado a elevar a oferta de matéria-prima à indústria, o que reduziu o preço de mercado dos produtos na linha de venda. O dia ficou conhecido como “black friday”.  

  

Mas existem muitas sugestões de origem. Uma das possibilidades é a denominação dada por policiais da Filadélfia, na década de 1960, para a sexta-feira após o Dia de Ação de Graças, um dia marcado por um trânsito fora do comum a cada ano. O pós-feriado marcava o início das vendas para o Natal e os comércios eram lotados. Os artigos dos jornais da cidade destacavam a grande movimentação de pessoas como “loucura” e ajudaram a popularizar o nome escolhido pelos policiais para a data.  

 

Black Friday: 'promoções', origens e pancadarias
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Ainda, o nome foi usado por conta dos pequenos comércios. É tradição no comércio americano usar o termo “vermelho” para contas negativas e “preto” para contas positivas (do inglês “going back to black”), de lucro após períodos de recessão econômica. A sexta-feira após o dia de Ação de Graças também era chamado de “black friday” por patrões como dia de fraude dos empregados, que diziam estar doentes para emendar o feriado ao fim de semana.  

  

Recentemente, viralizou uma polêmica sobre uma possível origem do termo “black” para o dia de vendas: seria produto de racismo? Apesar da associação com a venda de escravos, as checagens da origem realizadas pelas agências Lupa, e-Farsa, Boatos.org e BBC confirmam que não há ligação entre as duas coisas. No entanto, conforme alerta o linguista Benjamin Zimmer, o uso do termo “black” é atribuído historicamente com tom pejorativo a eventos negativos e calamidades tal qual com a crise de 1869.  

  

As origens são diversas. Mas foi na década de 90 que as lojas passaram a usar o nome com o propósito atual. A partir dos anos 2000 as promoções ficaram famosas e a tendência se globalizou de forma progressiva para comércios de outros países, atraídos pelo potencial de vendas da prática.  No Brasil, para este ano, por exemplo, o mercado de varejo deve faturar R$ 3,79 bilhões em vendas, conforme calcula a Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC).  

  

Nem tudo é o que parece  

  

Assim como nas possíveis origens, a enganação e a ambição podem ser uma característica marcante da “Black Fraude”. Todos os anos viralizam nas redes propagandas enganosas ou mudanças de preço dignas do mote “metade do dobro”. Não foi por pouco que a revista “Forbes” classificou a Black Friday brasileira como “o dia de fraude” deliberada. O apelido “carinhoso” também não é à toa.  

  

Durante a Black Friday de 2019, foram registradas 121.359 queixas no site Reclame Aqui. Foram 24,7% a mais que em 2018. As três principais reclamações do ano passado foram por demora na entrega (49,62%), propaganda enganosa (7,31%) e estorno do valor pago (5,44%). Do total, 76,3% das queixas foram atendidas. A crescente na popularidade e no número de vendas em varejo a cada ano no Brasil é acompanhado diretamente pelo aumento das reclamações e denúncias.  

  

“A ‘ética brasileira’ dos negócios fizeram da Black Friday um exemplo de como os interesses comerciais estão acima do respeito pelo consumidor”, conclui o estudo ‘Black Friday no Brasil: a metade do dobro – o upgrade do jeitinho brasileiro’. O levantamento de Túlio de Oliveira, José Salustiano e Josué Quirino revela que a maioria dos brasileiros não confia nas promoções do período. Mas mesmo assim, o volume de vendas só cresce a cada ano. E as denúncias vão no mesmo embalo.  

  

  



*supervisão de Patrícia Maria Alves (editora) 

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